Sentir é estar distraído, Catarina Afonso

Texto de Catarina Afonso

Sou cristã acidental. Acidentalmente, como se tropeçasse de rompante numa pedra, dei por mim como um ser espiritual e religioso. Isto apanhou-me de surpresa, especialmente porque tive esta realização já com 20 anos feitos e numa visita a Sagres com os meus pais, durante o verão, numa capela que seria exatamente o que esperar de uma capela localizada mesmo à beira do mar. Era uma capela muito discreta, com as paredes brancas calcárias e pequenos símbolos religiosos pintados nelas. Eu reconheci naquele momento e naquela capela um sentimento que me remetia para um lar, para uma visão muito especial, que foi a de estar sentada na capela da aldeia transmontana em que nasceu o meu pai. As meninas com vestidos brancos e sandálias floridas, os homens de camisa e gel no cabelo, a minha tia a rir-se cautelosamente – porque parece mal rir na igreja, ensinou-me a minha avó desde sempre, que nos olhava com um ar de sentinela – uma procissão que era também um desfile de costumes, os burburinhos, o sino que se ouve no fundo e as pétalas a caírem das janelas. No final, é religioso brindar com cálices de licor e finos (e também muito pouco religioso).  E é todo este ritual que me faz a mim ser religiosa. É, para mim, tudo isto que ao longo do tempo se tornou sagrado, que despoleta em mim um profundo sentimento espiritual.

Tenho uma tendência para criar referências do que para mim é um lar em todos os sítios para onde vou. Faço deles meus próprios, como se estivesse sempre lá um pedacinho de mim. Faço isto sempre de forma distraída, desde que me lembro. Sem ter perceção disso, crio imagens e tiro impressões dos sítios por onde passo e depois recordo-os nostalgicamente pintados das cores que eu própria crio, recolho de outros lugares e misturo tudo numa tela infinita.

Ao longo do tempo fui manchando esta tela, porque eu própria me tornei doutras cores. As quatro paredes que delimitam o meu quarto deixaram de ser um espaço que eu coloria da forma que queria, que estavam apenas limitadas ao espaço da minha imaginação. Estas quatro paredes foram ficando mais e mais apertadas à medida que os anos foram passando e o exercício da imaginação deu espaço a medos e angústias. Acabou por ser inconcebível para mim que o tempo passado com os meus pensamentos fosse unicamente imaginativo e encantado, dispor de tempo dedicado à introspeção passou a implicar alguma ansiedade e tristeza.

Crescer vem preso a esta racionalização e perceção que ganhamos do mundo que nos rodeia. Mas algo que sempre me perturbou sobre este processo todo foi a pressão para direcionar a minha atenção para coisas que considero, ao fim ao cabo, distrações. Cheguei a convencer-me de que tinha, como objetivo final idealizado para mim, atingir sucesso e até ser muito rica, seja lá o que isso signifique. Cheguei a querer teorizar muitas vezes o que eu sinto, ou mesmo a minha espiritualidade, que foi, até, por mim, reprimida. Sei olhar criticamente tudo à minha volta. O festival que é a procissão da aldeia, que é um desfile de vaidades; a crença cega da minha avó; a facilidade com que cai no esquecimento o caráter religioso da festa. Esqueço-me, prontamente, da minha pequenez no meio disto tudo.

Mas naquele momento, naquela capela em Sagres, assolou-me essa pequenez. Percebi que toda a problematização que faço na minha cabeça diariamente me distrai das poucas coisas que importam na vida. Que a profundidade verdadeira das coisas não reside nas mais complexas teorias sobre todas as distrações com que lidamos diariamente, mas nos momentos em que estamos distraídos. Distraídos de todas as distrações. Desprendidos de todo o peso que é todo o conhecimento que carregamos diariamente. A sensação que me remeteu para casa, para a aldeia, para um lar, para o verão, revelou-se mais marcante que diversas outras. «Sentir é estar distraído».

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