A flor do ipê, Victor Hugo Delfante Borborema

Imagem: “Estudo de Composição (Figura Só) III (1930), de Tarsila do Amaral.

[revisão de Rita Homem]

Oh doutor, doutor! Ei! Por favor, espera, não sou ladrona, não… É que ia perguntar ao senhor doutor se o senhor aceitava comprar um pé-de-moleque1 p’ra me ajudar. Sabe, tenho filho criança em casa. Sou Jacira, minha voz é diferente porque não sou daqui, não, senhor doutor. É fresquinho, sim senhor, de rapadura de primeira, a que vem da fazenda dos Guimarães. O troco, espere que já providencio na Venda d’João. Não carece? Uai, pois eu agradeço, Deus lhe pague mesmo, seu doutor. Sim, um filho pequeno, de pouco saído do colo, só eu para criar… O pai? É tanta coisa que dá pano para manga… Tem tempo para os tintins-por-tintins? Se quiser, paro agora, senhor…

Então vamos para debaixo dessa mangueira2 que conto. Do tal, o pai, eu não dou notícia desde que peguei barriga. Fugiu para o mundo, correu do problema que ele plantou na minha barriga. É, homem… Minha família, muito longe daqui. Quem me trouxe para cá foi meu marido, hoje perdido no mundo, fugido, também pai dos meus filhos. Ele disse de uma terrinha boa para a gente casar e viver em alegrias para sempre. Ele me convenceu de um amor tão grande e imenso que me fez largar tudo. Era uma noite de maio. Ele dizia para fugirmos logo, que se pensar demais nunca ia fazer isso, que eu era a mulher da vida dele, que aqui é que era bom. Acreditei… Montei meu embornal3 e fomos noite adentro. Agora estamos só eu, meu filho e Deus. Antes desse pequeno, veio o mais velho, hoje na idade dos 20 verões, mas ele é destraviado4 de casa, envolvido com mulher, uma brigaiada5 só. Em primeiro, encontrei modo de vida vendendo lenha, mas começaram a me enganar demais, falavam que iam pagar depois e nunca mais apareciam. Um dia desses, fui cobrar e levei um soco no rosto. A paga foi um olho arroxeado. Então, me deram a ideia de fazer os pés-de-moleque, porque aí eu já ficaria recebendo o dinheiro na hora, e agora estou mais firme6: se quiser, paga antes.

Eu morava no pé da Serra do Alaripe, na colônia da Fazenda Monte Verde do Seu Coronel Sérgio Almeida. Era uma terra farta, boa para frutas de toda sorte, feijão, café… Tudo que você possa pensar, até represa com tilápia7 tinha. Morava junto da minha mãe e meu pai. Vida simples, mas sem miséria. Fome nunca passamos! Eu tomava escola e o professor me prometia formar professora também, para ficar substituindo ele, já velhinho, muito velhinho. A gente vai vivendo sem saber da sorte que é ser feliz, ter comida na mesa, até que um dia… A vida e as suas voltas…

Certa vez, veio um pessoal de fora trazendo boiada8 para o Seu Coronel Sérgio e um desses boiadeiros9 começou a se engraçar p’ro meu lado e eu, tola, retribuí. Ele perguntava das ciências da escola, pedia para eu lhe ler poemas de amor, eu lhe ensinava os nomes das flores, dos pássaros, dos riachos, dos santinhos de nosso Senhor. Ele parecia maravilhado e, no meio disso tudo, eu fiquei também. Ao raiar de cada novo dia, vivia um sonho e um pesadelo, porque, conforme os dias ao lado dele iam passando, mais perto da data d’ele ir embora, chegávamos. Na última semana, me bateu uma amuação10 tão forte, que acharam que eu tinha tomada doença forte. Não era, não; era paixão. E aquele boiadeiro vinha para perto de mim e sussurrava ao meu ouvido planos de fugir para uma cidadezinha linda onde seríamos felizes para todo o resto da vida, onde cada dia seria como os que tínhamos vivido ultimamente. Meus pais não aceitariam de jeito nenhum, sair pelo mundo assim, mas a ideia ia crescendo e eu fiquei em luta comigo mesma. Perdida, perdida, perdida… Esses dias pareceram uma eternidade. Rezei.

