Carta a Ana Carolina sobre Mar de Rosas, Marize Moreno

Texto de Marize Moreno. Revisão de Luís G. Rodrigues e João N. S. Almeida.

Juiz de Fora, 29 de Junho (…) a 13 de Julho de 2017.

Querida Ana Carolina, essa semana eu tive um encontro que há tempos se fazia necessário nessa vida e queria que as percepções, que não cabem em mim, como uma euforia de um encontro bom, chegassem até você como quando alguém nos elogia por algo que nos custa tanto mas ao mesmo tempo é uma simples parte nossa.

Talvez eu precise começar pelas observações que julgo negativas para que no caminho lento chegue ao que me fez ter um pouco mais de serenidade e prazer. Primeiro vem o delírio e logo depois a completude; Caminhei junto a duas personagens, recentes da vida, a um espaço até então desconhecido, para ser a espectadora do ainda não visto, ouvir palavras ainda não escutadas, de quem criou. O negativo é eu, até então, desconhecer sua existência.

Gostaria de que o roteiro das coisas (os próprios acontecimentos da vida) fossem claros, exatos, na verdade, não exatos mas nítidos, mas a vida jamais é assim, e o roteiro é um texto rabiscado, guardado no bolso de trás. Essa semana eu me encontrei com Betinha e ela sem olhar pra mim, debochou da minha cara, mijou no mesmo chão que piso, esfregou a minha cara no chão.

Eu sentada, sem esperar, com a unhas roídas e numa ansiedade corriqueira, vi o parto, Betinha nasceu do próprio mijo e o mijo era seu próprio gozo de estar viva, olhou pra paisagem dando as costas para mim que, na excreção de seu corpo, já me identificava com o que ali nascia, como uma heroína sem caráter, filha da preguiça de ser. Seu corpo contorcido se tacou dentro de um carro e seguiu na estrada.

Em planos e contraplanos, subjetivos com a perspectiva feminina, a discussão da relação, o rogo por ser escutada alguma vez por aquele sujeito que ignora a existência, não dando importância ao sujeito mulher, Felicidade e Sérgio protagonizam a cena privada do casamento. A perspectiva do homem nos é apresentada no momento onde Felicidade parece tocar na masculinidade desse homem, “é” “é” “porra!”. “Separação”, a busca pela liberdade, a própria felicidade, a saudade que nunca existiu.

Betinha aparece na maior parte dos planos, mesmo quando o enquadramento é de outro personagem, é a participação errônea nessas vidas, o caos que se materializa em forma

de sujeito. E talvez por se sentir tão longe do amor do mundo, eu mesma seja um tanto Betinha.

A experiência que vem, se realiza pela identificação, a história que acompanha homens e mulheres, e digo assim, principalmente as mulheres. Embora sejamos, os sujeitos em terra, da “sensibilidade”, a produção artística do mundo, em sua história é feita majoritariamente por homens. Penso nas artistas, nos livros que lemos, nos filmes que assistimos, e vejo um catálogo de homens criando o nosso imaginário.

Todo objeto existente tem história, e todo sujeito também, e permeados por esse consumo seja de bens materiais ou imateriais, compramos uma história apagada, a feitura, o material, todo o pensamento por trás de qualquer coisa que existe, além de esquecermos ou ao menos ignorarmos que toda essa produção que a nós chega seja “masculina”. Prédios que se erguem, ruas projetadas, e toda percepção sensória diminuída, regulada, mensurada em números de dinheiro e “masculina”. E ao escrever tudo isso, penso nesse espaço que estou, sobre mim, moro na avenida Itamar Franco, antiga independência, próximo a avenida Rio Branco e a Rua São Mateus, meu condomínio é Coronel Sansão.

Tento imaginar o filme sendo queimado, as escolhas feitas dos planos, os cortes, as roupas escolhidas, o tempo em que as coisas foram realizadas. Os pensamentos que de dia a dia foram coletados do mundo para que fossem assim transpostos em frames para que eu, ali em corpo, olhos, barriga cheia, depois de pegar algumas conduções em uma cidade pouco conhecida, num prédio até então nunca visitado, sentasse numa poltrona que me recordava outra já experimentada num lugar tão longe, com outras memórias, e depois de anos daquela obra já ter sido recebida por outros corpos, aos 23 anos encontrasse um pouco do outro e de mim.

A experiência acontece porque não passa, ela fica, permanece, não tão compreensível a primeiro momento, você sente e não sabe bem o porquê que se diferencia de tantas outras imagens que se vê a todo momento, escrevo pra entender. Está tudo lambido, mastigado e jogado, o resultado é uma excreção sem muitas escolhas…

Felicidade chega ao ápice, rompe o que a prende, quando por meio de uma revolta à agressividade desse homem, o “mata”. “Você matou meu pai?” “Matei”, como ele a mata a todo instante, não só por sua existência física e seus atos mas todas as simbologias que ele carrega, assim como ela carrega o peso de ser mulher no mundo.

