O mito de Caim, ou os profundos ecos culturais e religiosos do Neolítico, Paulo Mendes Pinto

[Revisto por Margarida Madeira]

Pela fé Abel ofereceu a Deus um sacrifício superior ao de Caim. Pela fé ele foi reconhecido como justo, quando Deus aprovou as suas ofertas.

Hebreus 11:4

Caim é um dos inúmeros personagens bíblicos de quem nunca teremos qualquer prova de existência. As fontes de que dispomos são literárias, Textos Sagrados que nunca foram redigidos como História, mas sim com dimensões de interpretação não literal. Remetem-nos para um tempo que não se vislumbra nas contagens cronológicas, para uma linguagem que é a do Mito, para um mundo que, não sendo nenhum mundo concreto da geografia conhecida, é o Mundo das Ideias, dos anseios e dos desejos de todos os mundos conhecidos e por conhecer. É a dimensão da Condição Humana que encontramos nos Textos Sagrados, acreditemos neles como tal, ou não.

E os Textos Sagrados são essa potência que não nos deixa ficar imunes à sua leitura. Os crentes olham para esses textos com o respeito de uma Palavra inspirada ou revelada. Estes e os demais, se minimamente abertos a fugir aos preconceitos perante o texto religioso, sentem a profundidade das temáticas levantadas, dos véus afastados, das névoas dissipadas que pedem mais céu e menos limites, mais pensamento, mais reflexão.

E dentro desta abertura de leitura que é típica dos textos que não se esgotam no momento, na época em que foram escritos e dão significados a leituras em tempos muito diferentes, as sociedades ocidentais, com base no Mediterrâneo, mais não fizeram que o que deveriam ter feito: libertá-los ainda mais das amarras que já eram muito poucas e frágeis, criando sentidos, sentindo poesia, versificando personagens.

Caim: entre a sua “condição” e a nossa Condição Humana

Caim é a base de uma imensa literatura, de uma rica pintura, um imaginário que, no limite, nos coloca a todos nesse novelo de sentido que é o parricídio. Seja num sentido literal, familiar, seja de uma forma alargada, em que o Irmão é o igual, um qualquer “outro” que, na prática, poderia ser qualquer um de nós.

Quem não foi injustamente preterido? Quem não sentiu o vexame da injustiça? Cronologicamente próximo da época das Tragédias Gregas, Caim é o drama na sua máxima amplitude antropológica: Caim mata o irmão, porquê? Exactamente pelo motivo que levou milhares de iguais a nós, eu que escrevo e vós que ledes, a fazer exactamente o mesmo: os motivos mais banais que marcam uma vida, quase sem se saber.

No campo de uma História das Mentalidades, Caim é verdadeiramente irmão de Édipo. Ambos estão talhados para destinos que lhes são lançados. Os dois, quer no caso da história passada na Grécia, quer no caso da narrativa bíblica de sabor egipcianizante decorrida no Médio Oriente, não conseguem fugir a forças superiores a si que os tornam joguetes numa articulação em que caem sem nada de objectivo terem feito para isso. Esta é uma das essências mais fortes da Tragédia.

A história de Caim é uma típica montagem de uma época em que o nascimento do indivíduo já se dera, com todos os problemas que isso acarreta. Será na cultura grega, coeva à redacção do Génesis bíblico, que encontramos mais consistentemente este problema: até onde vai a responsabilidade do indivíduo pelas suas acções? E a responsabilidade de quem despoletou o acto? Estamos na época em que, em muitos espaços do Mediterrâneo, nascem os tribunais. As responsabilidades estão na ordem do dia, sejam as humanas, mas também as divinas.

Assim, com dimensões antropológicas e sociais, a personagem Caim não pode ser vista desenquadrada do contexto que lhe dá sentido. Começaremos por aí. Por ver onde nasce e que contexto ecoa nesta que é uma das mais dramáticas e também conhecidas histórias da nossa cultura.

