Uma chuva que partiu, José Maria Pinheiro de Souza Neto

Prosa poética de José Maria Pinheiro de Souza Neto

Cansados, finalmente deitei sobre teu ventre. Bela e formosa vida frutífera. São os descuidos das beiras que sobram, é tanto amor que me indicas, eu inculto, eu num invólucro que toma minha cegueira.

Assim caminhamos pelos desafios, eu destemido e tu minha amiga, que chama, sem deixar-me pular da montanha. E os dias seguem nesse novo romance, essa minha voz cacofónica: pedaços de pedras que na caverna ecoam. Tacteando miragens e sonhos, que nunca chegam, que nunca me tocam, que nunca me matam, nem sede, nem desesperança. É a hora mais escura que me torna íntimo de mim e de ti.

Assim juntos num ato de nulidade. Eu acordo e volto a dormir, numa rotina suja e trabalhosa. Porque não sei se reside nalgum sítio a enganosa e promíscua, tua filha, tua mãe, ou tua irmã felicidade. Ah feliz, aqueles que alcançam sempre que tentam com esforço a alegria, que se despede na névoa da noite.

Assim me engana jeitosa entre sal de prata. Plástico, celulose, sem trabalho. Queria carbono, liso tacto que transpira. Como eu, sal. As lágrimas que caem são chuva no canto das roseiras e florescem com o tempo que envelhece. E vivemos, muitas vidas, vivemos nesses ruídos e cacofonias. Para lembrarmos que padecem memórias como lilases.

São orquídeas as vidas banhadas de noite americana. Sonhos, alegrias de vindas assistidas e não vividas, porque os grilhões dos medos indicam, és permissiva vida frutífera. Deitei minha cabeça na tua criação, esperando que parisses ouro, alguma glória. Ganhei foi alegrias e decepções. Uma moeda que se repete desde que eu enlace à sorte, à minha côncava descoberta. Enterrada nas pedras do jardim, meu tesouro, minha caixa, que só abrirei no meu fim.

Não adianta como temeram os Titãs do Olimpo, mesmo tempo é o poder que destrona e ergue Zeus. Não teime como Pandora, criança, não chore pelas horas, enquanto banham as verdades e zoam-te as mentiras. Tu errarás, ou herdarás de graça. Deita e faz da vida tua moça, e as suas crianças tua história. Levanta e apanha o barco, ele sempre volta à terra e se te apanham os corsários, o tesouro só tu podes desenterrar. Então te acalma, e lembra dos disparates do teu despreparo e sossega na sofreguidão, na dificuldade dos amados gastos de longevidade.

Beija a vida esperando seus tapas, e aos poucos farás amor, e se tornarás nulo como pluma soprando pelos ares. Dançaremos árias ou cantatas no ritmo dos mares, numa maresia lenta, aconchegantemente preguiçosa sobre tua mista chegada.

Não quero escrever algo que vos traga, leitor, senão o desconsolo de saber que na vida o certo é amar não somente o bem, mas o bom. Tudo sobra, se aprenderes que o problema não é a vida, uma pobre menina tímida. Mas tu que acolhes as alegrias que parecem não dignas. Ora se pudéssemos ter o que é bom anunciado nos outdoors, posters e revistas. Só encontram os que procuram em insalubres livros carcomidos e não seguidos. Ergue-te para a vida e come teus frutos, sabendo que o vinho é a alegria e o pão é comida, vivos numa cruz. Ergue os braços e desce teus joelhos aos teus tropeiros tropeços. E perceberás que aqui é um caminho, enquanto matutas a morte, tudo já foi ressuscitado. Sem segredos ou entre segredos, suspiros e desejos caminhamos com nosso cajado. As bússolas quebradas e as estrelas negras, no céu poluído, no concreto duro, no vidro refractado dessa cidade, denúncia és tu tua própria próxima vítima.

Seguiram por Belém pela luz de um satélite que caía, cadente sorriso, como cometa que parte sem casa. E tu estás nesse monólogo, comigo, desejando voltar para um abrigo, tua infância roubada. Revoltoso. Calmo, resignado, e fraco um dia dormirás. Enfim, aproveita a força que dizes que terás! Num embalo de rede que te abraça numa viagem de barco perdes-te até seres lembrado que o buraco no fundo é líquido.

Prometo o último parágrafo, como gases que sobem ao céu, vapor. Uma chuva que partiu.

Lisboa , 1 de agosto de 2020

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