Poderão ser as obras abstratas consideradas arte? – Um texto de opinião, Ana Catarina Branco Henriques

[Texto revisto por Sebastião Viana]

O movimento abstracionista surgiu dentro do movimento modernista da arte, tendo o como foco quebrar com os dogmas artísticos anteriores, os quais correspondia às academias, as quais influenciadas pelo movimento renascentista, que promoviam o realismo e a representação como o único método válido de produzir arte.

Ao contrário da arte realista e figurativa, o abstracionismo foca-se na intuição do artista e no uso de cores, contraste, formas, linhas e texturas. Contudo, este foco nas formas e nas linhas não significa que o abstracionismo represente objetos reconhecíveis e concretos, o objetivo é muitas vezes criar algo subjetivo, onde cada pessoa possa interpretar livremente o que quiser de certa obra. Não sendo o abstraccionismo uma arte representativa, o artista tem toda a liberdade de criar o que lhe venha à mente, sem restrições algumas.

Há dois tipos de arte abstrata, a arte abstrata expressiva e a arte abstrata geométrica. A arte do primeiro tipo foca-se no sentimentalismo e na intuição do artista, o qual expressa o que sente e pensa através da sua obra. Embora se exprima ainda uma parte do artista nas obras, estas obras tendem a ser subjetivas. A do segundo tipo de abstracionismo foca-se na criação de obras de arte relacionando formas geométricas, combinando cores e tipos de linhas, e sem qualquer tipo de emoção ou sentimento interpretado e expresso pelo artista no seu trabalho.

         Kadinsky não começou por ser um artista abstracionista, a sua arte foi inicialmente influenciada pelo fauvismo e pontilhismo . A sua arte era ainda representativa, contudo o pintor poucas vezes ou nunca representava pessoas nas suas obras, focando-se mais em paisagens. Exemplo de uma das suas obras pré-abstracionistas encontra-se na figura 1, onde se pode observar a representação de uma paisagem, contudo não de forma totalmente realista, com um foco nas cores, as quais tinham todas o mesmo tipo de importância na obra, e no tipo de traço criado ao longo da obra.

            Contudo, em 1910, o autor começa a sua aventura pela arte abstrata, sendo considerado o pioneiro deste movimento artístico. O tipo de abstracionismo que o pintor adotou e, de certo modo, ajudou a fundar, foi o abstracionismo expressivo.

As suas obras, tal como o conjunto de obras intituladas “Composition”, demonstram a importância que o artista deu à composição, organizando o modo como queria produzir certa obra antes de começar a pintar. Como é característico do movimento abstrato, o autor perde nas suas obras a representação de objetos reconhecíveis, trocando-a pela criação de obras com o foco em formas não figurativas que no seu conjunto fazem uma obra subjetiva, ainda que expresse o sentimento e o que o autor tinha em mente na criação daquela obra. Tal como a composição é pensada antes do autor partir para a produção da obra, as cores e as formas são também pensadas pelo artista, sobre como iriam ser colocadas dentro da composição da sua obra.

As suas obras, tal como o conjunto de obras intituladas “Composition”, demonstram a importância que o artista deu à composição, organizando o modo como queria produzir certa obra antes de começar a pintar. Como é característico do movimento abstrato, o autor perde nas suas obras a representação de objetos reconhecíveis, trocando-a pela criação de obras com o foco em formas não figurativas que no seu conjunto fazem uma obra subjetiva, ainda que expresse o sentimento e o que o autor tinha em mente na criação daquela obra. Tal como a composição é pensada antes do autor partir para a produção da obra, as cores e as formas são também pensadas pelo artista, sobre como iriam ser colocadas dentro da composição da sua obra.

Uma curiosidade interessante sobre o pintor é que este tinha uma condição rara nomeada sinestesia[1], a qual ajudou a sua criatividade e na criação das suas obras. A sua sinestesia fazia-o ser capaz de ouvir certos sons quando olhava para certas cores; para si, ao olhar para a um certo tom da cor amarela, o pintor ouvia na sua mente o som de trompetes. Contudo, a sua sinestesia também funcionava ao contrário, quando ouvia música ou certos sons, Kadinsky via certas cores.

É graças à sua sinestesia que o autor criou, por exemplo, a obra “Impression III”, a qual demonstrava o que o pintor sentiu ao ouvir o concerto de Arnold Schoenberg. A criação desta obra também tem no sei seio a preocupação com a composição e o pintor antes de começar a pintar fez diversos esboços que representassem o que sentiu perante este concerto, mas de modo que não representasse nada de forma realista nem figurativa.