O contexto da narrativa

Datação: uma época de dramaticidade e do indivíduo

O Pentateuco (a Torah judaica), os primeiros cinco livros da Bíblia, é o resultado de um cerzimento tardio de diversas tradições. No século VI/V a.C., durante e após o regresso do exílio na Babilónia, ter-se-á dado forma a este grupo central de textos do judaísmo, desde logo muito próximos do Templo, das hierarquias sacerdotais.

Neste quadro de tradições, muitos elementos surgem várias vezes e, muitas delas, de forma diferente, se não mesmo oposta. No nosso caso, para a descendência de Adão e de Eva, temos duas tradições presentes no texto. Uma, em Génesis 4, mostra Caim como o primogénito do casal criado por Deus. Neste capítulo, a divindade é nomeada pelo nome Javé, atribuindo-se esta tradição aproximadamente aos séculos X/IX a.C., tendo sobrevivido oralmente ao longo dos séculos até ter sido passada a escrito. Outra, no capítulo seguinte, Génesis 5, bem mais recente, possivelmente da época em que todo o texto foi apresentado como uma unidade, não dá conta de Caim nessa descendência de Adão e Eva. Aí, no texto mais recente, tudo passa por Set.

Inserido entre a queda de Adão e Eva e o dilúvio com Noé, o episódio de Caim e Abel está, inevitavelmente, relacionado com essas duas outras narrativas. Genericamente, podemos dizer que, desde a sua criação por Javé, o Homem mais não fez que criar problemas a Deus.

Estas três breves, mas fortes narrativas marcaram profundamente a mentalidade e a forma como se via o mundo, uma visão teológica em que ao Homem não fica muito mais que a resignação a esta sua natureza falha. O leitor deste texto mitológico inserido no cânon hebreu, na Torá, possivelmente nos séculos VI/V a.C., sentia profundamente a inevitabilidade da sua relação com Deus se dar, continuadamente, através de desalentos, de falhas, de acontecimentos que maturavam as futuras ideias de pecado e de condenação.

Num primeiro episódio, tem lugar a tão famosa “trinca” no fruto da árvore proibida, marcando o futuro da espécie como de trabalho e de sofrimento. No final desta linha, o dilúvio termina com esta “espécie” de humanidade que, claramente, não tinha conseguido entrar no espírito da Criação. Pelo meio, o episódio de Caim é a prova de que, até a nível familiar e social, tudo estava comprometido desde a primeira geração. Sim, porque não podemos esquecer isso: Caim é filho de Adão e de Eva, logo, a primeira procriação não divinamente assistida. Este indivíduo marcaria, na época em que o texto foi escrito, como que o destino da humanidade: matarem-se irmãos, estejamos a falar de indivíduos ou de sociedades.

Mas é exactamente disso que falamos quando queremos encontrar as peças fundamentais de uma História das Mentalidades na época em que o texto foi escrito. Pouco antes, na Grécia, Hesíodo afirmava, ao caracterizar a sua Idade do Ferro, que a sociedade já não respeitava o ancião e que o filho desprezava o pai. Pouco mais tarde, na época Clássica, as tragédias gregas não se fartariam de repetir dramas em que indivíduos aparentemente normais matavam o pai, como Édipo.

A época em que o texto é escrito é de profundos dramas, de grandes questionamentos em torno da função do indivíduo. Caim está inserido como um excepcional símbolo dessa devastação que marcava o homem do Mediterrâneo: que relação ter com o seu deus e o que ela implica, a que obriga e que responsabilidades acarreta.

A angústia de uma Idade de Ouro perdida

Regressando a Hesíodo, a cultura grega da época aliava este nó mental, que era a noção de trágico, à visão de si mesma através da ideia de superação, de idades. O Mito das Cinco Idades é a resposta, em tom de clara degenerescência, a essa imagem nada agradável que se construíra dos tempos que corriam.

