Recensão de O CÂNONE, António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen (eds.), (2020) – Parte 1 de 4, João N.S. Almeida

Em Outubro de 2020, foi publicado O Cânone, livro de ensaios sobre os autores maiores da literatura portuguesa, organizado por António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen e em que participaram muitos outros nomes respeitados da academia portuguesa. Esse livro, cuja relevância não pode ser subestimada, colheu tanto reacções entusiásticas como violentamente adversas, gerando uma certa dose de polémica. Por reconhecermos a relevância do livro e por este se constituir como motivo de interesse geral, decidimos encomendar quatro recensões (ou uma recensão em quatro partes) que considerassem O Cânone a partir de perspectivas diversas mas construtivas. Apresentamos, aqui, o primeiro texto da série, da autoria de João N. S. Almeida. Os seguintes serão publicados ao longo dos próximos meses.

Texto de João N.S. Almeida. Revisão de Tomás Vicente Ferreira. Livro em http://wook.pt/livro/o-canone-antonio-m-feijo/24341383

Tendo entrado no panorama editorial português com um certo ar de afronta e de polémica, o que este volume antológico acaba por representar é muito menos do que isso, e ainda bem: o barulho — em grande medida mais imaginado do que de facto realizado, como se fosse fácil criar polémicas literárias nos dias de hoje — é substituído, no fim de contas, quando assentada a poeira, por uma normalidade e por um enorme apreço geral face à sua eficácia em realizar os seguintes propósitos. O volume é muitíssimo bem-sucedido não só no objectivo de dar uma panorâmica sadia da literatura feita em Portugal, ou, como também é conhecida, a literatura portuguesa, mas também em cada um dos ensaios, no conjunto em que está inserido, tentar ser — e alguns são mesmo — completamente eficaz em abrir o apetite para a leitura dos respectivos autores que abordam. É imensamente louvável a fluidez orgânica com que os três editores, Miguel Tamen, António Feijó e João Figueiredo, o organizaram: nenhum critério em particular regeu a atribuição de determinados autores a determinadas pessoas que escrevessem sobre eles; às vezes tratam-se de especialistas, outras vezes temos pessoas que nunca tinham escrito sobre o autor que abordam, e noutros trata-se de um caso intermédio. É evidente, aqui, a aversão dos editores à ideia de uma metodologia quando aplicada a certos territórios das humanidades. A escolha parece funcionar e tornar o volume muito agradável ao palato do leitor.

Resta saber qual o critério que presidiu à escolha dos autores canonizados, ou sequer se existiu algum; dada a aversão anteriormente mencionada, seria até possível que o volume reunisse apenas impressões avulsas, mas válidas, sobre um conjunto de autores sem nenhum critério unificador em especial. Mas, de acordo com o que os editores foram explicando nas apresentações do livro, existe de facto um critério cuja ideia-chave é a seguinte: autores que tenham transfigurado a paisagem expressiva da literatura, que depois deles nunca mais tenha voltado a ser a mesma. Não elaboraram os editores sobre que outros critérios seriam concebíeis ou aceitáveis, mas também não é preciso: este que foi usado parece ser suficientemente eficaz a combater a parcialidade da época, o period eye, dado que é mais fácil dizer quais os autores que modificaram radicalmente a paisagem pré-existente — pois para tal existem indicadores literários objectivos: a partir do estabelecimento de qual era a paisagem literária, aponta-se quais os elementos na obra do autor que a modificaram e quais os seus sucessores que foram por isso afectados, e tem-se um critério minimamente determinável. Isto é diferente do “gosto” ou da “grandeza” (em termos puramente de popularidade, seja nas academias, seja entre o público em geral) dos autores. No entanto, podemos ser surpreendidos: talvez nos apercebamos, no futuro, que Sophia — uma autora muito considerada que não está incluída no volume — afinal transfigurou a paisagem pré-existente de modos que não detectámos à partida. No entanto, não deixa este critério de ser mais seguro do que a apreciação do génio ou da grandeza em sentido lato.

Há, por vezes, uma certa tonalidade de contracorrente nos ensaios, avessa aos lugares comuns, que pode ser irritante ou abeirar-se do pedantismo: Camilo Pessanha não é simbolista, Camilo Castelo Branco não é um Eça de Queiroz subdesenvolvido, Fernando Pessoa não é… para concluir esta frase é melhor lerem o livro, que dedica dois ensaios tanto a Camões quanto àquele autor, de dois críticos — António Feijó e Nuno Amado — que tendem a propor uma releitura extensa de Pessoa. É certo que para muitos autores, como Pessoa, o mito ultrapassou a obra, nem sempre da melhor forma; no entanto, o desconhecimento do objecto artístico, que engrossa mitologias populares ou eruditas sobre determinados autores — seja através da sua não-leitura como da sua leitura errada — parece à primeira vista colher a censura do académico mais rigoroso: mas, felizmente ou infelizmente, “ouvir dizer” — ou ver coisas onde elas não existem — é também parte da literatura.

Qualitativamente, os textos, em geral, possuem qualidade mediana e boa: excepcionalmente, um ou outro roça o extraordinário (João R. Figueiredo sobre Literatura Gay talvez seja um deles). Não quero com isto menorizar a obra no seu conjunto: um tão diverso leque de ensaios com qualidade mediana e boa é já algo muito louvável. Cada um deles — ou quase todos —, embora não pretenda sê-lo intencionalmente, é muito persuasivo a despertar a curiosidade do leitor e convidá-lo a ler ou reler o autor abordado. No entanto, o privilégio da voz do ensaísta por vezes ultrapassa o critério da mera necessidade: por exemplo, dá a impressão que no ensaio sobre Jorge de Sena fica-se sem se perceber em que consiste a literatura do autor. Não é que isto seja uma desvantagem: o facto da antologia oferecer um tão diverso contraste quanto às ligaçãos específicas entre críticos e autores abordados resulta, como já disse, numa obra muito palatável.

Um último ponto acerca do volume, que evidentemente existe com consciência da problemática das canon wars bloomeanas e pós-bloomeanas. Aquando da ocorrência destas, no início dos anos noventa, no contexto dos Estados Unidos, muitos dos argumentos esgrimidos vinham por reacção a guerras culturais e políticas transportas para o mundo da academia. Em Portugal, isto não acontece, ou, pelo menos, não é a mesma coisa. Se a hipótese do volume pretender constituir algum tipo de reacção a alguma coisa de semelhante é secundária, urge perguntar porque é que não lhe chamaram simplesmente ensaios de literatura portuguesa. Não é que o nome O Cânone fique mal, antes pelo contrário: e se este se destina a normalizar o uso do conceito para além da politiquice extra-literária, ainda bem. Quanto à reacção que teve em Portugal, a de uma moderada polémica — a qual não chegamos a entender se os autores pretendiam ou reconhecem como tal, etc. — talvez não passe de uma breve espuma de péssima qualidade que constitui aquilo de que se passa nas caixas de comentários das redes sociais, em geral assinalando uma comoção quase artificial e proveniente de outras justificações que não aquelas dadas pelo objecto comentado. Provavelmente, não se tratam de verdadeiras polémicas, mas de faganhotos retóricos de quem já bebeu demais do que quer que seja. Em suma, de polémico este volume não tem, nem tem de ter, nada: é uma antologia de excelentes ensaios sobre alguns dos maiores autores de Portugal, e serve fundamentalmente para dois fins que são inteiramente atingidos: engrossar o trabalho crítico sobre cada um deles, e convidar de forma sedutora os leitores a lerem ou relerem os mesmos. Parabéns aos editores.