Editorial da Edição N.º 82

Imagem: O Homem de Vitrúvio (c. 1485/90), desenho de Leonardo Da Vinci (1452-1519)

Após um silêncio de cerca de um ano, causado por problemas técnicos e outros contratempos, período durante o qual um número significativo dos nossos colaboradores foram, por razões variadas, deixando o jornal, Os Fazedores de Letras vêm agora publicar uma nova edição. Esta edição é mais um passo na direcção do jornal que queremos ser, um órgão de comunicação desinibido e comprometido com a produção de escrita e informação de qualidade. Os Fazedores não são uma brincadeira de salão, nem um panfleto político monocórdico nem, devemos acrescentar, um sítio onde se publica aquilo que não serve para ser publicado em mais lado nenhum. Somos um jornal estudantil de uma Faculdade de Humanidades, que visa ter ser uma mais-valia no seio da comunidade académica e fazer-se ouvir além das portas da academia, levando o que se faz cá dentro até à comunidade geral a que nos orgulhamos de pertencer e, também, trazer o que acontece lá fora à atenção dos membros desta Escola e desta Universidade.

Uma das maneiras pelas quais podemos servir a comunidade em que nos increvemos é, precisamente, partilhando escrita e arte de qualidade. Nesse sentido, como já era nossa política, privilegiamos e procuramos alimentar o mérito intelectual e artístico, assegurando um cuidadoso processo de selecção e revisão de textos. Além disso, decidimos estender o leque dos nossos colaboradores e, consequentemente dos tópicos cobertos e dos leitores ulteriores visados. Para esse efeito, fomos ao encontro de várias pessoas que sabemos terem ideias interessantes sobre temas da maior relevância e interesse e convidámo-las a escrever para nós, independentemente de serem alunos, professores ou pessoas não pertencentes à academia. Aliás, uma das nossas funções é promover a sinfonia das vozes e o diálogo entre esferas etárias e profissionais diferentes e ser um veículo de “união na diferença” e na partilha de um mesmo espaço e de preocupações em torno de temas comuns. Assim, o leitor encontrará, ao longo dos próximos meses, vários nomes de professores desta e de outras faculdades entre os nossos colaboradores. Entre esses contam-se (mas não são os únicos) o Prof. Doutor Pedro Zuzarte, psiquiatra e Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, e a Prof.ª Doutora Maria Leonor Xavier, Professora de Filosofia Medieval da nossa Faculdade.

Quanto a colaboradores novos, além dos inúmeros alunos que agora começaram ou vão começar a colaborar directamente connosco, salientamos duas outras espécies de colaboradores. Uma dessas “espécies” são os colaboradores internacionais e de outras universidades nacionais. Vivendo a Faculdade da troca de experiências e saberes cumulativos e estando esta a embarcar num processo de internacionalização e valorização lá fora do trabalho que aqui é feito, achamos que faz todo o sentido o jornal dos estudantes também fomentar a troca de experiências e a auscultação de vozes de outras universidades, sejam estas de onde forem. Assim, previsivelmente, os nossos colaboradores internacionais antigos, como o Theo Howe, da Universidade de Cambridge, que colabora connosco desde o nº 79, regressam e somam-se-lhes outros. O nosso próprio mestre de informática é o Mikhail Titarenko, Mestre em Informática pela Universidade de Donetsk, na Ucrânia. (Este ponto lembra uma outra observação que fazemos mais abaixo). Outra novidade positiva são os vários colaboradores que fomos buscar a ordens religiosas. Ora, sendo esta uma universidade de Artes e Humanidades, devemos aqui salientar uma coisa que não é de todo ignorada em Letras mas que vale sempre a pena salientar e que é o facto de, desde o séc. XIII, as ordens religiosas, sobretudo as ordens mendicantes dos Franciscanos e Dominicanos, terem tido um papel absolutamente fundamental na formação da cultura universitária e no ensino que nas universidades veio sendo ministrado. Cá entre nós, na FLUL, basta lembrar o exemplo do venerável Pe. Cerqueira Gonçalves, OFM, que cá ensinou até à sua reforma, no Departamento de Filosofia, tendo sido professor de muitos dos que são hoje nossos professores. Consideramos ser este elemento cristão mendicante um elemento muito benéfico que dará, decerto, muitos e bons frutos. Aproveitamos, por isso, para dar as boas-vindas a todos os nossos novos colaboradores de todas as proveniências e mais algumas, tendo sempre em vista a diversidade de pontos de vista de que o jornal pretende padecer. Não obstante a factual preponderância da religião cristã na cultura universitária já mencionada, acreditamos ainda que o bom jornalismo tem uma obrigação para com a pluralidade cultural e religiosa presente no Mundo em que vivemos, cedendo assim a oportunidade a todos os leitores de entrar em contacto de forma imparcial e justa com realidades distintas.

