Fotografia: Pormenor de uma rua de Tomar, Cláudia Marques

Cinema : Espaço Escapista (passivo) e/ou Espaço Crítico (activo), Cláudia Marques

Texto de Cláudia Marques. Revisão de Luís G. Rodrigues.  

Este ensaio aborda a seguinte dicotomia do conceito de cinema: o cinema como espaço escapista/passivo (o cinema como função de entretenimento e escapismo) opostamente ao conceito de cinema como espaço crítico/activo (o cinema como veículo de debate, aprendizagem, reflexão, discussão, crítica e mobilização). 

Toda esta problemática cultural envolve a conceptualização de Stuart Hall, teórico e sociólogo britânico-jamaicano, sempre envolvido com a temática social, cultural e identitária. O teórico debate as mais variadas questões culturais como : a identidade, a pertença, a multiculturalidade, a raça, a etnia, o pensamento crítico, o activismo e intervenção ou a questão da representação da cultura associada a um universo conceitual compartilhado por: convenções/códigos/valores/linguagem/relações sociais/humanas.  

Com base na temática do meu ensaio, abordarei a teoria da representação da cultura, a hegemonia cultural e a teoria da recepção.  

Stuart Hall defende diversas concepções relativamente à cultura e à sua representação, destacando-se as seguintes:  ● Os significados culturais organizam e regulam práticas sociais, influenciam a nossa conduta e consequentemente geram conceitos reais e práticos; ● Pertencer à mesma cultura é pertencer ao mesmo universo conceitual e linguístico, saber como conceitos e ideias se traduzem em diferentes linguagens e como a linguagem pode ser interpretada para se referir ao mundo ou para servir de referência a ele. Compartilhar esses aspectos é perspectivar o mundo pelo mesmo mapa conceitual e extrair sentido dele pelos mesmos sistemas de linguagem; ● A representação recorre à linguagem, uma prática significante que funciona através de sistemas representacionais (cinema, música, fotografia, “media”, pintura, linguagem, moda, linguagem corporal…) que reflectem e mostram o mundo e o ser humano como ser biológico/ sensitivo, racional, cultural e como actor identitário numa sociedade, nação/povo, comunidade e determinado grupo socio-cultural; ● Stuart Hall apresenta três tipos de representação : “reflexiva” (imitação exacta da realidade representada/mimética – a representação existe por si mesma, independente do interlocutor), “intencional” (oposição à primeira teoria, o interlocutor é o responsável por atribuir sentido à representação e pela sua produção)  e “construtivista” defende que o interlocutor/actor social é que produz e constrói a representação e o seu significado através de sinais, códigos e convenções que reflectem a realidade, sendo um processo conjunto entre interlocutor, sistemas representacionais (signos/sinais/simbologia) e a realidade (também mundo fictício). 

Para além da temática da representação cultural, Stuart Hall aborda a questão da hegemonia cultural, conceito marxista desenvolvido por Antonio Gramsci, associado ao acto de liderar na sociedade de forma consentida, onde o poder, autoridade e ideologia dominante são aceites de forma consensual pelas massas e a relação entre a superestrutura e a estrutura influencia directamente a dominância da cultura das classes elitistas. Stuart Hall defende, mais tarde, a mesma teoria, em que determinada classe domina uma outra, ou seja, existe uma cultura predominante na sociedade, que dita e influencia consequentemente todas as práticas sociais, culturais, ideologias, valores e normas implementadas, sendo estas consideradas as legítimas e aceites com conformidade por todos os estratos sociais (cultura da sociedade). A classe dominante passa, desta forma, dum estado particular para um estado e estatuto universal. Através dos meios de comunicação e da indústria cultural (ex: indústria cinematográfica), toda a cultura dominante e as suas ideologias são veiculadas para o público consumidor, construindo uma cultura padronizada, ou seja, a cultura das massas (cultura massificada).  