Corre, foge, tenta conduzir a própria vida, o caminho.

Betinha também é Electra, ama a figura do pai, com gestos de carinho, acariciando esse corpo, é a reprodução do mito, confirmado com sua ação final, a vingança pela morte do pai. Por vezes Betinha busca a figura paterna, ou Felicidade é agora essa figura, com a barba desenhada em seu rosto e conduzindo o veículo. Betinha queima essa figura, a mãe, a bruxa, o fogo que come esse corpo de mulher, ou melhor, suas pernas. Seria Betinha tantas coisas, a arte dionisíaca, a loucura, caos, o não limite. Betinha é a arte disturbadora de Arthur Danto.

Betinha é a heroína sem caráter, aparece como um ruído nas falas alheias, assobia, cantarola, se mostra sem medo e ressentimentos, suas ações são impulsos, age como bem entende. Quer fugir e foge, vai para o mundo inexistente, o mundo da liberdade, como um sonho que destoa no espaço. Quer enterrar aquele corpo da mulher, sua mãe, o barro de onde o homem nasceu, e a mulher apenas fruto desse corpo do homem.

“O artista disturbador não quer representar, mas tornar presente ou incorporar algo, recuperando a origem ritualística da arte antes de ela tornar-se “arte”. Nesse sentido, ele regressa até mesmo à situação do sacrifício, na medida em que se sacrifica como artista, ou sacrifica a própria arte modernamente compreendida, para transformar o público, o qual, se o ritual for bem sucedido, deve deixar de ser público e tornar-se participante.”1

Procuro aqui toda essa imponência de Barde, para me afirmar em palavras tirando, por favor, a autoridade, desfazendo-me de certezas, apenas tendo essa falsa coragem, essa mentira de si. A catarse é a destruição, a morte, creio que Betinha além remeter de se aproximar do que seria uma arte desturbatória, ela é quem nos dá a catarse, é ela quem destrói imagens, o fixo, o normativo. É ela quem empurra para longe a figura de mãe e homem.

Uma das pessoas que estavam na mesma sala durante a exibição do filme, fez a pergunta sobre a idade de Betinha e relatou que entendera que a personagem tinha algum problema psíquico. Ana, respondeu que Betinha poderia ter 15, 18, 22 anos(…), que seria uma personagem limítrofe(…) Juntando a pergunta, a resposta, o meu sentimento e Danto, se a arte disturbadora, perturba, está entre esse limite entre arte/vida/morte, Betinha a é, quando a todo momento carrega em si a fuga de padrões, tenciona, rompe o “natural”, nos tira da tranquilidade, ela não é cômoda. O “anjinho”, como diria Niobi, é lido pela própria espectadora como não racional, o ser impulsivo que rompe com os limites da normalidade de

ser. E para ser lida como “limítrofe” nos avisa ainda mais sobre essa imposição de moldes. “ela arrebenta o molde”, diria José Henrique, diretor de endereços2.

“Ele preocupa-se sobretudo com a psicologia da arte disturbadora, que perturba mais do que a representação de elementos perturbadores, porque perturba em um sentido que escapa às regras e às convenções, rumo ao que é quase pré-civilizatório, irracional, desconhecido – podemos acrescentar, rumo ao dionisíaco enquanto dissolução das fronteiras entre os sujeitos e seus papeis sociais definidos. Indo um pouco além, isso não acabaria por dissolver as fronteiras do próprio conceito de arte?”3

Felicidade por vezes se mostra com poder, a vontade de mudança, mas por outras repassa para a própria filha os moldes em que deveriam se encaixar como mulher, recalca as ações da filha, o lugar dela é atrás de sua própria figura, tornando visível, quando a manda para o banco de trás, puxando seu cabelo, batendo, a buscando e a retirando do espaço onde o circo passa. Felicidade corre atrás da prole, mas revela que seu desejo às vezes é a morte de Betinha. “A abstinência é o preço da eterna liberdade”, o som intradiegético são pensamentos, ludibriações, narradas pela própria personagem, a narração que se parece também com a uma voz de Deus, assim como a ideia de abstinência existe em certo fator pela moral-cristã.

Quando Felicidade foge, logo que “mata” Sérgio, a fuga é curta, outro homem aparece, o salvador, como um príncipe ou qualquer autoridade que entende mais que qualquer um para onde se deve e como ir. O homem que prevenido salva, tem no toque a dor, a agressão, mas em seu discurso o ato é necessário, o homem machuca e sente prazer. Seu discurso é sempre de certezas, o racional, protege e valoriza a família, conhece o Rio e São Paulo como a palma de suas mãos, e nenhum lugar é bom o bastante para a família, mas ele percorre esses espaços, sem medo, está sempre apto a chegar e sair de qualquer lugar, é do mundo, sem limitações e medos.

