Três poemas, Ana Correia

Poemas de Ana Correia. Revisão de Lourenço Duarte.

I

Tempo

O tempo passa sem a gente se aperceber
E num espaço de tempo tudo pode acontecer

Hoje em dia (assim como sempre)
Nunca paramos para contemplar
Fazemos tudo a passo de corrida
Nem vemos o que estamos a desperdiçar

O tempo é inexorável
O tempo é incontrolável
Não se pode parar, acelerar nem abrandar…

O tempo dá-nos tempo antes do pior acontecer
Porque não damos tempo ao tempo para tudo podermos ver?

II

Marinheiro sem sorte

Enquanto vou nesta vida navegando
Mais depressa vou-me apercebendo
De que há marés e marés
Que nos obrigam a tudo ir vivendo
Cada um com o seu navio
Cada um na sua embarcação
Embarca em marés de doçura
Assim como nas marés da amargura

Nesta vida somos marinheiros
À corrente marítima acorrentados
Sem conseguirmos evitar
O nosso fatídico Fado
De momento não sei onde estou
Sinto-me no Cabo das Tormentas
Esperando a mudança das águas
Mas as marés são tão lentas

A viajar por este vasto oceano estão muitos
Não somos os primeiros
Mas é bom saber
Que há mais marés que marinheiros

III

Invejo

Invejo as máquinas, invejo os autómatos,
Que muito sabem, porém nada sentem

Invejo as máquinas, invejo os autómatos
Que muito sabem, porém nada falam

Invejo as máquinas, invejo os autómatos
Que não sentem qualquer dor ou sofrimento

Invejo as máquinas, invejo os autómatos
Por se livrarem desse tormento

Invejo as máquinas, invejo os autómatos
Que com a sua eficiência muito trabalham e não intervalam

Invejo as máquinas, invejo os autómatos
Invenções do momento que apoiam e consolam

Invejo as máquinas, invejo os autómatos
Que belas que estas maquinas são!

Invejo as máquinas, invejo os autómatos
Pois sei que apesar de tudo
Como tu e como eu nunca serão…