No mundo semita hebreu, a resposta encontra-se num nicho de não-tempo, num não-lugar atemporal em que os homens são totalmente diferentes dos actuais. Se em Hesíodo os homens da Idade de Ouro não morriam, eram como que envoltos por um sono, no Génesis bíblico, antes do dilúvio, eles vivem centenas de anos numa clara imagem de uma quase eternidade.

Mas tudo muda. E essa linha que vai de Adão e Eva até Noé é a de uma linhagem, de uma “espécie” diferente da posterior. De facto, os homens em que Caim se insere são tudo menos humanos: falam com Deus, olham para Deus, vivem acima da idade humana.

Sim, a primeira leva de criação de Deus era muito próxima dele. Nunca mais as narrativas sobre a relação do Deus de Israel com os membros do seu povo nos colocaram tão face-a-face, criador e criatura. E esta Idade de Ouro, parafraseando Hesíodo, foi um grande logro, recuperando os principais acontecimentos: queda, parricídio, dilúvio.

Perante este desaire, a “espécie” que nasce com a descendência de Noé já viverá na nossa escala de tempo, um máximo de 120 anos, já não falará directamente com Deus e não poderá, sequer, olhar para ele. Como que é limitada na capacidade de ir além do humano.

Caim é uma personagem deste imaginário em que um dia, há muito, muito tempo, os homens eram suficientemente próximos de Deus para dialogar com ele. Deus questionava directamente as suas acções, visto que  perguntou logo a Caim pelo seu irmão Abel, abrindo a porta a uma confissão inevitável.

A necessidade de uma narrativa como esta, reside, no fundo, na inexistência desse horizonte: um povo lançado para um cativeiro em Babilónia (598-538 a.C.), um povo já com quatro séculos de domínios estrangeiros, um povo que dificilmente consegue manter a sua identidade, busca, naturalmente, uma primeira idade em que tudo fora diferente.

Nesta época pré-diluviana em que o mito coloca Caim, qual Idade de Ouro, tudo foi possível, tudo estava ao alcance. Contudo, foram as falhas do Homem que colocaram um fim a esse que poderia ter sido um ciclo glorioso sem terminus determinado.

Decerto que estas histórias seriam ouvidas com um certo tom de nostalgia por um passado perdido, uma oportunidade falhada, mas também com alguma angústia pela natureza permanente, irrecuperável, da condição posterior.

Estes textos, entre a Queda e o Dilúvio, marcam pela visão oposta, carregada de negatividade, a Condição Humana nos séculos VI/V a.C na região hebreia.

O drama entre destino e responsabilidade

A narrativa é duríssima na forma como trata Caim. Todo o seu percurso é exemplar, mas tudo lhe corre mal. Mais uma vez, qual o peso do indivíduo nas suas opções e, em especial, na forma arbitrária como a divindade decide olhar para ele?

Quer na Grécia, quer no espaço hebreu, os questionamentos eram semelhantes. Vejamos, neste caso, o correr do texto:

1. Caim é o primeiro a oferecer, aparentemente por sua própria vontade, sacrifício a Deus;

2. Caim fica triste por Deus ter apreciado mais a oferta do seu irmão, mas nada faz contra essa indelicadeza de Deus;

3. É Deus que, vendo Caim abatido, ainda acirra os ânimos, mostrando-lhe um destino como que inevitável: “cuidado pois ele [o pecado] tem muita inclinação para ti” (Gen. 4, 7).

O correr deste breve texto é em tudo dramático. Caim surge enleado numa situação a que não consegue fugir. Ele sacrifica o que tem, mas Deus prefere o sacrifício de Abel. Caim fica triste pela distinção que Deus faz e é acusado de ter em si o gérmen do mal. Nada podia correr pior a Caim que, convenhamos, não pedira a complicação em que estava prestes a cair.

