Dostoiévski e o seu sol da meia noite: sobre Noites Brancas e outras coisas, Victor Hugo Nicéas

Texto de Victor Hugo Nicéas. Revisão de Tomás Ferreira e João N.S. Almeida. Link wook.

A verdade existe[i]. Foi com este singelo dizer que Dostoiévski conseguiu me chocar, não com a descrição de múltiplos homicídios ou atropelamentos, mas com a simples redenção filosófica à verdade. Esta frase, que parece simples e mentirosa, fez-me sorrir em deleite ao lê-la através dos dizeres deste pessimista adorado. Fez-me deixar de ter vergonha em dizer que ela é realmente verdadeira e que existe, independente das variações materiais que o “estar vivo” nos impõe a ser. Esta frase inicial fora escrita para taxar o sonho que um homem ridículo teve, homem este assim reconhecido em várias obras deste ilustre escritor, que talvez até mesmo o pudesse enxergar no reflexo de seu espelho e devido a isto criar tantos personagens psicologicamente similares, principalmente no livro aqui trazido: Noites Brancas, na tradução de António Pescada (Lisboa: Relógio d’Água, 2020).

Ler Dostoiévski é como ler escritos juvenis de desabafos em forma de diálogos; são conversas simples com descrições de imagens óbvias, todo o cenário é entregue ao leitor sem muito tato lírico, como se estivesse a descrever contas matemáticas básicas, mas que tecem na mente de quem lê um quadro psicológico do narrador-personagem. Isto ocorre em Crime e Castigo, assim como em Memórias do SubsoloO Sonho de um Homem Ridículo e, claro, não poderia ficar de fora das Noites Brancas aqui discutidas.  Sim: às vezes, enxergo-o como um belíssimo adolescente-filósofo, com certeza não apenas um escritor literário, mas um quase perfeito pessimista schopenhaueriano; e não digo isto para desmerecê-lo, longe de mim, mas para que possamos enquadrá-lo em uma realidade intelectual mais ampla e menos enrijecida pela disciplina literária académica .

Podemos ler suas obras e sentir em nossas costas um chicote de emoções a rasgar-nos a pele, desatinando a dor que ali morava mas que não emergia devido à bolha de proteção na qual estamos quase sempre vivendo. Quando certas realidades são expostas por bêbados ou através de tímidos pensamentos, como os de Razumíkhin, em Crime e Castigo[ii]— ou mesmo do novo amigo de Nástenka[iii] — as palavras ali proferidas costumam refletir realidades horrendas em situações de extrema soberba, extrema miséria, ou até mesmo extremo medo; quase nunca são palavras belas e fecundas o máximo de esperança que se insurge é logo prendida com pregos  e muitas vezes quase abandonada. Os ‘quases’ anteriormente mencionados  é que acabam por intrigar, pois em todo o peso desabafado em suas obras acaba por nos trazer certos sonhos dos personagens, talvez sonhos pessoais, sonhos esperançosos, traços de todo bom e verdadeiro pessimista.

Em Noites Brancas, vemos dois personagens que se conhecem em seus desconhecimentos, enxergam um no outro vidas que nunca tiveram, mas que sempre existiram em suas próprias realidades ideais; ou seja, sonhos. São dóceis sonhadores amargurados pelas realidades que lhes foram impostas, seja num vestido cosido junto à avó, ou na prisão da timidez que impõe aos seres serem o que não são, deixando a individualidade perdida na essência íntima sorrateira constantemente soterrada por ações em contrário. São seres que, um para o outro, servem como dias completamente ensolarados, felizes ao ponto de expurgarem a noite dos céus. O livro acaba por se desenvolver como uma espécie de romantismo filosófico e, como sempre, lamuriento.

Personagens ansiosos e inseguros são atores correntes da vida moderna (e de todo o sempre): são estes dois adjectivos, nada agradáveis, que se completam para ao fundo de um poço chegar. O inseguro que se segura em um ansioso sonhador, que a algo anseia, alimenta este com a ilusão de satisfação daquilo que almeja, como um enfermo pulmonar que deseja cura e não larga o fumo. Trata-se de uma complexidade psicológica a que é difícil de rotular a funcionalidade, mas que Fiódor consegue esmiuçar, através da externalização de sentimentos que se complementam em negatividade para trazer a nós a falsa sensação do que é bom, e leva-nos a admirar um provável casal pelo devaneio de suas mentes débeis, possivelmente insatisfeitas em suas realidades. Tudo é ruim, nada é bom, só talvez a satisfação do que se quer por meios ideais.

Não é que se trate de uma crítica velada aos sonhadores do mundo; pelo contrário, parece até um apelo para sua existência cada vez em maior quantidade, como se desta forma a sutil esperança de um bom pessimista pudesse estar presente por detrás das camadas mais densas de sofrimento. Noites Brancas acaba por ser um sutil escrito que pode ser devorado com os olhos em poucas horas, sem maiores dificuldades. Com consideráveis toques de filosofia, acaba por ser um livro bastante reflexivo e extremamente atual em suas colorações psicológicas. Não diria ser nada sublime, mas sem dúvida lhe cabem outros adjetivos: bom, leve e cheio de romantismo não piegas; vale sempre a pena a sua leitura.


[i] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O Sonho de um Homem Ridículo, 2ª Edição, editora 34, Rio de Janeiro, 2009, pp. …?

[ii] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e castigo, 1ª Edição, editora 34, Rio de Janeiro, 2015.

[iii] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Noites Brancas, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2020, pp. …?