O jornalismo pela lente do cinema: Citizen Kane, Network e Bombshell, Cláudia Marques

Texto de Cláudia Marques. Revisão de João N.S. Almeida. Fotografias: fotogramas de Citizen Kane (1941), Network (1976) e Bombshell (2019).

Citizen Kane (Orson Welles, 1941) inspira-se na história do magnata da imprensa, William Randolph Hearst — uma figura de renome na imprensa do início do passado século, proprietário de editoras e fundador de uma rede de jornais e revistas— mas é também, e talvez principalmente, um reflexo da vida do próprio Welles. O filme inicia-se com planos esfumados e avança até um close-up de uma boca que declama a palavra “rosebud” e deixa cair uma bola de neve de vidro, num simbolismo da morte. Segue-se uma reportagem — elemento de vanguarda para o cinema da época — que relata detalhadamente a mansão do proprietário que morreu, uma mansão luxuosa, gigantesca, com um espaço geográfico para museus, estátuas, jardins e até mesmo um jardim zoológico particular. É descrita como a construção mais cara desde as pirâmides, uma construção gigantesca, e baseia-se parcialmente nos hábitos de alto coleccionismo de Hearst. Posteriormente, ainda na reportagem, surgem diversos cabeçalhos de jornais que relatam a morte do proprietário, Charles Foster Kane – o maior magnata de todos os tempos – e apresenta-se a sua biografia. Kane, proveniente de origens humildes, tornou-se o dono de 37 jornais, dois sindicatos, uma rádio, edifícios, fábricas, florestas, navios – um império que durou cinquenta anos; foi polémico, acusado de ser fascista e de se ter envolvido em escândalos conjugais; candidatou-se a governador e a presidente; casou-se duas vezes e a sua decadência iniciou-se com a época da Grande Depressão, que levou à falência de vários dos seus jornais. O magnata é caracterizado ainda como uma grande influência para o mundo através dos seus jornais e da sua ideologia política; é destacado o mito de Kane através da descrição destes feitos grandiosos, que contrastam com a pequenez e menoridade do homem.

A reportagem termina e assistimos a uma equipa que pretende criar uma nova reportagem mais aprofundada em termos de investigação. Eles pretendem transmitir ao público a essência da pessoa que foi Kane, quem ele realmente foi; resolvem assim investigar a sua vida através da emblemática última palavra no leito da sua morte – “rosebud”. Viajamos no tempo (através de analepse/flashback), por via de um close-up a desvanecer-se num livro investigado por um jornalista. Revisitamos a infância de Kane, em que este herda uma mina e é afastado dos pais, herança que rejeita mais tarde, preferindo dirigir um jornal. Vislumbramos aí dois lados de Kane: o rico accionista, e, por outro lado, o dono do jornal Inquirer que pretende mostrar as injustiças relativamente às más condições dos trabalhadores e aos seus direitos, mostrando o seu lado contestatário aos grandes poderes. Mais tarde, a analepse termina e voltamos ao jornalista a terminar a sua leitura de investigação. A sua segunda mulher, Susan Gettys, que sempre o acompanhou ao longo dos negócios da sua vida, é entrevistada; esta sugere que o seu melhor amigo, Leland, é uma pessoa que deveria ser também ouvida e dá-se uma nova analepse. Estas técnicas complexas que envolvem analepses sucessivas e histórias contadas a partir de uma narrativa dispersa são, também, elementos de vincada vanguarda para o cinema da época. A partir daqui somos reportados para a tomada de posse de Kane como editor do seu primeiro jornal, jornal este representante de um jornalismo idealista de serviço público. Temos acesso a diversas técnicas e ideologias de Kane, como destacar a importância das notícias através de grandes manchetes; a sua declaração de princípios, posta por escrito na primeira página do jornal, a favor de um jornalismo íntegro, livre, sincero, imparcial e respeitador para com o seu público, numa abordagem aos valores e à ética. Também se aborda o tema da circulação e distribuição dos jornais. Posteriormente, Leland diz que foi o seu único amigo e que Kane era um homem generoso e com grandes ideais, mas que apenas acreditava em si próprio, na sua concepção do mundo, e nada mais (uma constatação relativa à personagem com curiosa analogia ao carácter e personalidade de Trump). Regressamos a um flashback a relatar o primeiro casamento e a sua gigantesca e mediática campanha para governador do seu estado.

