OS CRIMES DE EÇA DE QUEIRÓS, Antero Barbosa

Texto de Antero Barbosa. Revisão de Mariana Antão.

Prólogo

Não houvera de haver a antecipação de Dostoievski e em algumas obras de Eça de Queirós quadraria, como numa moldura, o título Crime e Castigo.

Dever-se-ia, no entanto, interpretar no título a subtil ironia queirosiana e ler “crime” onde se lê “castigo”, e vice-versa. Portanto, à nossa atual luz, o título deveria ser “Castigo e Crime”.

Com efeito, em regra, o castigo é prémio ao criminoso, sendo exemplarmente punida a vítima. 

E esta é, em regra, a mulher; o que acrescenta à obra do escritor uma personagem persecutória: o próprio Eça.

Primeiro crime: Luísa, a rapariga loura

«Singularidades de uma rapariga loura», publicado pelo jovem Eça em 1874 e incluído na coletânea póstuma que se intitulou Contos1, é um texto a todos os títulos notável, sendo o principal dos quais o facto de ser considerado o primeiro texto realista do escritor.

Notável, também, porque desde o começo o escritor aplica o castigo feminino de forma não apenas realista, mas drástica. Observemos.

Luísa, a rapariga loura de algumas singularidades bastante normais, ostenta o nome de uma outra Luísa que virá a ser a personagem principal d’O Primo Basílio.

Apodada pelo noivo Macário, na sequência de flagrante delito, de ladra, esta primeira Luísa é expulsa do noivado, do casamento e do futuro de que os dois haviam construído as bases.

Possuidor da virtude da honra, à época cristalizada, surpreende que Macário, cujo temperamento se havia plasmado na narrativa, ao afastar Luísa – lembremos, a adorada rapariga loura – use palavras duras e excessivas: «- Vai-te! – E fez um gesto com o punho cerrado … E chegando-se para ela, disse baixo: – És uma ladra!»

Crueza assim! Como um sol nefasto, ela o persegue até ao inverno da sua vida e estava ali, naquele quarto daquela estalagem, pairando loura entre Macário e o comparsa de ocasião, a quem o primeiro conta, pela milésima vez porventura, a história daquela que pretendera debalde afastar da sua vida.

Fica assim, e podemos ironicamente atribui-lo à ironia do escritor, a dúvida sobre a cabeça em que recaiu o castigo que a narrativa pretende exemplar. 

Fica também a deceção do leitor atual pela leviandade de um noivo que tudo pela sua amada enfrentara, incluindo o desemprego, a miséria, as duras viagens comerciais a Cabo Verde, e que agora se mostra incapaz de contornar uma nódoa temperamental da sua rapariga loura. A que naquela época sem psiquiatria se designava de cleptomania e a que hoje se cola o rótulo científico de “doença”.

Não convence a rotação do carácter de Macário. De forma que não é Macário quem grita «- Vai-te!» e a seguir lhe diz, baixo mas brutal, «- És uma ladra!»

Não reconhecemos estas como palavras de Macário, mas sim de Eça, que expulsa da narrativa a rapariga loura terminando-a de seguida. 

Segundo crime: Amélia

Não podendo dispor simultaneamente dos dois nomes para o título usados por Dostoievski, Eça deita a mão a um deles logo no seu primeiro romance: O crime do padre Amaro.

O crime acontece na página 310 da edição que utilizámos2. Trata-se do adultério perpetrado por Amélia, rapariga solteira e noiva, e Amaro. De vero adultério se trata porque Amaro, sendo padre, é casado: com a igreja de Cristo. 

Na 1.ª edição do romance (1876) o crime acontecia mais tarde, quando Amaro matava o seu próprio filho. E é o próprio Eça, usando o divinopoder autoral, que desloca o crime, limpando o sangue das mãos de Amaro. O padre agora entrega simplesmente o filho, de forma alienante, à “tecedeira de anjos”.

Bem maior foi a deslocação do crime na versão definitiva (1880). Ele está no castigo que corresponde à morte posterior de Amélia, na sequência do grosseiro parto arquitetado pela tal “tecedeira”.

Parto grosseiro é, digamo-lo, este castigo que pune a vítima esquecendo-se de punir o criminoso do título, o qual vai de paróquia em paróquia pastorando, até à de Sintra, para que se utilizou dos bons ofícios do seu amigo conde de Ribamar.

Recordemo-las aqui, as, para nós, litográficas frases do “adultério”: «Ele voltou ao quarto com a luz. Amélia lá estava,imóvel, toda pálida. O pároco fechou a porta – e foi para ela, calado, com os dentes cerrados, soprando como um touro.»

