Paul Ricoeur na Fratelli Tutti, Andreas Gonçalves Lind, SJ

Imagem: Fotografia de Paul Ricoeur (Fonte: Store norske leksikon)

Ensaio do Pe. Andreas Gonçalves Lind, SJ. Revisão de Miguel Ribeiro.

Na última encíclica do Papa Francisco, assinada no passado dia 3 de outubro em Assis, a fraternidade universal surge não propriamente como um ideal utópico que nos seria dado a desejar, mas mais precisamente como um modo de vida muito concreto. Poderíamos duvidar disso, caso o Papa não se tivesse inspirado na vida de pessoas reais que habitaram este mundo a partir de um sentimento de pertença que nos liga à terra, à criação, à humanidade, a Deus.

Ao deixar-se envolver pela ternura de um abraço capaz de o unir a um sultão muçulmano, o Poverello de Assis acolheu a fraternidade como modo de vida. Trata-se de uma “intensa experiência de Deus”, de um “caminho” muito concreto de conversão, que nos leva a sentir as outras pessoas como nossas irmãs. A vida de um Charles de Foucauld, ou até mesmo de um Mahatma Gandhi (cf. FT §286), testemunha essa transformação efetiva na vida de personagens da História real, que também é por nós habitada.

Para além dos santos que escolheram a concretude do amor como forma de vida, a alusão a Paul Ricœur na Fratelli tutti ajuda-nos a compreender até que ponto a caridade e a fraternidade universal podem constituir um caminho muito concreto e realista. De facto, apesar de nunca perder um pendor de teor utópico, a fraternidade que o Sumo Pontífice tenta promover manifesta-se num horizonte essencialmente realista. O pensamento de Ricœur surge como fundamento desse realismo. Vejamos como.

A relação entre o Magistério de Francisco e o pensamento de Ricœur espelha-se, sobretudo, na leitura que o Papa apresenta da parábola do bom Samaritano. No parágrafo 56 de Fratelli tutti, o Sumo Pontífice faz questão de transcrever integralmente o enredo de Lucas que serve de mote à sua Encíclica:

Levantou-se, então, um doutor da Lei e perguntou [a Jesus], para O experimentar: «Mestre, que hei de fazer para possuir a vida eterna?» Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?» O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.» Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.» Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?» Tomando a palavra, Jesus respondeu: «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar’. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele». Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo»” (Lc 10, 25-37).

A hermenêutica que o Papa desenvolve deste excerto lucano inspira-se num breve texto que Ricœur intitulou « O socius e o próximo ».[i] Trata-se de um artigo contido na extensa obra Histoire et Vérité, cuja publicação lhe valeu o Prix Hegel de 1985.[ii] Nessa medida, convém não perder do horizonte a procura do “sentido da história”, enquanto narrativa que se desenvolve a partir da vida de pessoas concretas como nós. De facto, a parábola do bom Samaritano surge, em Ricœur, no contexto de quem procura o “sentido cristão da história”. Por isso, « O socius e o próximo » deve ser interpretado em estreita articulação com o artigo que o precede em Histoire et Vérité. Trata-se do texto cujo título é: «O cristianismo e o sentido da história».[iii] É neste artigo que Ricœur considera explicitamente dois “níveis de leitura da história”: por um lado, a história “abstrata” das ciências sociais e, por outro, a história “concreta” dos indivíduos que compõem este mundo. Para Ricœur, o segundo nível de leitura, o mais real, é irredutível ao conhecimento objetivo de carácter científico.

Opondo-se, assim, ao marxismo-leninismo, que vigorava à época, e distanciando-se dos utilitarismos de teor liberal, ainda hoje influentes, Ricœur encontra o “sentido cristão da história” nos gestos dos “profetas de Israel” e nas palavras do Magnificat mariano. Deparamo-nos, dessa forma, com um sentido que permanece “escondido” para as abstrações de caráter científico que definem o trabalho tanto do historiador como do sociólogo. Apenas focados nos eventos que têm como protagonistas os “grandes” Homens da História (isto é, os fortes, os mais potentes de todos), os cientistas sociais não estão à altura de decifrar o “destino” que se revela na história contida na vida dos “pequenos”.

