Ser professor em tempos de coronavírus (Testemunho de uma filha), Ana Sofia Souto

Texto de Ana Sofia Souto

A forma como vivemos as nossas vidas mudou radicalmente a partir de meados de março, quando fomos confrontados com a realidade do COVID-19. Depois de se ter disseminado noutros países, o COVID-19 chegou a Portugal, como uma má semente que se instala em terreno fértil. Os nossos amigos, colegas, vizinhos e famílias, tornaram-se potenciais ameaças, quiçá portadores do vírus, mesmo sem o saberem.

Onde está o vírus? Estará já dentro de nós? Estaremos a colocar em risco os que amamos? – Estas tornaram-se algumas das questões recorrentes de mentes até aí pouco habituadas a situações deste tipo.
O pânico social rapidamente se instalou – Dói-me a garganta, estarei infetado? Tenho tosse, estarei condenado? Da próxima vez que for ao supermercado, devo comprar quanta comida? – foram algumas das perguntas feitas por quase todos nós em algum momento. Todas as outras preocupações e problemas parecem agora pequenos e mesmo impróprios perante a palavra que está em todos os cantos, todas as bocas, destruindo os sorrisos e escurecendo os olhares – coronavírus. Para onde quer que olhemos – coronavírus; tudo o que ouvimos é, uma e outra vez – coronavírus, como se o nosso mundo se tivesse reduzido a uma única realidade e um único temor. Relegados às nossas casas sem certezas de quando ou como sairemos das mesmas, assistimos gélidos às reportagens da televisão ou lemos, apavorados, as notícias dos jornais, enquanto vemos povos irmãos sucumbirem, dia após dia, às mãos deste vírus pouco conhecedor de misericórdia. Perdemos a paz enquanto assistimos ao modo como as nossas formas de socialidade, assim como as nossas vidas profissionais, se alteram de maneira radical, numa espiral descontrolada onde parece que nada se salvará. O teletrabalho e a televenda ganham terreno a olhos vistos.

Ensinar, uma tarefa que até à vinda do COVID-19 pressupunha uma certa proximidade e mesmo afetividade, passou a ser realizado à distância, por intermédio de um genérico ecrã de computador. O relato que vos apresento parte das minhas experiências enquanto filha de alguém que dedicou, até à data, mais de trinta anos da sua vida ao ensino secundário. Assisto enquanto a minha mãe se multiplica e reparte numa torrente imparável e incansável de solicitações e tarefas. Sejamos honestos – ser professor em tempos normais já constitui uma tarefa árdua – horas intermináveis a preparar aulas, a fazer fichas, a corrigir fichas, a fazer testes, a corrigir testes, a escrever e a responder a e-mails, a fazer relatórios e a ler relatórios… Esse trabalho constante foi, todavia, duplicado, desde o fecho das escolas, podendo o esforço dos professores ser comparado ao de Hércules. Por um lado, é indispensável estar atento e cumprir as orientações da Direção da Escola, que não cessam de aparecer, noite e dia, incluindo aos fins de semana. Por outro, é necessário responder às inquietações dos Encarregados de Educação e dos alunos, apanhados desprevenidos por esta situação. Em terceiro lugar, têm de se reajustar as planificações, criar novos materiais e novas estratégias de ensino, entre outras atividades. Finalmente, exigem-se competências no domínio informático de plataformas até aqui pouco utilizadas e quase desconhecidas, quer pelos professores, quer pelos alunos (como os agora já familiares e, até, companheiros fiéis neste tempo de confinamento – Google Classroom, Google Meet, Zoom, Microsoft Teams, etc.).

No início, todos – professores, alunos e famílias – não podiam imaginar a carga de trabalho que lhes cairia em cima. Todavia, rapidamente se aperceberam que se trata de uma enorme responsabilidade ter de trabalhar e aprender à distância – uma luta constante para não hipotecar e não comprometer o futuro. Tanto os alunos como os professores têm vindo a responder às novas exigências que têm sido apresentadas. Os alunos parecem ter tomado consciência de quão importante é a Escola e o respeito que se deve ter por esta; e o quão importante é estar atento, ser ativo, tomar responsabilidade no processo de aprendizagem, para que, no meio de todo o caos e de toda a luta, possam ter ainda alguma esperança no progresso que a educação permite. Por seu lado, também os professores verificaram que são capazes de responder ao desafio, e reinventaram-se, utilizando as novas tecnologias, ainda que muitas vezes recorram à ajuda dos seus próprios filhos, o que estreita os laços intergeracionais e desenvolve competências de empatia e de solidariedade. Em todas as famílias em que há crianças e adolescentes, voltou-se a aprender para melhor poder ensinar e acompanhar os trabalhos dos filhos, irmãos ou netos. Assim, no meio da tempestade, a Escola parece erguer-se na noite escura como uma instituição que ilumina, e as estruturas familiares sobrevivem e tornam-se ainda mais fortes.

Quando melhores tempos vierem, esperemos que os portugueses não esqueçam a importância de aprender e respeitar a escola e continuem a valorizá-la. Muito há ainda a estudar – como o COVID-19 deixa claro, por mais avançada que a ciência esteja, ainda está muito incipiente no que toca à prevenção e controlo de epidemias – mas só aprendendo se pode acreditar no progresso e no futuro. Com a colaboração, entreajuda e respeito de todos, expulsaremos a má semente do nosso terreno.

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