Até que certa noite, tudo em silêncio profundo do sono, eu acordei com umas batidinhas na janela do meu quarto. Era ele, justamente! Seu nome ainda não mencionei, era Augusto. Falava para irmos ali e agora, que a montaria11 já estava pronta para fugirmos, que se pensássemos demais não faríamos nada, que era até possível que eu ficasse pior na doença. A gente, na juventude, quer acreditar nos sonhos que nos são oferecidos. Peguei meu embornal e viajámos noite adentro. A vida e as suas voltas…

Dias e dias se passaram, aos poucos até as plantas eram diferentes, a cor do capim, o falar da gente, o passar do tempo… Só estávamos eu e ele naquele mundão pardo. Na viagem mesmo, quando reconhecia algum passarinho de nome conhecido, falava para era com animação, mas… o que aconteceu? Aos poucos, ele foi se mostrando sem paciência, sendo que, dias antes, ele era todo ouvidos. A cada trecho da estrada, aquele homem se embrutecia da mesma forma que a terra ao redor. Do verde ao marrom. Me calei. Por fim, chegamos na cidadezinha que ele falou, Valparaíso chamava-se. A casinha para onde fomos era com quintal com cerca de bambu e umas plantas secas mortas no chão. Falei que ia cuidar daquela terra e fazer uma horta farta, verdura de toda qualidade para a gente comer e vender. Contrariando ele, que disse que naquela terra havia sal, fui cultivando dia a dia e, ao fim de um tempo, meu plano deu certo: alface, couve, cebolinha, tomatinho, de tudo tinha e fiz meu dinheirinho, que guardava debaixo da cama.

Nessa época, Augusto tomou gosto por beber, passava o dia na taverca e só voltava ao almoço ou depois tarde da noite. Ele me possuía, mas sem amor, usava meu corpo como se eu fosse uma qualquer. Fui-me fechando, mas ele foi ficando agressivo, me usava forçadamente. Eu chorava, ele berrava e depois caía estrampido12 de prazer e dormia ao meu lado… Desculpe-me falar assim, senhor doutor, mas eu falo sem pudor. Bom, eu achegava no cantinho da cama, longe daquela besta-humana tão diferente do homem curioso, carinhoso, caloroso que tinha conhecido… Sentia um medo tremendo, de modo que  comecei a traçar um plano para deixar ele e voltar para minha casa.

Uma tarde, fui ver quanto custava para comprar uma montaria e, conversando com o vendedor, ele falou que não é bom para o bebê fazer tão grande viagem… Bebê? Não, senhor, não tem isso não. De pronto, brotou água pelos meus olhos e voltei correndo para casa. Coloquei a mão na barriga e chorei, chorei amargamente. Me disseram o que eu já sabia e não queria acreditar. Careci de tomar resignação. Naquela época, conversei sério com o Augusto, disse que, se ele não tomasse rumo na vida, ia embora ter meu filho em outro lugar. Ele prometeu que ia largar o vício e ajudar em casa. Por três meses, vivi no paraíso prometido, ele ajudando em tudo e trazendo dinheiro para casa; nos próximos três, comecei a notar uma má-disposição da parte dele e umas brutalidades; nos últimos três, me dei conta da minha estupidez em ter acreditado nele. Concebi desgosto. O dinheiro que juntava debaixo da cama, eu ia usar para o enxoval do bebê. Certo dia, fui apanhar e não tinha nada. Só a caixinha vazia… Augusto gastou toda a economia em bebida. A horta, a esse ponto, toda descuidada… Algumas plantas começavam a secar. Eu, imensa de grávida, até tentava cuidar, mas sozinha já não conseguia ter o mesmo esmero de antes. Nunca me senti tão solitária… Olhava para minha barriga e chorava, tinha dó daquele ser que viria a esse mundo de miséria, de homens que são feitos lobos.

Por fim, o bebê nasceu, dei o nome de Jorge, feito o santo, e um milagre aconteceu. Uma vizinha minha, Dona Iraci, velhinha, velhinha, vendo a feição das coisas começou a me ajudar, a tomar o bebê para cuidar enquanto eu curtia o resguardo13. Fiz forte amizade com ela, que me ajudou, passava quase o dia todo em casa dela, e posso dizer que conheço amor depois de tanto tempo. sim, sim, Dona Iraci era inigualável… Certas pessoas vêm para esse mundo com a fagulha da bondade dentro do peito e, contrariando a ordem do mundo, só vão alimentando mais e mais essa fagulha, até que viram estrelas.

