Poemas, Corina Lozovan

Textos de Corina Lozovan. Revisão de João N. S. Almeida.

Eu sou o Império da decadência

Eu sou o Império da decadência,
A supremacia do ser abandonado
No pavor noturno, que atrofia com o verbo
Querer.
Esta síndrome da aflição: contraditória, sufocante
Incomoda.
Mas o paciente é paciente,
Estranhando a razão etílica
Disseca qualquer argumento sanguíneo
E repete continuamente:

O bisturi não corta o poder.

Sofisticação

Contrariando os hábitos,
Os tiranos não gostam de monotonia.
Nos confins invioláveis do frio
O passado eclode em sequelas,
Lentamente, em cada estação do ano,
Até manchar as últimas túlipas brancas com sangue.
Deus não mora mais aqui – declaras –
Murmurando a última prece.
E eu acordo com estes fantasmas históricos,
Sentido a política da nostalgia imperial:
Sufocante,
Deixem-me viver no presente!
Acendo uma lâmpada de querosene,
A pele das tuas mãos parece cortiça –
Assusta-me saber que estás a envelhecer.
Cada ruga esconde batalhas desconhecidas
Mas o teu olhar jovial engana qualquer adversário,
A sofisticação do teu andar impressiona-me
E o teu sorriso intriga-me
Como as tuas histórias que se confundem
Entre o absurdo e a insensatez –
Resplandecem com o sol
Num coup d’état do Eu.

Uma sessão pavloviana

Mais uma vez voltei ao início:
Uma inflamação na ventilação dos pulmões
Bloqueia temporariamente o ar –
Somos criaturas pavlovianas,
Tantas vezes condicionadas!
Uma simples recordação
Faz-nos voltar ao mesmo comportamento,
E a intuição sussurra-me o contrário da lógica –
Sinto os reflexos naturais ontológicos:
O coração alerta contra a revolução em marcha
E o passado volta a ser presente.
O corpo de Lenine melhora com a idade
Transfigurando a maldade
Enquanto a minha anatomia envelhece
Num discernimento diligente,
Surpreendendo-me.

Hoje, por exemplo, na sombra de um oximoro,
Entre o comunismo e o capitalismo –
Nasce o mais avant-garde fenómeno e revelação:
O Idealista, um homo sovieticus em mutação,
Sem os ideais da revolução –
Uma alma perdida que em breve vai migrar
E na sua ausência tudo se desmorona
Para o Aberto

Irreversível

Treme a terra, rompendo suturas.
Qual é a tua religião?
O cheiro de jasmim invade-me os sentidos.
Não dissipas,
Fica.

Beleza amarga
Desvanece como fumo:
Explosão incandescente, pura,
Simplesmente irreversível.

Isto é o quê?