Mais tarde, Kane enfrenta um escândalo com a sua amante, Susan, com quem posteriormente se casa, e temos acesso ao mau jornalismo – imprensa cor-de-rosa que relata escândalos e expõe a vida privada dos cidadãos, enquanto que Kane revela a sua integridade ao publicar uma má crítica relativamente ao desempenho da sua mulher como cantora de ópera. Mais tarde, Susan descreve o seu percurso com Kane, desde a carreira decadente como cantora de ópera, até à vida solitária de casal e a ruptura final — quanto maior a riqueza e a mudança para o palácio, maior o afastamento entre as personagens. O filme termina com a perda final de Kane, já após a sua morte – o seu palácio acaba por ser leiloado, representando a enorme acumulação material, inócua e vazia, que constituía a sua vida. O filme encerra com o regresso ao plano inicial do sinal da entrada do palácio: no trespassing, elemento que simboliza a vida de Kane, e sugere que, por mais que se investigue, o âmago da vida de um homem é interdito e nunca totalmente conhecido.

Assistimos assim à vida de um homem que teve tudo e ao mesmo tempo nada, que passou do sucesso até à decadência e do idealismo à ambição desmesurada. Kane, revela-se desta forma uma complexa personagem, com poder, força e ideologia vincadas, como também possuidor de uma grande carência e necessidade de afecto, atenção e amor. Por esta razão, projectava todas as suas ideias nos outros e tratava-os tendo em vista sempre os seus interesses. “Rosebud” poderá significar o amor, o elemento que lhe faltou na vida, traduzido assim numa palavra incógnita para o espectador, tal como o amor (uma peça de um quebra-cabeças em falta, como é citado no filme). 

Do ponto de vista de um filme que é, entre outras coisas, também sobre jornalismo, Citizen Kane é um apelo à integridade da profissão, que cumpre a ética e valores para esta esperados, e, simultaneamente é uma crítica à ganância e ao desprendimento dos valores que lideram o bom jornalismo. É um retrato de um tipo particular de jornalismo: heróico, interventivo, agente de mudança, revolucionário e romantizado, para além de ser também um retrato de um homem privilegiado que, de facto, graças aos meios de que dispõe, pode perpetuar a prática desse mesmo jornalismo idealista. Porém, a personagem abraça e revela incoerências, já que exerce um jornalismo de causas que é, simultaneamente, sensacionalista, egocêntrico e falacioso, revelando a complexidade da vida de uma personagem ficcional, que espelha as figuras e personalidades tanto de Hearst como de Welles. Para além da temática relativa à ética, — sempre actual, mesmo no jornalismo contemporâneo — o filme é livremente inspirado numa figura real. A visão e concepção metodológica jornalística de Hearst (séc. XIX) prevalecem até à actualidade: ele inaugurou o conceito de yellow press, a imprensa sensacionalista e falaciosa, com propósitos meramente lucrativos. Ao mesmo tempo que foi acusado de produzir jornalismo sensacionalista e tendencioso, apoiava o Partido Democrata da Câmara dos Representantes dos EUA, do qual fazia parte, e detinha valores e ideais extremamente conservadores, retrógrados, nacionalistas e anti-comunistas. O filme revela e retrata, precisamente, a faceta contraditória e ambivalente da figura jornalística, jogando com a ética e com os valores do bom e do mau dentro do ser humano, do bom e do mau na sociedade, e, consequentemente, do bem e do mal na actividade do jornalismo e de se ser jornalista.

Network (Sidney Lumet, 1976) é um filme que conta a história de Howard Beale, um pivô de telejornal que se depara com a decadência da sua carreira e vida pessoal ao assistir à progressiva queda de audiências do seu programa e à morte da sua mulher, que o levam a um estado depressivo e de alcoolismo, acabando por ser despedido. Subitamente, anuncia que tenciona suicidar-se no seu último programa de televisão em directo. A princípio, todos ficam escandalizados com a ideia, e o acontecimento torna-se viral e polémico; mas, posteriormente, a ideia à partida absurda revela-se genial, brilhante e engenhosa, já que o sensacionalismo, a deturpação, o exagero, o escândalo, sangue e o choque servem como resposta à descida das audiências, correspondendo aos desejos do público. Howard é readmitido, e assiste-se à manipulação do público-alvo e à do próprio jornalista por parte da emissora, que se encontra visivelmente transtornado psicologicamente.