O autor usou a sua sinestesia como meio para tornar a sua arte cada vez mais abstrata, pois o autor considerava que quanto menos figurativa e mais abstrata a obra de arte é mais claro e direto será o apelo que tem nos observadores. A música era para si o que de mais abstrato havia e assim, graças ao dom natural que tinha provindo da sinestesia, conseguiu usar a música e transferir o seu caráter abstrato para as suas criações artísticas. O autor queria que a sua arte fosse a expressão da sua alma.

            Kadinsky dedicou 19 anos da sua vida a trabalhar na criação de 10 obras, as quais denominadas “Composition”, elas focaram-se na sua interpretação de músicas e sons, foi o seu modo de colocar formas e cores numa tela do mesmo modo que um artista coloca notas na sua música.

A teoria da arte de Clive Bell:

            Clive Bell esteve muito envolvido com o movimento modernista, o que influenciou a sua teoria da arte. Foi um dos primeiros autores a escrever uma obra que se focasse na questão da arte. Foi na sua obra Arte onde o autor criou a sua teoria da “Forma Significante”.

            Para Clive Bell, o que as obras estavam a representar ou o seu simbolismo não era de todo importante, tal como o contexto em que foi criada ou porquê e para quem pouco ou nada adicionavam à obra. O autor defendia que para considerarmos algo como obra de arte teríamos que sentir a emoção estética quando estamos perante certa obra; seria este sentimento que nos diria que a obra que estamos a avaliar é uma obra de arte.

            O que promovia este sentimento seria a interpretação feita a partir da obra de arte, no entanto Bell aponta características muito específicas sobre as quais deveríamos focar a nossa atenção quando executamos a tarefa avaliativa de uma obra de arte. Para Bell, as características importantes e que têm a capacidade de no seu conjunto promover a emoção estética no observador são: as cores, a sua relação, o tom e o contraste; a escala da obra; a composição; as formas; as linhas; as texturas.

O conjunto destas características presentes numa obra o seria que o autor chama “Forma Significante”, a forma significante seria o que, quando presente numa obra, lhe daria a capacidade de promover no observador a emoção estética, seria neste momento que o observador sentiria em si o facto de certa obra ser uma obra de arte. A forma significante seria a qualidade comum presente em todas as obras de arte, a mesma abrangeria todo o tipo de produção de arte como a pintura, a escultura, a música, etc.

O autor afirma que caso não existisse uma qualidade comum entre tudo o que é considerado obra de arte, então não poderíamos falar do que é a arte pois estaríamos a usar um termo o qual não temos um conjunto de condições adequadas para saber quando o aplicar e ao que aplicar.

No que toca à identificação da forma significante, o autor afirma que no que toca à sua definição e a como procurá-la não poderíamos discordar, ou seja, o conceito estético é o mesmo para todos e todos o têm que aceitar. Contudo, no que toca à identificação de obras de arte, poderá haver discordância, pessoas diferentes podem gostar e considerar diferentes obras de arte como arte e apreciá-las. No entanto, quando comparamos as obras de arte podemos tentar encontrar em comum alguma coisa e, assim, poderíamos perceber que o género de obras de que uma pessoa e outra gostam e chegam a considerar arte, têm alguns pontos comuns  que partilham de forma significante.

            Para Bell, nem todos têm a capacidade de sentir emoção estética e reconhecer nas obras a forma significante, no entanto a capacidade não depende de estudo ou instrução, é apenas uma questão de sorte, a pessoa pode ou não ter esta capacidade.

            O autor afirma que o artista que consegue criar uma obra com forma significante é porque conseguiu transmitir para a obra a forma mais pura da realidade do que foi demonstrado na criação, seja uma pintura de uma cadeira ou uma pintura abstrata. Bell defende que os artistas têm uma visão especial do mundo, são capazes de observar um objeto e captar a sua essência mais pura e observá-los como um fim em si mesmo, o que o objeto é sem estar subjugado a outros aspetos como a sua utilidade. Ao terem esta experiência estética da realidade, sentiriam a necessidade de transferi-la para a obra e assim pintariam algo com forma significante, onde nada para além da realidade pura importasse.

Bell coloca assim a hipótese de que o artista sinta uma emoção estética ao ver a beleza natural como o observador tem ao ver uma obra artística, ou seja, perante a beleza material. Para além desta hipótese, Bell pensa a ideia de que as obras de arte poderão dar-nos uma visão da natureza última da realidade, a forma mais pura da experiência.

            Ainda assim, é importante notar que o próprio autor valoriza muito mais a beleza material do que a beleza natural; pois inicialmente Bell tinha pensado em usar a palavra beleza, trocando de planos quando percebeu que usamos o termo beleza para mais do que objetos artísticos, inclusive objetos ou coisas naturais, às quais o autor não atribui forma significante e, assim, não poderiam compartilhar o mesmo nome que algo relacionado com a forma significante e a experiência estética.

Poderá o abstracionismo como o de Kadinsky ser arte para Clive Bell?