No limite, e qual peça de uma tragédia grega, depois da declaração de Deus, que possibilidade teria Caim de fugir ao destino que lhe estava já agarrado às acções? Por fim, sofrerá um castigo tremendo, maior que o que fora aplicado a seus pais.

A personagem: Caim, o primogénito da humanidade

Marcando fortemente a ideia de falha na Condição Humana, Caim é o primeiro homem que não é criado por Deus. E as implicações são, pelo menos, duas e de dimensões enormes.

Por um lado, Caim é o resultado de mão humana e não divina, podendo ser encarado como a primeira produção sexual da espécie – apesar de Eva não se esquecer de dizer o que qualquer mulher diria como agradecimento normal na época: “Gerei um homem com o auxílio de Javé” (Gn. 4, 1) – marcando as características futuras do colectivo.

Por outro lado, e muito mais aterrador, Caim é o resultado do acasalamento que teve lugar após a queda de Adão e Eva do paraíso. Caim é o fruto dessa queda, numa leitura comum no cristianismo, resultado do Pecado Original. Tal como Édipo estava marcado com um destino nefasto, também Caim parecia estar talhado para tarefas muito “humanas”, marcadas por aquilo a que os humanos muito se darão: as lutas entre irmãos, as guerras entre iguais.

Neste caso, o facto de ser o primogénito implicava todo o peso dos acontecimentos anteriores e que resultaram na sua própria concepção. Sem queda, sem o rompimento do elo de confiança entre Deus e Adão e Eva, Caim nunca teria surgido, depreendemos nós se seguirmos uma linha tentadora: sem queda não haveria sexo, logo, procriação. Caim é o resultado material dessa ideia de desobediência a Deus que resulta na situação de, finalmente, ambos perceberem que estavam nus… Sem essa queda, nem Caim nem a sua descendência teriam alguma vez sido gerados por presumível desconhecimento das mecânicas reprodutoras em estado de tão perfeito paraíso.

Uma das leituras do seu nome pode ir exactamente neste sentido. O seu nome pode ser entendido através de um jogo de palavras, onde genealogicamente o texto bíblico colocou a descenderem os Quenitas, que significaria “tive um filho homem”, reforçando a ideia de Caim ser o primeiro dos descendentes de Adão e Eva, logo, a marca de “qualidade” de tudo o que se seguiria.

Mas o peso dos acontecimentos mitológicos anteriores era, ainda, marcado pelo grave peso dos acontecimentos reais, coevos à data da redacção do texto. Era de Caim a descendência que tinha conduzido a humanidade ao estado deplorável em que esta se encontrava. Caim era herança e resultado de uma queda original, e a humanidade, com os seus dramas e dores, era a materialização desses acontecimentos.

Os significados do nome Caim

Caim é, sobretudo, confusão. Sim, uma confusão cheia de significados, como o são todos os nomes desta geração. Se quisermos entender mais profundamente a origem desta personagem, somos imediatamente confrontados com alguns aspectos que nos revelam alguma confusão cultural na importação dos materiais deste mitema. Por exemplo, Caim, à letra, será em hebraico qayin, isto é, «artífice, ferreiro». Contudo, na narrativa, Caim é agricultor…

Enfim, logicamente, se remetermos o nosso pensamento para épocas muito recuadas, onde estas temáticas terão sido tomadas, não havia economicamente viabilidade de ter artífices a tempo inteiro. Um ferreiro seria, na maior parte do seu tempo, agricultor. Apenas em sociedades mais recentes foi possível uma especialização.

Mas este quadro leva-nos para uma imagem de quase início da idade dos metais. O que, de resto, não nos deixa totalmente insatisfeitos, ou não fosse todo o texto de origens, de génese, um reportório de mitos relativos a fases muito recuadas da memória colectiva.