Stuart Hall considera a cultura um meio de influência e institucionalização de poder. O Homem é produtor da cultura e produto/resultado da mesma, para além de consumidor, produz e é influenciado por ela, perpetuando-se este processo. 

Hall é um defensor do pensamento crítico e da intervenção activa do indivíduo na recepção da cultura. A cultura não é algo estático, mas sim, alvo de transformação, interpretação e reinterpretação, há uma constante desconstrução e descodificação do significado cultural, dado a subjectividade de múltiplos factores sociais e culturais. O próprio teórico denomina a cultura como “local crítico da acção social e de intervenção, onde as relações de poder são estabelecidas e potencialmente instáveis”. 

A “Teoria da Recepção” de Hall está relacionada com a questão anterior da interpretação e descodificação do que é percepcionado, através do pensamento crítico e subjectividade do receptor. 

Ele divide a teoria em três conceitos :  ● Posição hegemônica-dominante: não há descodificação, o receptor apreende a mensagem tal como lhe é apresentada e com o significado inicial produzido; ● Posição do código negociado: o receptor aceita o conteúdo e significado do que é transmitido mas também produz as suas próprias ideias e conceptualizações, recorrendo à sua própria interpretação, criando, desta forma, novas significações; ● Posição globalmente contrária: o receptor assimila o conteúdo denotativo e conotativo do que é transmitido e ainda contesta, decodifica e interpreta de forma completamente oposta ao apresentado. 

Stuart Hall revela ser apologista de um pensamento crítico e activismo por parte do indivíduo na sociedade e na cultura. A sua concepção encontra-se associada a um dos conceitos deste ensaio : o cinema como espaço crítico (activo). Porém, irei debater a dicotomia do cinema, não só o conceito do cinema como espaço crítico, como o formato oposto, o cinema como um espaço escapista (passivo). 

Retrocedendo na história da Humanidade e nos diversos eventos e épocas que a marcaram, verificamos a importância do papel do cinema como a “fábrica dos sonhos”, um refúgio, um porto seguro, em que o espectador foge das adversidades do seu quotidiano e da comunidade e sociedade onde se encontra inserido. O “escapismo” é considerado uma fuga da realidade e passagem para uma outra realidade alternativa, um mundo que não o do indivíduo. Desta forma, o público  através do cinema embarca e experiencia outras vivências, outras aventuras e realidades alheias materializadas pelas personagens e pelos enredos cinematográficos.  

O processo de escapismo é uma realidade constante nos vários períodos históricos que ocorreram ao longo dos anos. Um dos casos mais impactantes foi a Grande Depressão (crise de 1929 que se prolongou até à época da Segunda Guerra Mundial). O desemprego e a precariedade levavam as populações ao seu refúgio de eleição, o cinema. Existem dados estatísticos que comprovam que a indústria cinematográfica lucrava bastante neste período e os géneros mais procurados pelo público eram os filmes de terror, que automaticamente transportavam os espectadores para um mundo paralelo, fantasioso e longínquo.  

Um exemplo ilustrativo deste período é a obra-prima, “A Rosa Púrpura do Cairo”. O filme é um marco na história do cinema. Uma carta de amor à sétima arte pela objectiva e mente criativa de Woody Allen. A história de uma empregada de um café na Era da Grande Depressão que encontra o seu mundo idílico e o seu refúgio no cinema. Uma personagem de um filme a que assiste sai da tela, passando do mundo da ficção para o mundo real, acabando por se apaixonar pela protagonista humana e por ter de lidar com a sua nova realidade. É a dicotomia perfeita entre o mundo ilusório e escapista do cinema e a dura e triste realidade. 

Na actualidade, especificamente no ano de 2017, a eleição de Donald Trump, a questão da igualdade de géneros e as crises dos refugiados levaram o público a recorrer, uma vez mais, ao escapismo no cinema. Os filmes com maior audiência foram musicais, filmes de super-heróis, acção, terror e animação (“La La Land”, “It”, “Annabelle 2”, “Deadpool”, “Liga da Justiça”…).  

