Dos Metallica, Pedro Lopes

Texto de Pedro Lopes. Revisão de João N.S. Almeida.

Neste texto irei fazer uma exposição de caráter crítico, tecendo considerações de valor positiva e/ou negativamente, sobre a banda Metallica. Vou falar da grande mudança da sua música ao longo dos anos, usando como base para a análise os álbuns lançados. Esta exposição irá funcionar como uma espécie de friso cronológico onde irei avançar pelos anos e falar de cada álbum individualmente, contando a história de cada um e fazendo uma apreciação crítica individual. 

Mesmo a banda sendo mundialmente conhecida, a maioria das pessoas que os conhecem ou se intitulam de fãs provavelmente não sabem das mudanças radicais que os Metallica sofreram, principalmente devido à falta de conhecimento sobre a banda, sobre os membros e sobre as nuances do estilo musical. A grande mudança de que falo não começa até ao lançamento do quinto álbum. Vamos então dar início ao nosso friso cronológico.

Kill ’Em All (1983): A banda lança o primeiro álbum no início da década de 80, começando a escrever a sua história como uma banda de thrash metal, seguindo as pisadas de bandas como Exodus, Slayer e Overkill. Sabe-se também que haviam recolhido inspiração de bandas britânicas como Iron Maiden e Motorhead, que se incluíam no estilo de speed metal. Tínhamos então o início da carreira dos Metallica com um estilo de metal que iria surgir como puro thrash metal, cru e duro, com um toque de velocidade; iria ser este também o estilo principal nos três álbuns seguintes. Kill’Em All tem uma grande, grande história, pois ele começou a ser trabalhado por apenas dois dos quatro membros que seriam anunciados mais tarde na data do lançamento, ou seja, apenas o vocalista/guitarrista secundário James Hetfield e o baterista Lars Ulrich (ambos mantendo-se na banda até os dias de hoje) faziam parte do alinhamento oficial deste álbum. O guitarrista principal Dave Mustaine e o baixista Ron McGovney haviam começado a trabalhar na composição das músicas, mas, entretanto, Mustaine sairia da banda devido aos problemas com o álcool, começando a sua própria banda, Megadeth,e McGovney acabaria por sair também, devido ao sentimento de estar a ser usado pela banda devido ao seu dinheiro e providência de transporte e “estúdio” (que, na altura, era a sua garagem) e pelas várias discussões com os restantes membros. Para os seus lugares veio o guitarrista principal Kirk Hammet, que havia saído dos Exodus e que se mantém até hoje e o baixista Cliff Burton, um dos melhores de sempre a tocar o baixo neste estilo. 

As músicas deste álbum são essencialmente velocidade e agressividade, tendo sido a maior parte delas escritas por James e por Mustaine na garagem de McGovney. O facto de ter sido Dave Mustaine a escrever a maioria das músicas deu origem a uma grande rivalidade entre este contra James e Lars. A música “The Four Horsemen” foi escrita na totalidade por Mustaine e este era dono da música. Mesmo assim, James e Lars usaram-na no álbum. Depois, Mustaine usou exatamente a mesma música no álbum Killing Is My Business… And Business Is Good da sua banda Megadeth, com o nome “Mechanix”. Se ouvirmos as duas músicas iremos imediatamente notar a similaridade muito facilmente. Havia mudado apenas a letra e uma nova melodia havia sido acrescentada a “The Four Horsemen” por Kirk. Ainda neste tema, os ensaios gravados pelos Metallica na garagem de McGovney incluem gravações de músicas que foram trabalhadas por Mustaine e que fazem parte hoje apenas da banda Megadeth, como “Rust In Peace” e “Rattlehead”.

Independentemente de todas as confusões, os Metallica lançam este álbum com as músicas “The Four Horsemen”, “Seek & Destroy”, “Hit The Lights” e “Whiplash” como destaques e chamariam a atenção de várias editoras de grande nome, que os ajudariam a produzir os álbuns seguintes. 

Ride The Lightning (1984): Dois anos depois do sucesso do álbum de estreia é lançado o segundo álbum, desta vez com a maioria das músicas a ser feita pelo alinhamento oficial, já com Kirk Hammet e Cliff Burton na composição das músicas. Nota-se, neste disco, um melhoramento na qualidade de som e na qualidade das músicas, principalmente devido ao baixista Cliff Burton, que ao contrário dos restantes músicos, havia frequentado aulas de música, tendo então mais conhecimento técnico. Burton ensinou imensas coisas novas a James Hetfield, como novas cadências, arpejos, escalas musicais, harmonias, etc. 

