Um outro vírus que desconfina em tempos de pandemia, Raimundo Henriques

Imagem: (acima) Fotografia de um sinal de trânsito inglês em que alguém corrigiu a palavra errada “alternate” pela correcta, “alternative”. (abaixo) A Torre de Babel (1563), de Pieter Bruegel, o Velho (c. 1525-1569). Óleo em painel.

Texto de Raimundo Henriques

Consigo imaginar três tipos de pessoas dispostas a começar a ler este texto. As primeiras julgam que tecerei considerações sobre um outro vírus que desconfina em tempos de pandemia. As segundas pensam que existe a possibilidade de o título ser sarcástico. As terceiras não ajuízam acerca de um texto antes de o ler. Como este parágrafo permite antever, as primeiras estão terrivelmente enganadas. No que segue, tecerei algumas considerações, não sobre o que o título diz, mas sobre as três expressões nele combinadas, que têm em comum o facto de serem inexplicavelmente frequentes e muito irritantes.

A expressão mais irritante é ‘em tempos de…’ nas suas inúmeras variações. A versão mais irritante é, sem dúvida, “em tempos de COVID.” Esta é seguida por “em tempos de pandemia,” atrás da qual temos “em tempos de confinamento” e “em tempos de isolamento.” Tenho pensado no que torna esta expressão tão irritante, mas não consigo chegar a conclusões sólidas. Talvez o seja por sugerir a identificação de um intervalo bem delineado na história da humanidade, o que, por sua vez, sugere que se pode “olhar de cima” para essa história. As variações “em tempos de confinamento” e “em tempos de isolamento” não revelam ambições metafísicas latentes—e irritam menos—mas poderiam facilmente ser substituídas por “quando estava em casa” ou “não estando com ninguém.”

A segunda expressão é um caso particular de um conjunto mais vasto: o uso do verbo ‘desconfinar.’  Há seis meses este verbo estava sujeito ao mais vil confinamento. Subitamente, virou moda. Mais uma vez, é útil relembrar que se pode simplesmente sair de casa e combinar coisas com amigos, sem que seja necessário utilizar um verbo especial. O que irrita é, contudo, que o verbo tenha passado a ser utilizado de modo intransitivo. Aparentemente, em tempos de COVID, a pessoa confina‑se de tal forma que quando sai de casa deixa lá o ego. Ou nos desconfinamos agora, ou aceitamos que, em Março, não nos confinámos e nos limitámos a confinar. Esperemos que os restantes verbos transitivos (e, em particular, os reflexivos) mantenham as suas propriedades sintáticas.

A terceira expressão irritante é ‘um outro vírus…’ e pertence a uma família de expressões—entre as quais se incluem ‘uma outra doença’ e (a mais drástica) ‘outra pandemia’—caracterizada pela comparação de um certo fenómeno com a pandemia de COVID-19. É a forma mais actual de “what‑aboutism” e pretende chamar a atenção para outra coisa qualquer. A comparação é desnecessária, mas, aparentemente, muito apetecível. Tudo ganha outra cor quando esta expressão é usada por quem critica os hábitos irritantes desenvolvidos nos últimos meses. Por exemplo, alguém pode querer falar sobre “o vírus das expressões irritantes.” Tudo passou a ser um vírus e os vírus chegam até a ser virais.

São estas as criaturas mais estranhas do meu bestiário. Haverá mais e algo me diz que, à medida que o tempo for passando, alguns destes fantásticos seres se metamorfosearão (ou talvez metamorfoseiem simplesmente), tornando‑se ainda mais grotescos. Qualquer esforço de contenção da bicharada é inútil. É normal querer falar‑se das mudanças a que as nossas vidas foram sujeitas e é inevitável que novas—e bizarras—formas de o fazer vão aparecendo.

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