Por muitos anos, Dona Iraci foi minha estrela-guia, uma mãe e amiga, um presente de Mãe Maria. Numa madrugada de novembro, quando Jorge já tinha 10 aninhos, acordei com uma dor muito forte no coração, com uma falta de ar pesada, parecia que o ar não bastava, um mal pressentimento ruim, o senhor entende? O galo nem tinha cantado nesse dia e saí à rua, precisava de ver como Dona Iraci estava. Lembro esse dia como se fosse ontem, o céu armando chuva, uma ventania só, cão ladrando ao longe… Rapidinho cheguei à casa dela, batia, batia palma, tentava acordá-la, tencionava só ouvir a vozinha dela para ficar mais calma, mas nada… silêncio mortal. Dei a volta, entrei pela portinha de trás da casa, que ela costumava se esquecer de trancar. Entrei, meu olho já enchia de lágrimas de nervosismo, chamei de novo e, de novo, nada; então fui para o quarto dela.

Ela estava deitadinha na rede dela, a alpargata14 no chão, os santinhos dela no canto da parede, uma rosinha num vasinho, tudo na normalidade. E ela? Morta. Naquela madrugada de novembro, uma parte de mim morreu com Dona Iraci, que hoje brilha no céu acima da gente… Guardei de lembrança dela um tercinho de ouro que ela sempre dizia que queria que fosse meu. Quantas noites só encontrei coragem nesse terço, o senhor não avalia… Bem, o que a vida exige da gente é força.

Por essa época, percebi que o Augusto era um homem de altos e baixos, que a nossa vida de casal variava entre o céu e o inferno… Eu mesmo sou complicada, confesso ao senhor, mas o mal dele era a bebida. Aquilo o transformava em lobo, transfigurava o sorriso bom em um carranca que botava medo em mim e no Jorginho. Nessa época, ele conseguiu um trabalho fixo na colheita de cana-de-açúcar, mas o dinheiro só serviu para a desgraça, porque aumentou o vício. Continuei a hortinha, já tinha a freguesia e meu dinheirinho quando peguei barriga de novo depois de uma noite em que Augusto, chegando nervoso das bebedeiras, precisava de descontar a tensão em alguma coisa. Não chorei com essa gravidez; aliás, por anos não fui capaz de chorar, acho que uma hora a gente se acostuma com o estado das coisas, parece que nem sentimos quando vem uma desgraça porque já sabíamos que viria numa hora ou noutra. A terra se acostuma com a seca.

Numa iluminação, veio o nome do novo neném: Dorival. Certo dia, no comecinho da gravidez, ouvi o Augusto remexendo nas coisas deles no quarto e depois saiu, falando que ia revolver alguma coisa e já voltava. Nunca mais o vi. Pari Dorival sozinha em casa, Dona Iraci olhando lá de cima, Jorge brincava na rua, o sangue caia de mim naquela terra e dali cresciam cravos. A economia das verduras foi o que salvou a mim e aos meus meninos, mas agora a desgraça veio pelo ar, quase invisível, nas épocas da chuva. Os mosquitinhos te picavam e botavam em febrões de morte. Combinei com um carreteiro viajante de nos levar para qualquer lugar longe da maleita e foi assim que viemos parar aqui onde estamos hoje. No começo, foi bom quando ainda tinha as economias e vendia alguma coisa só para completar o necessário para o dia-a-dia, mas o dinheiro na caixinha foi indo embora. Primeiro, tentei o negócio de lavar roupa no rio junto com as lavadeiras, mas ninguém confia roupa à uma estranja. Depois, fiz negócio vendendo lenha seca para o pessoal, mas me deram calote15. Minha última esperança é esse pé-de-moleque que vendo agora para o senhor. Com que dinheiro, o senhor há-de perguntar… Penhorei o tercinho de Dona Irani no Aureliano Ourives e comprei o amendoim mais rapadura. A vida e suas voltas… O último golpe foi a saída de Jorge de casa, ainda meio menino, sabe-se lá para onde…Foi meter-se em guerra de homem, é o que me disseram. Eu bem imaginava… Nos últimos tempos, mal ficava em casa, sempre metido com outros assuntos de jagunçagem16. Se perguntava algo, era só sins e nãos, nada mais. Um dia, encontrei uma garrucha17 nas coisas dele, mas não tive forças de perguntar nem um A. Aquela coisinha que você gerou dentro de você e trouxe à vida torna-se um mistério diante de seus olhos, quase um estranho. Como pode? A vida e… bem ou mal, as suas voltas…