Após queimar as pernas, “quebra-se as pernas”, ao ser atropelada pelo coletivo. A mulher está limitada ao espaço privado, fora disso ela não é nada. ” O coletivo Mata”. E mata talvez por não querer que essa voz esteja ali, entende que a voz da mulher esteja restrita às paredes do lar, na cozinha, em cima da cama, a Felicidade só pode ser um pronome pessoal. Após o atropelamento, Niobi nos aparece, teatral, exagerada, carrega Felicidade para esse

espaço do lar, conhecemos aqui um palco de encenações, o absurdo, a teatralidade se torna evidente.

Surge também a figura de Dirceu, como um poeta, frustrado por ser dentista. (o que é o trabalho/ o que é a arte?) Aos poucos nos vai sendo revelado a identidade fajuta, o sujeito “poetinha”, com versos pobres e nada além de palavras saídas da própria boca, coisas não sentidas, não vividas.

Quando Niobi começa a descrever seus sentimentos, e suas ações até o encontro de Felicidade, vai sendo revelado a performance, o épico. Poucos momentos do filme temos a câmera fechada no rosto de algum personagem, temos agora o close em Niobi. Suas expressões são sentidas, performadas em corpo e som, seu poema é a própria vida, a narrativa épica do contar o cotidiano, palavras que saem permeando todo o corpo, Dirceu em contraplano nos aparece com o rosto de descontentamento, inveja, ela é assim o poeta que queria ser, os sentimentos que queria ter, ver o sangue de se sentir.

Dirceu diz querer sangue, que flui da verdade, o ápice da matéria de si, o interior que se externaliza. Quando finalmente Dirceu encontra o sangue, acha que chegou ao ápice o mais próximo da morte, a catarse, mas não reconhece que o sangue que ali se derrama é fruto de uma ação de outra mulher, Betinha.

Não que se defenda as atitudes de Betinha, não que Felicidade seja apenas a imagem passiva da mulher, temos ela tentando fugir, ela soltando palavras lúcidas, pela boca, pelos pensamentos e através de cartas. E cartas, que são assim tão importantes para vozes que sempre se viram trancafiadas no lar, no não coletivo. Fiquei mais feliz ao ler sobre as ideias da diretora, o uso de cartas íntimas, o sentimento de talvez Betinha ser seu alter-ego, as imagens repetidas do mijo nos filmes, juntando a minha lembrança da indecisão se sairia da sala para seguir meus instintos e necessidades de mijar, as espinhas que saem na cara pela ansiedade(…).

E esse filme não passou, me experienciou, estou ainda sentada olhando para ele. E se a experiência se separa assim tão longamente de saber…o texto é sempre falho, o que é…está guardado e jamais transposto em palavras.

Para finalizar esse caos de palavras, sensações, citações desordenadas, digo que essa semana conheci uma bruxa, a bruxa que há anos eu aguardava. Ela se materializou em 5 corpos, inclusive o meu. Seu nome em terra é Ana. Ana se consubstancializou em imagens,

textos e tato. Me explicou eu mesma e todo o universo através de mim e si. Eu havia esquecido coisas do amor.

Ana caiu de um degrau, fez eu comer cabelo, lembrou-me que seu corpo já esteve inerte em minha cama. Ana é velha e contemporânea, tem cheiro bom, bebe e fuma. Até fica bêbada. Ana gosta de filmes, livros, pessoas e principalmente, de mulher. Ana é crítica, mas me ama.

Toda essa desordem é um fake trabalho, traduzido em uma fake carta, de uma fake artista, para uma das disciplinas que mais me afetaram nos 3 anos de curso de “artes”, que foi ministrada por uma artista que em uma das aulas nos contou sobre suas fakes performances. E é apenas uma parte sensória transposta e dedicada a Ana Carolina Teixeira, Ana Luiza Fernandes, Ana Cristina César, Anna Macacchero e a fake Ana que fez com que eu atuasse com duas pequenas frases, em um curta de alguns colegas.

Beijos e abraços longos, Marize Moreno

1 FERREIRA, Débora Pazetto. ARTHUR DANTO E A REPRESENTAÇÃO COMO LIMITE DA ARTE.

2 Personagem do escritor Juiz Forano, Rubem Fonseca, no conto “Asteriscos***”, do livro Lúcia McCartney.

3 FERREIRA, Débora Pazetto. ARTHUR DANTO E A REPRESENTAÇÃO COMO LIMITE DA ARTE.

Filme: Mar de Rosas (1977)/ Diretora: Ana Carolina