Ao longo do Neolítico, deve ter sido por vezes muito violenta a luta entre pastores e agricultores, uma luta óbvia pelo que de males faziam os rebanhos de uns aos campos de outros. Muitos textos antigos nos mostram o choque entre sedentários e seminómadas; por cá, muitos acontecimentos ainda recentes, já em pleno século XX, nos dão imagem, na Beira Interior e Alto Alentejo, do sangue que essas lutas podiam derramar como vingança da passagem de rebanhos de milhares de cabeças.

Para Eliade, o ferreiro era também o mundo do impuro. O trabalho do metal trazia uma carga significativamente complexa para estas sociedades antigas. O metalúrgico dominava as técnicas da transformação, da quase transmutação. O metal passava ao estado líquido nas suas artes. O metal, com toda a sua dureza, era por ele moldado, domesticado. Mais, o ferreiro dominava a arte do fogo.

Nada de puro esta profissão trazia, numa imagem que se assemelha mais à ideia de condição que de labor. E o mundo dos deuses é, mais uma vez, campo perfeito para irmos encontrar mais significados. Efesto, o deus metalúrgico, o Vulcano romano, é o único deus fisicamente imperfeito. Não será sem peso da sua condição de metalúrgico que tal marca lhe é outorgada.

De resto, tal como Efesto tem uma marca da sua condição, também  Caim Deus marcará por forma a nunca mais ser irreconhecível.

Mas a complexidade das linhas que se cosem neste nome seguem mais caminhos. O nome Caim também pode ter origem numa raiz atestada nos textos bíblicos e que significa «canção». Esta linha de interpretação estaria de acordo com o facto de a narrativa nos dizer que de Caim descendia Jubal,  que o texto afirma ser o “pai de quantos tocam flauta e cítara” (Gn. 4, 21).

Contudo, a linha de leitura próxima à ideia de metalurgia é mais consensual e tem ganho cada vez mais apoios com novos elementos linguísticos entretanto descobertos. Por exemplo, o texto bíblico também refere ser seu descendente um tal Tubal-Caim, “pai daqueles que fabricavam todos os instrumentos de cobre e de ferro” (Gn. 4, 22). Através de uma inscrição encontrada na capital do império Hitita, Boghazkey, descobriu-se que o ideograma para metal coincidia com uma palavra hurrita muito semelhante a tubal. Assim, tubal e caim seriam sinónimos, o que justificava a sua junção no texto bíblico.

Sete, a solução de futuro

Normalmente grafado como Sete, este terceiro filho de Adão e de Eva vem ocupar o lugar deixado vago por Abel. É a própria Eva que diz sobre este seu filho: “Deus concedeu-me outro no lugar de Abel, morto por Caim” (Gn. 4, 25).

Numa leitura mais moralista, Deus não podia deixar que apenas Caim vivesse. Num quadro em que o maniqueísmo persa se faria ecoar, o binómio bem/mal era muito forte e, à supremacia do filho que se mostrara muito próximo do pecado, era necessário contrapor um que fosse a imagem do Bem. Essa imagem de Sete toma forma com o facto de ser a sua descendência a primeira a dirigir culto religioso a Deus ou, como o texto bíblico nos diz, a “invocar o nome de Javé” (Gn. 4, 26).

Mas Sete é claramente uma outra fase da narrativa. Um complemento, um aposto. De resto, o pequeno texto de apresentação de Sete e do seu nascimento surge apenas depois de encerrado o “capítulo” sobre Caim. Não há misturas…

Com esta leitura, somos necessariamente obrigados a questionar a origem deste personagem no texto bíblico. Tanto mais que num espaço cultural muito próximo, no Egipto, circulava uma outra história sobre dois irmãos, com um fratricídio, em que um deles se chamava, curiosamente, Set.  Mais à frente abordaremos mais detalhadamente este filão de entendimento, mas deixemos no ar esta coincidência. Será Sete uma importação do Set egípcio?