Apesar de todas as loucuras descritas programa após programa, o protagonista revela um espírito crítico relativamente à sociedade, à política e sobretudo à televisão, caracterizando-a mais como um circo, um carnaval, um espectáculo, um meio que não é sério nem íntegro, uma máquina de mentiras que apenas responde consoante o gosto e o apelo do público-alvo em prol de audiências. Howard é uma vítima do sistema e torna-se num agente manipulado, mas simultaneamente com um espírito crítico activo, através dos discursos enfáticos que profere semanalmente; o seu melhor amigo Max representa a justiça e os valores de uma outra era do jornalismo televisivo; e Diana, a vice-presidente, representa a loucura e o sistema da vida plástica, inócua e ilusória da televisão. O filme termina, assim, com a queda de audiências que culmina na morte do protagonista em directo do seu programa.

Este filme é uma verdadeira sátira ao conteúdo que as televisões privilegiaram a partir da década de setenta do passado século; uma crítica ao mau jornalismo, sensacionalista, que não serve a ética da profissão mas apenas procura a obtenção de lucro através das audiências — no filme surge, como exemplo, numa cena específica dos bastidores da produtora televisiva, a apresentação e análise de vários excertos de vídeos em tempo real de vários tópicos (bombistas/criminosos/sexo/escândalo/sangue/choque), que inspiram o tipo de jornalismo perpetuado pela produtora. Na actualidade, o tipo de jornalismo sensacionalista retratado tem um peso ainda maior, tornando-se cada vez mais visível no quotidiano e na sociedade, não só através dos media tradicionais mas também dos meios comunicativos digitais em que todos nos tornamos agentes activos. O poder e autoridade tanto pertencem ao órgão noticioso como ao utilizador que faz partilhas na Internet; isto representa uma democratização do jornalismo, o surgimento de uma comunidade globalizada de agentes activos do jornalismo, o que contribui para a criação das fake news, notícias deturpadas, exageradas, falaciosas e chocantes, características do jornalismo sensacionalista. O filme aborda também a criminalidade presente na cultura americana, desde a sua origem histórica, com a presença de constantes conflitos bélicos, raciais e de ódio; uma descrição do estado workaholic que atinge cada vez mais a sociedade; a problematização dos padrões da vida familiar, veiculados igualmente pela televisão, com mentiras, traições e jogos emocionais; e, por último, uma crítica ao capitalismo, como num dos discursos do protagonista em que se fala que todo o mundo vive através do dinheiro e todo o sistema gira em torno dele, numa ausência de valores e ideais, apenas com a preocupação com o negócio e o lucro.

Bombshell (Jay Roach, 2019) é uma verdadeira ode à luta pelos direitos da mulher, pela igualdade de género e pelo combate à cultura machista e ao assédio sexual, que, neste caso, ocorre no ambiente da redacção da emissora Fox News. O filme é inspirado no caso verídico de denúncia por parte de um grupo de mulheres jornalistas (Megyn Kelly, Gretchen Carlson, e a ficcional Kayla Pospisil), que expõem o assédio sexual por parte do seu chefe, Roger Ailes. O filme inicia-se com uma breve mas elucidativa e provocadora biografia relatada por Megyn relativamente a Ailes, o seu chefe, em formato de documentário, através de fotografias, entrevistas e excertos de reportagens. Megyn quebra a “quarta parede”, dirigindo-se para o público do filme e abrindo as portas para o universo dos bastidores onde trabalha, fazendo uma visita guiada e  dando a conhecer a produtora e emissora e o edifício onde se localiza, que reúne as principais publicações de direita política americana.