         Um dos aspetos mais importantes da teoria de Clive Bell é que o autor não define um tipo de estilo artístico como menos arte ou com menor tendência a produzir arte que outro (apesar de não gostar muito do tipo de arte “ready made ”); afirmando que uma obra realista e figurativa pode ter tanta forma significante e provocar tanta emoção estética como uma obra abstrata ou cubista. Assim, parece que a resposta à questão inicial é sim, as obras de Kadinsky pode sim ser considerada como arte mesmo sendo abstratas.

            Para Bell, o que importa não é o que está representado figurativamente, mas as características acima mencionadas que em conjunto ajudam a identificar numa obra a forma significante, tal leva-nos a pensar que o abstracionismo seria quase que o pico da forma significante, visto não tem nada de figurativo para nos retirar a atenção da avaliação das cores usadas, das linhas, texturas, contraste, formas, composição etc.

         Quando fossemos analisar esta obra à direita (figura 7), deveríamos prestar atenção às cores, ao modo como as cores, as linhas e as formas foram colocadas na obra (composição), o tipo de linha, a textura, repetição de padrões e não tentar perceber se a forma em vermelho parecerá e será um coração, se na parte direita da obra estaria a tentar ser representado uma flor chamada copo-de-leite, se as formas circulares e retangulares seriam representações de confetti. Esta segunda avaliação é a que Bell considera não desenvolver no observador qualquer emoção estética, poderá sentir outra coisa ao pensar e analisar desse modo, mas certamente não é a emoção estética.

         Logo, se ao analisarmos do primeiro modo e repararmos que a obra tem figura significante e, por isso, despertar em nós emoção estética, poderemos então considerar que essa obra é arte. Assim, as obras de Kadinsky poderão sim ser consideradas obras de arte por quem lhes reconheça a presença de forma significante. A questão da obra de arte em Bell é quase que uma avaliação obra a obra, logo a resposta à pergunta é: sim as obras de Kadinsky podem ser consideradas arte pela teoria de Clive Bell, atenção ao termo “podem” que esta a ser usado ao invés do termo “são”.

Opinião pessoal:

         Após confrontar estas perspectivas, cheguei à conclusão de que pessoalmente não tenho uma conceção do que é, para mim, arte bem definida. Apesar de concordar com a importância da avaliação das características da forma significante Bell aponta, acreditando que ajuda na perceção de apreciação de uma obra de arte ou não e na consideração de se é ou não realmente uma obra de arte; não penso que seja o suficiente. O contexto por detrás das obras e em que condições o artista as criou para mim parece acrescentar algo necessário na minha avaliação e apreciação de uma obra de arte.

            Usando Kadisnky como exemplo, ao observar as suas obras, principalmente as abstratas, e analisando as cores, as formas e as linhas (entre outros aspetos) sinto em mim o sentimento de apreciação pela obra, de gosto pelo que estou a ver e na minha mente vem o pensamento “isto sim é uma obra de arte”; contudo, tudo o que estou a ver muda de acordo com a minha nova perspetiva quando aprendo que o autor tinha sinestesia e as suas obras são para ele a representação do que a sua condição o fazia ver e sentir ao ouvir música. Passo a começar a observar o quadro e a tentar perceber o que o autor queria representar com certa parte da obra e o que lhe poderia ter surgido ao olhar para ela. Isto faz com que não consiga concordar totalmente com a teoria de Bell, mesmo sem ter uma ideia pessoal definida tenho que admitir que o contexto do autor e da obra ajuda na sua apreciação e consideração como arte.

Bibliografia:

Aidar, L., n.d. Abstracionismo. [online] Toda Matéria. Available at: <https://www.todamateria.com.br/abstracionismo/&gt; [Accessed 13 December 2021].

Frazão, D., 2021. Biografia de Wassily Kandinsky – eBiografia. [online] eBiografia. Available at: <https://www.ebiografia.com/wassily_kandinsky/&gt; [Accessed 13 December 2021].

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Significados. n.d. Significado de Abstracionismo (O que é, Conceito e Definição). [online] Available at: <https://www.significados.com.br/abstracionismo/&gt; [Accessed 14 December 2021].

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Warburton, N., 2007. O que é a Arte?. 1st ed. Lisboa: Editorial Bizâncio, pp.13-75.

Wassilykandinsky.net. 2008. Wassily Kandinsky – 610 artworks, biography, books, quotes, articles. [online] Available at: <https://www.wassilykandinsky.net/&gt; [Accessed 14 December 2021].


[1] Sinestesia é a condição cerebral onde uma parte do cérebro acerca de um certo sentido é ativada através da experiência ativa de outro sentido como, por exemplo, a ativação do paladar e a sensação de um certo sabor ao experienciar um certo som.


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