Este álbum inclui-se ainda no estilo thrash, com uma ligeira mudança, proporcionada pela editora, com o intuito de fazer mais dinheiro e chamar a atenção das rádios, que muitos afirmam ter sido o começo da mudança da banda, de um modo muito discreto. Falo das músicas “Escape” e “Trapped Under Ice”, que foram compostas com um som um pouco diferente do que os Metallica haviam acostumado os seus fãs, um som um pouco mais “mainstream”. Esta ideia foi apenas da gravadora que organizou o álbum todo, que havia convencido os membros da banda a compor e gravar aquelas músicas. Até mesmo o refrão da música “Ride The Lightning” é acusada dessa mudança musical. A outra grande surpresa foi o facto de que neste álbum foi também incluída uma balada, a música “Fade To Black”, com um som e uma letra muito diferentes do normal. Curiosamente, foi essa a música que teve mais saída para as rádios e canais musicais. 

Mesmo assim, o álbum foi recebido com imenso frenesim e amor por parte dos seus fãs, com as músicas “Fade to Black”, “Creeping Death” e “For Whom The Bell Tolls” como os maiores destaques.

Master Of Puppets (1986): Simplesmente fenomenal. Com um total de 0 defeitos, este terceiro álbum sai coincidentemente naquele que foi o melhor ano para o metal

Este álbum surgiu a partir de uma ideia bastante original, que estaria também presente no trabalho seguinte. A ideia era fazer um álbum conceptual, com um tema único que predominaria na maior parte das músicas e até mesmo na imagem do álbum: o tema da insanidade mental e do domínio sobre o mais fraco, tópicos presentes nas letras das músicas. O álbum foi então dedicado a esse tema. Puro thrash e heavy metal, mais pesado que nunca. 

Esta ideia surgira numa altura perfeita em que a voz de James havia mudado, tornando-se mais grave e poderosa, ideal para a gravação deste álbum. Este foi dos discos mais vendidos da banda, sendo considerado por muitas revistas de música como o melhor/dos melhores trabalhos de metalde sempre, juntando pela primeira vez a velocidade e a técnica no mesmo disco. Os maiores sucessos deste álbum foram “Battery”, “Master Of Puppets, “Welcome Home (Sanitarium)”, “Disposable Heroes” e “Orion”.

Infelizmente, este álbum também marcou o último disco gravado com o baixista Cliff Burton, que morreu tragicamente num acidente com o autocarro da banda durante a tour relativa ao álbum, na Suécia. Burton estava a dormir numa das camas junto à janela do autocarro quando este se despistou e se virou ao contrário, e antes do autocarro cair no chão Burton caiu da janela e ficou debaixo do autocarro. Enquanto se tentava retirar o autocarro de cima de Burton, este caiu novamente em cima do baixista. A morte marcou a banda e os membros de uma maneira muito forte, perdendo a banda o melhor músico que alguma vez tiveram. 

…And Justice For All (1988): Apesar da morte de Cliff Burton, a banda volta a lançar um álbum dois anos depois. Quem substituiu Cliff Burton foi Jason Newsted, que ainda acabou a tour do álbum anterior e fazia agora parte da banda. Tudo havia acontecido de repente e Jason foi apanhado numa nuvem de fúria e tristeza originada pela morte de Cliff.

Como tinha mencionado antes, no álbum anterior tinha predominado um tema e essa ideia iria ser usada mais uma vez neste álbum, sendo neste caso as injustiças, opressões, guerras e ódio, com o símbolo da justiça a ser a capa do álbum. As letras, composição das músicas e a maneira como foram tocadas são todas simplesmente fenomenais, com muita agressividade, a mistura da bateria no ponto perfeito (opiniões podem diferir), os double basses nas guitarras e com o desespero e raiva na voz de James Hetfield. 

O álbum esteve longe de ser perfeito, não devido à qualidade das músicas, mas devido às condicionantes externas. O que não correu tão bem neste álbum teve a ver com a morte de Burton e a entrada do novo baixista. A morte de Cliff originou uma onda de discussões, com Jason contra Lars e James, pois o novo membro nunca foi recebido com amizade ou com espírito de inclusão e de grupo. Com isto tudo, o resultado foi até meio insólito. O álbum foi lançado todo sem baixo. Não houve baixo. As faixas gravadas por Jason não foram incluídas no álbum. Ele fez parte do alinhamento oficial da banda no álbum, deu entrevistas, tirou fotos, tudo relativamente ao álbum, mas é como se ele não existisse. Felizmente, durante a tour desse álbum, Jason mostrou o porquê de ter sido chamado. Ele ao vivo foi espetacular, com uma presença imponente em palco e com uma voz poderosa, revolucionando músicas como “Seek & Destroy” e “Creeping Death” e subiu o patamar da banda no que toca a concertos ao vivo, realizando nesta altura aquele que é considerado o melhor concerto de sempre dos Metallica, que foi Seattle ‘89

Este álbum foi também marcado pelo primeiro videoclipe lançado pela banda, com ajuda da MTV, da música “One”. Foi também o último álbum em que a banda usou o Thrash Metal como género principal, pelo menos até 2008.