É precisamente este sentido escondido da história dos pequenos que se revela na parábola do bom Samaritano. O gesto de quem se aproxima efetivamente de um homem caído ao longo do caminho realiza o que Jesus exige no final dos tempos: “o que fizestes a um dos meus irmãos mais pequenos, a mim mesmo o fizeste” (Mt 25, 40). Enquanto a parábola do bom Samaritano narra, no Evangelho segundo Lucas, o gesto concreto de quem se faz próximo no presente da sua vida (cf. Lc 10, 25-37), na versão de Mateus (cf. Mt 25, 31-40), os conselhos evangélicos ligam a imediatez desse gesto à escatologia do final dos tempos. “Quando chegar o Filho do Homem na sua glória, acompanhado dos seus anjos, ele vai separar os homens uns dos outros” (Mt 25, 31). “Escondido”para as ciências históricas e sociológicas, o sentido da história consiste numa real aproximação, capaz de olhar para a face do próximo e de atender às suas necessidades atuais. “Eu tive fome e me destes de comer; eu tive sede e me destes de beber” (Mt 25, 35). Trata-se do amor testemunhado por homens e mulheres de rosto concreto, quais personagens da narrativa onde também a nossa vida se insere.

Compreende-se, assim, a oposição entre aquilo que Ricœur nomeia “o mundo do socius” e a experiência de um amor que se traduz em gestos de proximidade. Trata-se da distância que separa inexoravelmente a “teologia da caridade” da “sociologia das relações humanas”. A figura do doutor da Lei personifica essa radical separação entre o socius e o próximo. Pois, por vezes, essa distância caracteriza o mundo que habitamos ou, talvez, apenas a nossa forma de o viver. Enquanto esse fariseu, querendo “possuir a vida eterna”, coloca a questão de saber quem seria o seu próximo ao nível teórico da definição sociológica, Jesus desce ao concreto de uma trama narrativa onde a proximidade se manifesta como experiência e opção de vida. Ao contrário do levita e do sacerdote, que se fecham no seu estatuto social e no seu próprio caminho, o samaritano não hesita em alterar o percurso que havia projetado: aproxima-se efetivamente, e em detrimento dos seus próprios interesses, daquele pobre estrangeiro que não pertencia ao seu grupo social, nem professava a mesma religião. Estamos perante um “paradigma de ação”, ou não fosse claro o mandato com que Jesus conclui o enredo: “Vai e faz o mesmo” (Lc 10, 37). Para Jesus, a vida eterna não se possui. Trata-se, antes, de uma prática, de uma experiência, de uma narrativa, decidida no agora do meu presente, que me conduz ao destino escatológico final.  Não se tem a vida eterna como se de algo distante ou diferente de mim se tratasse; ou vive-se amor ou, então, ele não existe.Nesse sentido, a ciência sociológica, a organização social e os princípios racionais abstratos que gerem as nossas instituições podem opôr-se à proximidade efetiva que o amor narrado pela boca de Jesus exige.

Em primeiro lugar, o Papa inspira-se no “pensamento de Paul Ricœur” quando considera esta ameaça de nos fecharmos apenas nas categorias e nos princípios de um “mundo [exclusivamente] do socius”. Capaz de esquecer a caridade concreta que olha para o rosto do outro, essa pura “sociologia das relações humanas” impede-nos de nos aproximarmos dele para o amar em gestos de ternura e de o aceitar enquanto outro, diferente de mim, numa relação gratuita que ama para além dos próprios interesses e da própria identidade. É nesse sentido que Francisco questiona: “como pode [a parábola do bom Samaritano] impressionar pessoas que tendem a organizar-se de maneira a impedir qualquer presença estranha que possa turbar [a sua própria] identidade e esta organização autodefensiva e autorreferencial? Neste esquema, fica excluída a possibilidade de fazer-se próximo, sendo possível apenas ser próximo de quem me permite consolidar os benefícios pessoais. Assim o termo «próximo» perde todo o significado, fazendo sentido apenas a palavra «sócio»” (FT §102).