Há, portanto, um furor animal neste ato.

“Furor” é a palavra certa. A morte de Amélia, que Eça pratica ou, pelo menos, não impede, não é apenas a postura de um autor «em que a representação pretende identificar-se à realidade».3 Porque a denúncia social e religiosa representa aqui, numa aparente submissão à tirania da verdade, a submissão aos mesmos ditames da religião e da sociedade; caso em que ousamos afirmar que se trata de uma morte autoral, porque não salva a mulher quem o filho salvou, e, portanto, trata-se, em rigor literário periodístico, de mero furor naturalista.  

Terceiro crime: Luísa

O primo Basílio representa o crime perfeito, já anteriormente e largamente teorizado.

Luísa, outra rapariga loura, recém-casada com o robusto Jorge, é um produto eminentemente naturalista. Moldada geneticamente pelo meio, pela educação e pela ascendência, torna-se objeto da visão determinista do autor. Conforme interpreta Carlos Reis:

​Luísa, burguesa ociosa formada sob o signo de leituras românticas, ​entedia-se quando Jorge (…) se ausenta para o Alentejo; ao ​reencontrar Basílio, primo e namorado de adolescência, Luísa tenta ​materializar nele as imagens romanescas e aventurosas de que se ​nutria a sua inspiração​deformada pelo consumo de novelas ​românticas, com a Dama das camélias à cabeça. Assim, o adultério ​que se segue resulta da conjugação de fatores deletérios, juntando-​-se-lhe ainda a atmosfera morna e medíocre da Lisboa da ​Regeneração …4

Quer dizer, a sociedade, e Eça por ela, urdem uma teia com todos os ingredientes de que se tece o inevitável adultério.

Ainda assim, Luísa resiste durante 173 páginas5 (muita página!), e quando se entrega, de olhos cerrados como Amaro, ainda resiste balbuciando anestesiada: «- Jesus! Não! Não!»

É, portanto, na página 173 que o crime acontece. E é nos capítulos sucessivos que se desenrolam entre Basílio e Luísa as cenas eróticas e exóticas que tanto incomodaram Machado de Assis.

Ora, o que incomoda é que o castigo mais uma vez tem de ser deslocado, para a longínqua página 437 em que se consuma a morte de Luísa.

Torna-se assim Luísa em vítima venial e virtual de um adultério, que vem a ser instrumentalizado por Eça em Juliana, uma das personagens maiores da galeria do escritor. Incompetente como criada, foi criada para matar Luísa. E Eça curva-se perante a vergasta da sociedade e da religião, infirmando o axioma “pecou, tem que pagar”. O autor, com efeito, mostra-se inamovível em manter a sentença de morte: nem o perdão de Jorge o faz vacilar.

E, enquanto Basílio regressa às luzes de Paris, Luísa vai a enterrar, belo corpo jovem já adestrado para todos os lados do triângulo com que a ortodoxia católica se mede entre a permissão ou a condenação: o casamento, o adultério ou os dois.

Expiação: Leonor e Gracinha

Nas obras seguintes apodera-se de Eça a suspeição do Naturalismo, o que o faz enveredar por outros caminhos. E é já após a libertação feminil protagonizada pela Eugénia de Abel Botelho no Barão de Lavos que Eça retrocede definitivamente na sua atitude vindicativa,«[d]eixando de lado as lições e abandonando o pragmatismo (…), revelando a perspetiva de que é impossível afirmar um sentido definitivo» 3.

Tal facto, que, apropriando-nos do dicionário pecaminatório, apelidaríamos de “expiação”, verifica-se apenas na maturidade das obras finais do escritor.

Duas mulheres, belas e jovens como sempre, exemplificam esta inversão da perspetiva.

Uma delas é Leonor, personagem de «O defunto», incluído nos Contos e publicado inicialmente em 1895.

Leonor, a jovem e fiel esposa do velho senhor D. Afonso de Lara, representa a felicidade feminina, o enlace de matrimónio e a paixão a que afinal acedeu com o também fidalgo mas jovem D. Rui de Cardenas. 

Trata-se agora de adultério post mortem, devidamente sancionado pela entidade moral e social, mas que obriga a recorrer a instrumentos de índole mítica: a colocação da narrativa na recuada era da Idade Média e a intervenção de um enforcado defunto que sofre segunda morte para salvação de D. Rui, a mandado de Nossa Senhora do Pilar, em tempos em que estes milagres ainda aconteciam – intervenção que abre as portas da morte a D. Afonso de Lara e as do amor sacramentado a D. Rui e Leonor.

