O Rei no Seio da Corte, Ana Vieira Vicente

Texto de Ana Vieira Vicente. Revaois de João N.S. Almeida.

A nobreza, em particular na sociedade medieval, sempre foi uma classe social habituada a ter a complacência do rei; esses eram os mais próximos de si, aqueles que formavam a sua corte. Ademais, a classe, inerentemente privilegiada, está sempre ameaçada pela ganância e poder daqueles que não tinham um lugar de destaque na sociedade. Tal sede de poder faz com que vários grupos na corte e fora dela ou congeminassem algo contra o Rei ou sofressem outros tipos de pressão. Muitas vezes os que estavam próximos ao Soberano inflamavam a sua influência, uma postura normalmente carregada de segundas intenções e de calculismos políticos complexos.

Mas, para que não se ultrapassassem os limites da sua influência, advinha do rei e da estrutura da corte um conjunto de formalidades a que chamamos etiqueta.

A etiqueta social é para o rei um instrumento de dominação: Luís XIV descreve, nas suas memórias, “como é importante para o público ser governado por uma só pessoa, também é importante para ele que aquele que desempenha essa função esteja de tal modo acima dos outros que ninguém se possa comparar com ele, sem lesar todo o corpo do Estado. Não deve retirar de sua cabeça os sinais de superioridade e mesmo os mais íntimos, que o distinguem dos seus membros.” A encenação das interacções na corte tinha assim de espelhar todo um arranjo social e político, no qual o rei era ao mesmo tempo a figura mais poderosa mas também a mais fragilmente submetida a todo esse arranjo. Por um lado, monarca onde se centram e por onde passam todas as maquinações de poder do reino; por outro, figura pessoalmente diminuída, mero objecto de contingências políticas.

Por outro lado, algo que distingue o rei dos cortesãos e o seu campo de dominação é que este disfruta de uma posição privilegiada na corte, aparentemente imutável: enquanto todos os cortesãos sofriam pressões vindas de todo o lado o rei tinha, à partida a sua posição bem definida pela sua genealogia e a pessoa com quem casava. Só em casos políticos muito severos é que a posição do rei é realmente ameaçada, podendo envolver a abdicação, o assassinato, ou contextos revolucionários mais complexos.

Na corte era importante que fosse atribuída uma função apenas desempenhada pelo interesse superior do estado: devia velar para que as tendências opostas e divergentes se exerçam de acordo com os interesses régios que, numa figura de representação, acabam por ser os mesmos do reino. O monarca encarnava assim o eixo central desse sistema.

Mantendo assim a sua posição como uma criatura socialmente — e por vezes até corporalmente, em certas ocasiões em que a majestade do soberano era equiparada ao divino — o rei ramificava a sua influência e ligação aos vários outros actores da sociedade, utilizando, por exemplo vários eventos sociais como festas, passeios e excursões enquanto subtil meio de atribuir uma recompensa ou uma punição aos outros actores do teatro social em que todos estão envolvidos. Estas recompensas ou punições nem sempre eram monetárias pelo facto de muitas vezes não o ter à disposição e assim atribuía-lhes recompensas imaginárias como despertar ciúmes e pequenos valores pela sua benevolência. Tal era o negócio do rei na moeda da influência e do poder, mesmo que alicerçada sobre uma base muito frágil. A sociedade assim se mantinha em funcionamento conquanto tal estado social fosse sustentável, e a partir do momento em que estes pesos e contrapesos do sistema monárquico já não representam o espelho das forças vivas da sociedade, o sistema colapsa. Mas enquanto tal não acontece, todos o reconhecem como um modo de organização social perfeitamente válido.