Sozinhos num futuro sem palavras, Márcia Marto

Texto de Márcia Marto. Revisão de João N. S. Almeida. Imagem:

Hoje em dia ninguém fica sozinho. Temos todos um medo enorme. Nem podemos sequer imaginar que tal coisa nos aconteça. Ah! e policiamos a solidão uns dos outros: não nos podem ver sozinhos no comboio, num banco de jardim, à espera da consulta, sem que estejamos constantemente a verificar o ecrã brilhante dos nossos telemóveis. Se não o fizermos, vão pensar que estamos sozinhos, que ninguém nos liga, que não temos notificações ou mensagens no Facebook, Instagram, WhatsApp, etc., etc., para nos entreter na dura espera. Sim, quando estamos sem fazer nada, é uma dura espera, uma espera dolorosa, pois somos obrigados a pensar, a olhar para dentro de nós, das nossas preocupações e deveres, a olhar para os nossos sentimentos e sensações, ou (pior) meter conversa com alguém. Que horror! O ecrã brilhante ajuda-nos, então, a estar sozinhos com alguma dignidade. É uma pena não haver outra solução para este problema tão futurístico…  Somos pessoas muito atarefadas quando estamos a mexer no telemóvel. 

Penso tudo isto enquanto viajo de comboio. O metro é tão rápido que não me dá tempo para pensar. O comboio é um belo sítio para observar pessoas. A natureza verdadeira das pessoas. A maneira como os pescoços se inclinam para baixo e assim ficam durante longos minutos; a luz azul nos rostos relaxados de quem sacia um vício. E lembro-me de Maria Judite de Carvalho e de uma das suas crónicas intitulada «História sem palavras». «Sinto-me no futuro. Não gosto». Eu penso que, tal como ela, para além de me sentir no futuro, vivo no futuro. Não decidi ainda se gosto ou não, mas, na maior parte do tempo, não gosto lá muito. 

A carruagem está quase vazia. Um casal de jovens ao fundo conversa num murmúrio quase imperceptível, uma velhota claramente incomodada com a luminosidade franze a testa enrugada e coloca a mão sobre a vista (para conseguir ver a paisagem, certamente) e há duas raparigas sentadas à minha frente que não tiram os olhos dos telemóveis. Um lugar quase vazio de pessoas e de sons. Ou será, antes, um não-lugar? Um espaço sem tempo, sem história, sem morada, sem identidade e transitório. Para o antropólogo francês Marc Augé, os comboios são isso mesmo: não-lugares por onde nós, viajantes anónimos, passamos, mas aos quais nunca pertencemos. Para além dos comboios, os supermercados, os metropolitanos e os aeroportos, por exemplo, são todos não-lugares onde praticamos mais um pouco a solidão. De estação em estação, o comboio continua e vamos flutuando pelo mapa.

Penso em começar a ler o livro que trouxe para combater a monotonia da viagem, mas ouço uma voz aguda e zangada que não me deixa começar a leitura. É uma das raparigas que, finalmente, levanta o pescoço e pousa o telemóvel no colo. Diz, irritada, que ficou sem bateria e que estas deveriam ser feitas para durar muito mais. A outra rapariga empresta-lhe rapidamente um carregador portátil (como se fosse questão de vida ou de morte) e concorda prontamente. É, de facto, uma coisa inadmissível estas baterias de hoje… Se houvesse uma solução melhor… Hoje em dia já há apps para tudo. Para dormir melhor, comer melhor, exercitar melhor, meditar melhor…. Deveria haver uma para fazer a bateria durar infinitamente. A outra rapariga concordou e riu, que ótima ideia aquela! Mas a conversa ficou por ali. O telemóvel já se restabelecera e ela podia, de novo, mergulhar na sua pequena bolha solitária e ignorar a amiga (e o mundo) à vontade. Que alívio!

Continuamos, então, a nossa viagem de não-lugar em não-lugar, em silêncio, flutuando pelo mapa em direcção ao futuro. Pessoas transitórias, em silêncio. Abro, por fim, o meu livro. Será que elas sabem que os livros não precisam de bateria e duram uma vida inteira?