Os principais sucessos deste álbum foram as músicas “Blackened”, “One” e “Harvester of Sorrow”. É também notável a composição da música “To Live Is To Die”, que foi dedicada ao falecido baixista Cliff Burton. 

The Black Album (1991): É com o lançamento deste álbum que muitos afirmam ter começado a grande mudança da banda e o consequente declínio. Com este álbum, a banda “vende-se” e criam música com um som muito mais “mainstream”, com músicas mais lentas e com um som mais virado para música de rádio. Curiosamente (ou não), é este o álbum que vende mais e é o álbum que tem as músicas mais conhecidas dos Metallica, devendo-se isso claro à comercialização do disco nas plataformas mais populares, algo que não era comum na banda. 

Nota-se a grande mudança no estilo de música, com as maiores diferenças a notarem-se no estilo de metal composto, na velocidade das músicas e no estilo da voz de James. Além do lançamento de um álbum bem diferente do normal, este é complementado com vídeos musicais para quase todas as músicas do álbum, algo que só havia acontecido uma vez antes e com uma só música. Os Metallica haviam então passado de Thrash Metal para apenas Heavy Metal ou até mesmo Alternative Metal.

 Ao contrário do álbum anterior, Jason já teve uma maior participação neste, com a escrita de algumas músicas e de bastantes passagens em que o baixo estava muito mais presente. É de destacar neste álbum as músicas “Unforgiven”, “Nothing Else Matters”, “Sad But True” e aquela que é provavelmente a música mais conhecida e comercializada da banda, “Enter Sandman”. Notável é também o maior concerto da banda, que surge com o lançamento deste álbum, no evento “Monsters of Rock” no ano de 1991, em Moscovo, concerto no qual a banda tocou para mais de 1.500.000 de pessoas. Juntamente com os Metallica, também haviam atuado AC/DC e Pantera.

Mas claro que com uma maior venda da banda, surgem também maiores rolos de dinheiro, que foi uma das razões pelas quais muitos dos fãs da banda justificam a súbita mudança, o que não deixou os antigos fanáticos muito contentes. Portanto, com este álbum e com os dois álbuns seguintes, que já lá chegaremos, a banda acabaria por perder alguns fãs, mas também iriam ganhar muitos fãs. A única diferença é que estes novos fãs viriam de um mundo completamente diferente, um mundo mais popular. Claro que a maioria dos fãs da banda se mantiveram, mas os mais elitistas ficaram desapontados e abandonariam mesmo a fanbase dos Metallica.

Load/ReLoad (1996/1997): Vou falar individualmente destas duas atrocidades, visto que elas fazem parte do mesmo “álbum”, apenas se dividiram em duas. Também não vou perder muito tempo com este “álbum”, porque nem se merece que o faça. Provavelmente dos piores álbuns dos Metallica, Load e ReLoad foi o primeiro de dois álbuns da banda que não foi lançado como sendo um álbum de metal, mas sim como alternative rock, o que foi um rude golpe para os verdadeiros fãs dos Metallica. Para além de um estilo de música com vertentes de country e não sendo considerado metal, a banda vendeu-se de uma maneira ainda pior do que no álbum anterior, pois porque além da música, mudariam agora o seu visual de uma maneira ridícula, que nada tinha a ver com os Metallica dos anos 80. A mudança da banda em apenas 10 anos era assustadora. 

As principais mudanças no visual da banda seria o uso de casacos de pele, de maquilhagem, verniz nas unhas e batom nos lábios. Os antigos e verdadeiros fãs dos Metallica, aqueles do Thrash e da agressividade, não ficaram nada felizes ao ver isto, com certeza. Além de tudo isto, Kirk e Lars também ficam muito, ou se calhar até demasiado “próximos” para o gosto de muitos fãs. Algo que também não foi visto com bons olhos por parte dos fãs foram os rumores de que talvez Kirk pudesse ser bissexual, rumor que o mesmo veio a confirmar ser verdade no ano de 2011. Mas o que doía verdadeiramente era o facto de eles apenas estarem a fazer aquilo para terem mais popularidade, para agradarem à cultura pop e mainstream e a não demonstrarem aquilo que realmente eram. 