No ano passado, os filmes mais lucrativos foram mais uma vez dos mesmos géneros (“Os Vingadores”, “Rei Leão”, “Homem Aranha”, “Captain Marvel” e “Toy Story 4”). 

O escapismo é uma característica intrínseca do mundo do cinema comercial, o mais procurado, sendo um recurso ao qual recorremos por necessidade, por carência, por desejo de viajarmos e mergulharmos num mundo melhor, num mundo de mistério, sonhos e novas aventuras e descobertas por histórias e personagens que nos transportam para além da nossa realidade, das nossas frustrações e do que nos assola no nosso quotidiano e na sociedade.  

Porém, o pensamento crítico e a reflexão acerca da mesma realidade que nos assombra, preocupa e questiona, é tão importante como o escapismo. 

O ser humano tem de questionar, debater, contestar o mundo à sua volta, a sociedade onde se insere, as problemáticas culturais e sociais que existem. É um acto essencial, enquanto cidadão e ser social e cultural. 

Na época actual, o consumo rápido impera, a cultura “plástica”, “enlatada”, efémera, superficial e padronizada, desprovida de significação ou questões profundas, é a procurada pelas grandes massas, é a que consola o público e impede o espectador de ter uma abordagem intelectual, crítica e crua da realidade. O público não quer ter uma opinião, reflexão e debate crítico, o público quer ser entretido. A cultura dominante e padronizada, ou como Clement Greenberg nomeia, a cultura kitsch, é um produto da revolução industrial que acaba por influenciar a cultura e conhecimento das massas na sociedade. Por outro lado, a cultura mais profunda, como o cinema autoral e independente, é 

visualizado por um público mais especializado, distribuído por festivais de cinema ou plataformas streaming. 

As temáticas escapistas/passivas predominam no cinema, ao contrário das temáticas com componente crítica/activa abordadas em filmes como os de Spike Lee (em que o racismo, a discriminação e o preconceito são retratados de forma brilhante e muitas vezes, satírica) ou filmes autorais como os de Woody Allen (dramas e comédias, muitas vezes auto-biográficos, que ilustram as particularidades e questões existenciais do ser humano nas suas relações afectivas, na sua historicidade e vivência). 

Porém, um dos mais recentes filmes foi uma excepção à regra. “Joker” (2019) é um thriller psicológico, retrato de uma figura emblemática do mundo dos super-heróis, o vilão de Batman. Porém, o filme é uma desconstrução da figura de Joker, um filme que foge a todo o “franchising” da Marvel e do mundo dos super-heróis, mergulhando no universo profundo e duro da mentalidade de um psicopata. As origens, fragilidades, carências, problemáticas e incoerências de Joker, muitas delas comuns a todo o ser humano, são reveladas ao público que aderiu e ovacionou este filme. A empatia transparece neste filme, o retrato de uma sociedade degradante e “esquizofrénica” são colocadas a nu aos olhos dos espectadores e a identificação cultural com o seu universo conceitual é apresentada. O filme teve uma grande adesão por parte da cultura massificada e do seu público, talvez por abordar apriori a temática de uma personagem do mundo de entretenimento dos filmes de super-heróis e vilões e, por conseguinte, por abordar o factor de desconstrução da personagem, aprofundamento das suas características humanísticas e pela sua origem, provocando, de certa forma, a identificação e empatia por parte do público.  

Concluindo, o cinema é tanto um espaço escapista com uma componente de entretenimento como também um espaço crítico, em que o espectador é um “actor” activo, cultural, intervencionista e mobilizador.  

Ambas as temáticas são imprescindíveis e essenciais na vida do espectador, na vida de todo o ser humano. Devemos usufruir do nosso tempo de entretenimento e contrabalançar sempre com o nosso cunho e pensamento crítico, debatendo ideias, contradições, as realidades e problemáticas do nosso quotidiano, da nossa comunidade, da sociedade e do mundo.