Mas, se Sete surge após a morte de Abel às mãos de Caim e este ter sido expulso para o deserto, outro texto fornece-nos uma versão radicalmente diferente: Génesis 5, 1-32. De facto, neste texto da tradição sacerdotal, bem mais recente que os trechos sobre Caim, este nem surge. De Adão e Eva temos apenas Set como filho, descendendo toda a humanidade dele, até Noé. Assim, Sete seria o primeiro e único filho de Adão e Eva, o ponto onde tudo começara. Esta leitura está perfeitamente de acordo com o possível significado deste nome, «colocar», o que nos remete para a ideia de estabelecer, construir, iniciar.

De resto, a palavra Sete parece ser bastante usual no horizonte do Mundo da Bíblia. Como nome, surge abundantemente, quer em Mari, quer em Ugarit, quer nas cidades fenícias, sendo um nome que se mantém em uso no segundo e no primeiro milénios a.C.

ANEXO:

O texto bíblico base de toda a construção mental:

1.Conheceu Adão a Eva, sua mulher; ela concebeu e, tendo dado à luz a Caim, disse: Alcancei do Senhor um varão.   

2.Tornou a dar à luz a um filho – a seu irmão Abel. Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra.  3 Ao cabo de dias trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao Senhor.   

4. Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura. Ora, atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta,   

5. mas para Caim e para a sua oferta não atentou. Pelo que irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante.   

6. Então o Senhor perguntou a Caim: Por que te iraste? e por que está descaído o teu semblante?   

7. Porventura se procederes bem, não se há de levantar o teu semblante? e se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo; mas sobre ele tu deves dominar.   

8. Falou Caim com o seu irmão Abel. E, estando eles no campo, Caim se levantou contra o seu irmão Abel, e o matou.   

9. Perguntou, pois, o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Respondeu ele: Não sei; sou eu o guarda do meu irmão?   

10. E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão está clamando a mim desde a terra. 

11. Agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para da tua mão receber o sangue de teu irmão.   

12. Quando lavrares a terra, não te dará mais a sua força; fugitivo e vagabundo serás na terra.   

13. Então disse Caim ao Senhor: É maior a minha punição do que a que eu possa suportar.   

14. Eis que hoje me lanças da face da terra; também da tua presença ficarei escondido; serei fugitivo e vagabundo na terra; e qualquer que me encontrar matar-me-á.   

15. O Senhor, porém, lhe disse: Portanto quem matar a Caim, sete vezes sobre ele cairá a vingança. E pôs o Senhor um sinal em Caim, para que não o ferisse quem quer que o encontrasse.   

16. Então saiu Caim da presença do Senhor, e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden.   

17. Conheceu Caim a sua mulher, a qual concebeu, e deu à luz a Enoque. Caim edificou uma cidade, e lhe deu o nome do filho, Enoque.   

18. A Enoque nasceu Irade, e Irade gerou a Meüjael, e Meüjael gerou a Metusael, e Metusael gerou a Lameque.   

19. Lameque tomou para si duas mulheres: o nome duma era Ada, e o nome da outra Zila.   

20. E Ada deu à luz a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e possuem gado.   

21. O nome do seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta.   

22. A Zila também nasceu um filho, Tubal-Caim, fabricante de todo instrumento cortante de cobre e de ferro; e a irmã de Tubal-Caim foi Naama.   

23. Disse Lameque a suas mulheres: Ada e Zila, ouvi a minha voz; escutai, mulheres de Lameque, as minhas palavras; pois matei um homem por me ferir, e um mancebo por me pisar.   

24. Se Caim há de ser vingado sete vezes, com certeza Lameque o será setenta e sete vezes.   

25. Tornou Adão a conhecer sua mulher, e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete; porque, disse ela, Deus me deu outro filho em lugar de Abel; porquanto Caim o matou.   

26. A Sete também nasceu um filho, a quem pôs o nome de Enos. Foi nesse tempo, que os homens começaram a invocar o nome do Senhor. (Génesis 4, 1-26).