Em segundo lugar, o Papa integra na sua análise o momento em que Ricœur procura uma possível e desejável reconciliação entre o “mundo do socius” e a “teologia da caridade”. Com efeito, para o filósofo protestante, a “relação pessoal ao próximo” pode e deve passar “pela relação ao socius”. E é assim que se pratica de forma autêntica o amor cristão.

De facto, apesar do Samaritano privilegiar, pelo menos num primeiro momento, a “via curta” da relação pessoal, é verdade que a “via longa” da instituição também se faz presente no enredo de Lucas. Se, por um lado, o Samaritano se aproxima para cuidar daquele homem que estava ali caído quase morto, tocando nas suas feridas com as mãos que levam azeite e vinho, por outro, sente necessidade de o deixar numa estalagem. É ali que se encontra uma instituição dotada dos meios necessários para um cuidado eficaz e duradouro. Compreendemos, assim, que o Papa mencione Ricœur, ao afirmar que “a caridade reúne as duas dimensões – a mítica e a institucional –, pois implica um caminho eficaz de transformação da história que exige incorporar tudo: instituições, direito, técnica, experiência, contribuições profissionais, análise científica, procedimentos administrativos” (FT §164).

A mediação da instituição e dos seus princípios racionais abstratos são fundamentais, na medida em que, através deles, o exercício da caridade não se reduz a um sentimentalismo utópico e pouco eficaz que pode ameaçar certas conceções (distorcidas) do Evangelho. Além disso, exige-se que os princípios próprios do funcionamento das instituições justas se referiram, como seu télos, ao bem efetivo de pessoas concretas.

Num dos extremos, está um assistencialismo de teor carismático que, ao recusar colaborar na solidificação de instituições justas, se fecha na “via curta” de uma relação pessoal à margem do mundo e da história. No outro, encontram-se ideologias, como o marxismo, capazes de subjugar o presente da vida dos diversos indivíduos em prol de um futuro a que se chegará após uma interminável “via longa”.  Ora, mesmo se fossemos capazes de eliminar todas as injustiças, saciar toda a fome e levantar, enfim, todos os homens caídos, seria sempre o amor concreto que poderia dar sentido à história deste mundo, às instituições que construímos e à nossa vida. Pois, se a comunhão imediata da “via curta” tende a desvanecer-se no tempo de uma vida, deter-se exclusivamente no horizonte da “via longa” situar-nos-ia numa história onde a experiência efetiva do amor seria prescindível e jamais teria lugar. É preciso, portanto, abandonar a exclusividade de qualquer uma destas vias, integrando ambas no exercício concreto do amor.

Documento fundamental do Magistério de Francisco, Fratelli tutti assume a leitura ricœuriana da parábola do bom Samaritano a fim de fazer da “fraternidade universal”, da “amizade social”, da caridade efetiva, um caminho concreto e possível. Mais do que uma utopia irrealizável e para além dos afetos e das emoções, o amor do Samaritano pode ser experienciado por nós, enquanto membros de instituições justas, que procuramos reformar e solidificar em conjunto.

Ainda por realizar, essa fraternidade pode começar a ser vivida no presente em que nos encontramos. Basta dispormo-nos a fazer da nossa vida uma narrativa semelhante ao enredo que torna bom aquele Samaritano. Se o rosto concreto das pessoas de quem nos podemos aproximar constitui o princípio e o fim desse caminho, para que esse amor perdure, a mediação das instituições justas surge no horizonte como parte indispensável deste percurso que nos leva a amar melhor e cada vez mais. Pois, afinal, “o amor ao próximo é realista, e não desperdiça nada que seja necessário para uma transformação da história” (FT §165).


[i] Cf. Paul Ricœur, “O socius e o próximo”, in História e Verdade, trad. F. A. Ribeiro (Companhia Editora Forense: Rio de Janeiro, 1968), p. 99-111.

[ii] Cf. François Dosse, Paul Ricœur. Les sens d’une vie (Paris : La Découverte & Syros, 2001), p. 565.

[iii] Cf. Paul Ricœur, “O cristianismo e o sentido da história”, in História e Verdade, trad. F. A. Ribeiro (Companhia Editora Forense: Rio de Janeiro, 1968), p. 81-98.