Mulher Sentada, Márcia Marto

Texto de Márcia Marto. Revisão de João N.S. Almeida. Imagem: Chloë Boughton-Leigh, de 1904-8

O teu corpo está aí sentado
como se o tivesses,
por um momento,
abandonado.

O teu corpo imóvel no tempo
faz agora parte da casa:
mistura-se com a parede ao fundo,
com a cadeira frágil,
funde-se com o quadro de imagem indefinida como tu.

Pareces uma daquelas mulheres que Gwen John pintou:
sentadas, à espera, com um gato no colo e um vazio no olhar
sentadas, a desistir, esquecidas do corpo.

Pareces aquela de vestido cinzento
botões pretos
brincos, colar, laço escuro no cabelo, bochechas rosadas,
mas presa ao vestido, à parede, à cadeira (ao corpo?)
ficas imóvel à espera.

Pareces aquela que tem o ombro direito
ligeiramente descaído para baixo
com o teu corpo aí sentado,
como se estivesse

abandonado.

De mãos no colo e olhar sem acção
estás aí sentada à espera de um tempo
que não chega.

Estás aí sentada e eu não sei o que te disseram
esses papéis que seguras…
Quanto tempo tem o teu corpo, mulher sentada?