Posteriormente, a jornalista entra em conflito com a emissora por denunciar o comportamento machista do presidente Trump, sendo aquela alvo de uma perseguição pública e mediática e de uma onda de críticas por parte do público. Mais tarde, Gretchen, tal como Megyn, pretende combater o assédio e comportamento machista perpetuado pela emissora, contestando-a e confrontando-a, através de uma acção judicial contra Ailes por chantagem, abuso de poder e assédio sexual, expondo, desta forma, a cultura machista, que objectifica e vulgariza o corpo feminino das jornalistas. Seguidamente, a última protagonista é apresentada com uma personalidade antagónica à das suas colegas, Gretchen e Megyn, ambas lutadoras activas pela causa da igualdade de géneros: Kayla Pospisil é uma jovem cristã evangélica, conservadora e republicana, que é também vítima de assédio. O seu maior desejo é ser promovida, o que acaba por suceder, através das múltiplas tentativas do seu chefe, Ailes, de chegar à intimidade com ela. É uma situação em que a mesma se vê incapacitada, inerte e passiva, chegando a sentir nojo e vergonha de si própria, ao submeter-se, de forma submissa, às sucessivas propostas por parte do seu chefe. Ao mesmo tempo, Kayla desenvolve uma relação amorosa com uma amiga e colega de trabalho da emissora, uma relação homossexual, que ironicamente, é desconfortável no universo ideológico em que se insere.

Apesar da negação inicial e críticas provenientes de muitos dos colegas de trabalho de Gretchen, com o decorrer dos eventos começa a surgir um movimento feminista com múltiplas denúncias meditáticas de vítimas. Megyn, que foi também alvo de assédio por de Ailes, inicia uma investigação para descobrir mais vítimas, jornalistas ainda em actividade e antigas jornalistas que trabalhavam na produtora. O movimento ganha cada vez mais adesão e testemunhas e a jornalista vem a público juntar-se à denúncia inicial de Gretchen, contando também com o testemunho, apoio e intervenção de Kayla, que acaba por se demitir da emissora. As três protagonistas, por fim, travam a mesma luta por direitos iguais, por igualdade de género no seu local de trabalho e contra o assédio sexual e abuso de poder. Ailes acaba por ser demitido, deixando de ser director da Fox, passando o cargo para Rupert Murdoch, accionista maioritário.

O filme é um autêntico e duro retrato da condição feminina e do universo laboral face à mulher, de todas as barreiras, opressões e abusos que ela se vê obrigada a enfrentar por parte do comportamento machista, e, sobretudo, uma denúncia ao assédio sexual, cada vez mais presente nos sectores profissionais na actualidade. O filme retrata a batalha que as protagonistas travaram, perante todos os julgamentos, críticas e prejuízo profissional que tiveram de enfrentar, tudo pela causa e reivindicação da igualdade de direitos e da igualdade de género. O jornalismo, neste caso, é um agente activo de denúncia, de activismo, de poder e de autoridade, exercido mesmo pelos que tecnicamente não o possuem; ou seja, mulheres que denunciam o seu superior hierárquico, apesar de serem vistas como passivas no meio em que se inserem e percepcionadas como obedientes, manipuladas e reduzidas a um objecto sexual e inócuo, desprovido dos seus restantes predicados e qualidades. Esta realidade é especialmente retratada através da personagem de Kayla, repulsivamente submissa e impotente perante o seu chefe, podendo este caso específico adaptar-se certamente a inúmeras situações sociais e culturais fora da actividade laboral. Para além disso, encontramos diversas referências e críticas ao sistema capitalista, à ala política da direita e à personalidade de Trump.


Os filmes analisados são retratos de diferentes tipos de jornalismo: o jornalismo de causa, o jornalismo sensacionalista e o jornalismo como microclima de dinâmicas de poder. Retratam a profissão como actividade divulgadora de factos, tanto de forma ética ou de forma sensacionalista/falaciosa, apresentando um papel simultaneamente reflexivo, crítico, mesmo subjectivo e interpretativo, por parte não só do autor e produtor do conteúdo jornalístico como também do receptor. A mensagem do jornalista, veiculada invariavelmente através de uma forma, será sempre percepcionada de diversas maneiras, construindo-se assim um mundo de realidades distintas e subjectivas entre o conteúdo produzido e o conteúdo apreendido, um mundo em que todos temos de existir e negociar valores de verdade uns com os outros. Os filmes enquanto filmes revelam adicionalmente, como espelho do próprio jornalismo, um carácter que tanto é fantasioso, subjectivo e interpretativo relativamente ao ofício, como também mais técnico, metodológico, factual e objectivo. Desta forma, é conseguido o retrato complexo do jornalismo através de diferentes perspectivas, nunca descurando nem o carácter factual e objectivo, nem o carácter formal e subjectivo, ambos inerentes ao mesmo.