A outra mulher é Gracinha, da obra já póstuma publicada no ano da morte de Eça de Queirós (1900), A ilustre casa de Ramires.

Há, de início, um paralelo com a Luísa do Primo Basílio. Tal como esta, Gracinha é uma jovem recém-casada, não com o robusto Jorgemas com o rico proprietário José Barrolo, apelidado o bacoco;romanesca sem Dama das camélias, ociosa, vivendo na mornidão da cidade de Oliveira que nem sequer é Lisboa, a Gracinha é propiciada a familiaridade de um jovem aureolado, André Cavaleiro, o senhor governador civil com influência na corte, antigo namorado dela tal como o Primo fora de Luísa.

Depois, acentuam-se as diferenças. Ao contrário de Sebastião, o irmão adotivo que em vão protege Luísa, é o próprio irmão de Gracinha que, por ambição política, aproxima o galã e a entrega ao adultério; queele, Gonçalo Mendes Ramires, perscruta mas não interrompe nem evita, fugindo amarrado de mãos às políticas ambições. Mas, mais tarde, fá-lo sufocar, satisfeitas e saciadas as ambições pessoais, afastando os pervertidos e devolvendo a Gracinha a vida da pureza original a que ela chama em carta o «ramerrão costumado», a que o autor acrescenta: «E com efeito a vida recomeçara, no seu ramerrão, simples, contínua e sem história» 6.  

Torna-se cativante observar então a chegada de Gracinha a casa, acompanhada pelo «bom Padre Soeiro», e vê-la, logo de seguida, estendida sobre o canapé de palhinha, «ainda com um grande avental branco, tapando o vestido até ao pescoço».

Para esta suma fidelidade, bem fácil após o sorvedouro da doçura adulterina, haviam contribuído factos notáveis: o marido de Gracinha, ignorante do adultério, manda derrubar o mirante em que o mesmo ocorrera; Gonçalo, aliando-se a este ato heroico, diz e impõe a Gracinha: «O passado morreu, e todos precisamos (…) que continue morto»; as duas manas Lousadas, usando de todas as perfídias, nada conseguem do que obtivera Juliana; Gracinha, agora D. Graça, murmura: «- Como eu mudei!». Gonçalo, que Eça compara, por interposta personagem, a Portugal, sabe bem que tudo o que se passou é obra sua, o que não invalida a imponente obra que representa Gracinha. 

Remissão: Elisa

Devendo a vida a uma obra ainda de título masculino, «José Matias», publicada em 1897 e incluída também nos póstumos Contos, Elisa personifica a vingança eciana e a feminina vingança.

Jovem mulher, «alta, esbelta, ondulosa», agora de cabelos negros, uma «carnação de camélias muito frescas», duas vezes casada com homens mais velhos e abastados, o Matos Miranda e o Torres Nogueira, acumula o amante espiritual de sempre, José Matias, e, já viúva, provoca o adultério do malcasado apontador de Obras Públicas.

Como se observa, Elisa usa o poder de perpassar todos os estádios civis e relacionais, mantendo o simultâneo usufruto do casamento e da paixão, e sobrevive no rubro calor da felicidade e da opulência que logra furtar à masculina dominação do país.

Quase receoso, Eça nunca nos introduz à presença magnífica de Elisa, sempre resguardada nos seus interiores aposentos. Ficamos com José Matias, vendo-a de longe: na janela, na varanda, no jardim. 

É ela, sem dúvida, uma personagem de força impressionante, a principal da narrativa, de que José Matias é secundária peça.

Obliterado o acre sabor da vingança, Eça acaba por assumir que coexistem outras verdades e outra verosimilhança, através de Elisa, mulher extraordinária que nós observamos à distância – a distância que nos aproxima de uma das mais extraordinárias obras de Eça de Queirós.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

1 Eça de Queirós, Contos (Lisboa: Edições Livros do Brasil, s/d).

2 Eça de Queirós, O crime do Padre Amaro (Lisboa: Edições Livros do Brasil, s/d, 14.ª edição).

3 Lélia Parreira Duarte, «A lúdica complexidade de A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queirós», Lusitânica e Românica (1998):  A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queirós (leliaparreira.com.br)

4 Carlos Reis, «Eça de Queirós: do Romantismo à superação do Naturalismo», em História da Literatura Portuguesa. O Realismo e o Naturalismo, Vol. 5 (Lisboa: Publicações Alfa, 2001), 168.

5 Eça de Queirós, O primo Basílio (Lisboa: Edições Livros do Brasil, s/d, 11.ª edição).

6 Eça de Queirós, A ilustre casa de Ramires (Porto: Lello & Irmão, Editores, s/d), 441.