O destaque destes dois álbuns vai para “Hero of The Day”, “King Nothing”, “The Outlaw Torn”, “Fuel”, “The Memory Remains” e “Unforgiven II”.

St. Anger (2003): A estreia dos Metallica no século 21 poderia ter corrido bem melhor. É lançado aquele que talvez é o mais controverso álbum da banda e aquele que é na opinião de muitos o pior. A produção e mistura do som, como o som dos riffs e principalmente o som da caixa de Lars, que muitos afirmam parecer uma daquelas tampas de caixote do lixo de alumínio, juntam-se às letras e temas estranhos das músicas, à composição simplesmente má e chata e à ausência de solos de guitarra por parte de Kirk. Para além de todos estes fatores, acrescenta-se algo que nunca tinha sido feito pela banda, que seria o uso do selo de aviso aos pais pelas letras com uso excessivo de palavrões. 

O estilo de música encaixa-se em géneros que simplesmente não combinam com os Metallica, como o Nu Metal e em casos mais extremos até seria falado no punk. Este álbum marca também a entrada de um novo membro na banda, o baixista Rob Trujillo, que viria a substituir Jason Newsted. Os “destaques” do álbum vão apenas para as duas primeiras músicas, “Frantic” e “St. Anger”. Há também o destaque negativo para aquela que talvez seja a pior música da banda “Invisible Kid”. Este foi também felizmente o último álbum deste período estranho da banda. 

Death Magnetic (2008): Finalmente os Metallica haviam voltado. O primeiro álbum desde 1988 que seria novamente Thrash Metal. Estes sim eram os Metallica que apaixonavam e que faziam as pessoas correr para comprar os seus discos. O retorno dos Metallica deu-se com o lançamento deste álbum, que se encaixava novamente no Thrash. Finalmente tinham voltado as músicas rápidas e agressivas, com letras e vocais decentes, com riffs complexos e mudanças de tempo a meio das músicas. A banda tinha-se redimido do estranho período que havia passado nos últimos 15 anos. Recebeu imensas críticas positivas e foi marcado como o regresso às origens 

Muito se pode agradecer a Rob Trujillo, que participou ativamente na produção e composição do álbum, e também se pode agradecer principalmente a Rick Rubin, o novo produtor e aquele que é considerado o “salvador” da banda, pois foi este que deu liberdade de escrita à banda e não os pressionava a fazer o que se esperava e exigia que eles fizessem. Ao contrário de Bob Rock, que estragou por completo a banda, Rubin conseguiu fazer com que eles se redimissem, escrevessem o que queriam e reunissem os seus mais antigos fãs. 

Claro que não foi perfeito, pois mesmo sendo o regresso ao Thrash e mesmo depois do carinho com que foi recebido, foi-lhe apontado alguns problemas de produção e de mistura de som, sendo a principal crítica o volume altíssimo da bateria. Além disso, uma das maiores desilusões do álbum foi o “flop” que foi atribuído ao lançamento de “Unforgiven III” que havia sido muito esperado e não correspondera às expetativas. É destacável também com o lançamento deste álbum, o renascimento de James, que tinha ido para reabilitação e tinha deixado o álcool e as drogas, limpando-se por completo. 

Os grandes destaques deste álbum são as músicas “All Nightmare Long”, “The Judas Kiss” e “The Day That Never Comes”.

Hardwired… To Self-Destruct (2016): O último álbum lançado pela banda, Hardwired fez novamente jus à banda, com mais músicas de Thrash e mais uma redenção e retorno da banda às origens. Este sim, foi um álbum com poucas críticas negativas e que teve uma resposta muito boa por parte dos fãs. 

Algo surpreendente neste álbum foi o uso de trechos que haviam sido compostos e gravados em 1982, na garagem de Ron McGovney para a música “Spit Out The Bone”. É marcante e algo surpreendente também o facto de Kirk não ter participado de todo na composição do álbum. Outra das maiores surpresas foi a redenção não só da banda, mas também de Lars, que, pelo menos a nível de estúdio, se redimira e respondera muito bem a todas as críticas que lhe haviam sido feitas a partir do “The Black Album” até à data. 

Os maiores destaques do álbum foram as músicas “Hardwired”, “Spit Out The Bone”, “Moth Into Flame” e “Atlas, Rise!”.

E por aqui ficamos na longa carreira daquela que é provavelmente a maior banda de metal de todos os tempos, que mesmo com altos e baixos, serão sempre os Metallica.