A próxima nota que temos a salientar é a reiteração, na página escrita, de um anúncio que não é de todo novo. Como muitos dos que assistiram à Reunião Geral de Alunos de 9 de Maio de 2019 se lembrarão, a nossa Associação de Estudantes estava, em finais do ano lectivo passado, em risco de ser obrigada a fechar portas. Assim, a Associação de Estudantes aconselhou a Direcção d’ Os Fazedores de Letras  (DOFL) a que enviasse uma carta formal desvinculando o jornal da AE, para este não ser obrigado a fechar portas juntamente com a AE. Isso foi atempadamente feito por parte da DOFL (cuja composição se alterou entretanto), em Junho-Julho. A Associação de Estudantes acabou por não fechar portas, mas, tendo a carta de desvinculação sido enviada, recebida e aceite pela AE, Os Fazedores de Letras consideram-se formal e definitivamente desvinculados da Associação de Estudantes, apesar de ainda estarmos, em conjunto com mesma Associação de Estudantes, a tentar clarificar as implicações legais e financeiras desta mudança. Esta desvinculação pode parecer desfavorável a algumas pessoas, mas é, de facto muito positiva. Por um lado, abre-nos a porta a uma salutar colaboração em igualdade de circunstâncias e não de subordinação; por outro lado, dá aos Fazedores mais liberdade para procurarem autonomamente apoios institucionais e financeiros, o que, aliás, já nos vinha sendo recomendado pela AE desde que um nova DOFL foi eleita a 23 de Março de 2018. Além disso, dá maior credibilidade à posição d’ Os Fazedores na medida em que nos alivia de pressões e interesses partidários. De facto, Os Fazedores não são, não podem e não devem ser um folhetim de um partido político. Não somos, como se disse, um panfleto partidário. Somos e seremos e orgulhamo-nos de ser um jornal independente, plural e idóneo que visa ser construtivo no seio da comunidade académica e da comunidade civil a que pertencemos com gosto.

Queremos ainda salientar que compreendemos bem as obrigações que um órgão de comunicação independente e, ainda assim, vinculado à comunidade particular da Faculdade de Letras, tem para com a sociedade em que se insere. Um desses deveres é o de ser uma voz interventiva e construtiva na sociedade. Tal está inscrito na história deste jornal de modo indelével. Lembremo-nos que, quando foi fundado, em 1993, e durante uma parte dos anos que se seguiram, Os Fazedores de Letras adoptaram para si a causa da independência de Timor, pela qual lutaram desassombradamente. Desde 1999-2002, anos em que decorreu o processo de formalização e reconhecimento da independência de Timor-Leste, pode-se dizer que Os Fazedores “ficaram sem causas”. Tal não é completamente verdade, uma vez que continuámos a ter a causa do melhoramento do Ensino Superior em Portugal, mas na prática ficámos sem causas internacionais. Ora, a comunidade de alunos da FLUL é maioritariamente composta por jovens, jovens que têm o amanhã nas mãos e, em muitos casos, vontade de lutar pelo futuro, seja pelo reconhecimento da emergência climática (do que o nosso colaborador e amigo Pedro Franco é um ardente activista) seja pelo apoio aos refugiados e aos países em desenvolvimento. É importante que, após um exame da nossa consciência e das situações, possamos lutar pelas causas em que nos revemos. Dito isto, não é possível substituir a consciência individual de cada um, mas as instituições devem também ter valores e causas e, assim, após discussão entre nós, decidimos adoptar para o jornal quatro causas de inegável importância socio-política. A primeira dessas causas é a do o reconhecimento, pelo Estado Português mas, também, por outros países que ainda não o fizeram, do Genocídio Arménio de 1915-1923; a segunda, a da libertação e reconhecimento da independência do Tibete  pela potência mundial que desde os anos 50 o tem ocupado, a China; uma terceira causa que procuraremos defender tem a ver com a resolução das tensões que remontam ao tempo da Guerra Fria. Procuraremos, assim, estimular o diálogo com intelectuais e artistas da Europa de Leste e da Rússia. Finalmente, uma última causa tem a ver com a defesa da dignidade da pessoa humana e dos direitos humanos, sobretudo em países em que se observa um notório desrespeito pelos mesmos, designadamente no que concerne ao tratamento de minorias étnicas, religiosas, culturais, da comunidade LGBTQ+ e de dissidentes políticos e activistas, nomeadamente, caso que é especialmente preocupante, na China. Estas quatro escolhas explicam-se de modo relativamente breve e sucinto, mas preferimos fazê-lo num artigo à parte, para não alongar desnecessariamente este editorial.

Resta-nos salientar as nossas causas linguísticas e práticas: assim como somos a favor da revogação da TLEBS no Ensino Básico e Secundário, defendemos a adopção e adoptamos a antiga ortografia, ou seja, a norma ortográfica anterior à implementação do Acordo Ortográfico de 1990.

            A Equipa da Direcção

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