Meu filho sumido por essa terras… Eu te digo: que desgraça de maldição! De um para outro, essa sina da miséria vai-se passando… Eu larguei tudo para trás, pai e mãe abandonados; em seguida, meu marido me deixa, pai dos meus filhos, e, para completar, meu próprio filho. É uma magia, uma maldição, um feitiço? Só assim consigo explicar.

Assim se vai, se vai, se vai, às voltas no redemoinho até que ele se acaba… Como vê, ainda estou com o tabuleiro cheio, mas é porque por essas bandas quase toda família já tem muito doce na despensa, mas vamos indo com fé em Deus. Eu acordo e peço à Mãe Maria forças para continuar porque meu filho precisa de mim. Ouvi falar que a Mãe Maria nasceu nessas paragens daqui também… Tem dia que dá uma tristeza tão grande, de doer o corpo, de apertar fundo o coração. Quando acordo, às vezes choro quietinha para não acordar o neném, e, se ele por acaso começa a chorar por fome, eu choro mais ainda porque já não sei de onde tirar sustento. E agradeço por chorar, porque por muito tempo nem isso conseguia e as lágrimas guardadas viravam que nem pedras difíceis de carregar no peito da gente. A vida é miserenta por esses lados, mas não ache que é por falta de vontade, não, senhor, mas o que você pode fazer se só ajudam quem não precisa de ajuda? Se eu tivesse um emprego, para conseguir outro seria facinho18. Mas, como não tenho nada, ninguém vê valor, ninguém vê o porquê de querer ajudar. Posso andar para direita ou para esquerda, bater na porta do padre ou na do coronel, conservador ou liberal, professor ou ignorante. Quando você é pobre, mal gente você é. As pessoas querem distância, se enojam. Caridade? Só falada e adorada aos domingos e dentro da capela, o senhor desculpe dizer. Fora dela, nem um pedaço de pão velho dão. Preferem alimentar os porcos! Eu deveria ter sido professora como minha mãe tencionou… De onde tiro forças? Quantas voltas ainda me restam? Meu dois filhos, mesmo o destraviado19, são minhas raízes nessa terra. O que me impede de eu tombar feio. Uma filosofia que carrego é a seguinte que vou dizer: penso nessas árvores no meio do campo, longe do rio, que na seca ficam só galhos, secas, secas, mas basta uma chuva farta para retornarem a crescer as folhas, flores, dão frutinhas… Não serão assim também as pessoas? Pessoas não seriam como ipê20? Não se pode esperar por flores se não nem água há.

Notas:

1. Doce típico da culinária brasileira, feito com amendoim e rapadura.

2. Árvore grande de copa frondosa conhecida pelos seus frutos, a manga.

3. Saco para carregar providências.

4. Linguagem caipira (do interior, popular, comum nas fazendas e cidades pequenas): perdido, errante.

5.  Linguagem caipira: brigaria, confusão.

6. L.C.: mais exigente, mais esperta.

7.  Peixe de água doce muito consumido na culinária brasileira.

8. Manada de bois.

9. Pessoa que conduz a boiada.

10. Ficar amuado, retraído, desgostoso.

11. Os cavalos.

12. L.C.: cansado, satisfeito.

13. Período de recuperação após o parto.

14.  Calçado simples feito de lona ou tecido de algodão grosseiro.

15. Dívida não paga por má-fé; golpe.

16. Jagunço ou capanga era, no interior do Brasil, o indivíduo que se prestava ao trabalho paramilitar de proteção e segurança às lideranças políticas ou aos grandes fazendeiros. Jagunçagem é o conjunto de práticas próprias da vida de um jagunço.

17.  Arma muito utilizada pelos jagunços.

18. Muito simples.

19. L.C.: aquele que de extraviou, saiu do caminho, da retidão.

20. Árvore típica do interior do Brasil conhecida pelas belas flores, que florescem com o início das temporadas de chuva.

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