Diogneto: a alma do mundo, Isidro Lamelas, OFM

Imagem: Martírio de São Sebastião (c. 1536-38), do pintor português Gregório Lopes (c. 1490-1550)

Texto do Professor Doutor Padre Isidro Lamelas, OFM

Recuemos ao distante ano de 1436. O jovem clérigo latino, Tomás de Arezzo, encontrava-se em Constantinopla para estudar grego. Numa sexta feira de quaresma, cumprindo a regra da abstinência, deslocou-se ao mercado do peixe para comprar a sua refeição. Ao regressar a casa, prendem a sua atenção os insólitos “papeis” que serviam para embrulhar o peixe. Graças aos seus conhecimentos de grego, depressa percebeu que se tratava de folhas escritas naquela língua, com uma grossa tinta negra, e as iniciais em vermelho vivo. Advertiu ainda que eram manuscritos antigos e, portanto, com um valor que, para já, o jovem italiano nem sonhava. Com o coração a palpitar de emoção, esqueceu o almoço desse dia para correr ao mesmo mercado, na esperança de encontrar outros “papeis de embrulho” como aqueles.

– Senhora, por favor, não terá por aí mais papel como este com que embrulhou o peixe que lhe comprei?

– Penso que sim. Há muito que tenho comigo este monte de folhas velhas que já não servem senão para acender o lume ou embrulhar mercadoria. Aqui está!

– Será que mas poderia vender?

– Claro que sim, meu rapaz. Para que quer você estas velharias?

– Gosto de coisas antigas, minha senhora.

Por pouco dinheiro, o jovem estudioso comprou 260 páginas (fólios), num estado de conservação razoável, dadas as circunstâncias em que foram encontradas. Regressado a casa, põe-se a decifrar o documento: não havia dúvidas, tinha em mãos um verdadeiro tesouro, em que se reuniam 22 escritos de autores cristãos antiquíssimos, provenientes de diferentes períodos e mãos: textos de S. Justino, Cirilo de Alexandria, Atanásio… e um escrito anónimo dirigido Ad Diognetum. O extraordinário achado valia sobretudo por este último documento assim “pescado” miraculosamente num manuscrito que era e continuará a ser o único testemunho do documento que hoje é considerado um verdadeiro tesouro da literatura e cultura cristãs.

Entretanto, o sonho de Tomás não é o da erudição. Movido antes pelo ideal do martírio, juntou-se a três franciscanos missionários a fim de os seguir para terras dos “infiéis”. O seu importante achado foi parar às mãos de um ilustre colecionador de Manuscritos, o cardeal Giovanni Stojkovic de Ragusa, que se encontra em Constantinopla como legado do Concílio Ecuménico de Basileia. Este prelado, por sua vez, acabou por legar todo o seu espólio aos Dominicanos e Cartuchos de Basileia. Entretanto o humanista João de Reuchlin de Pforzheim adquiriu o manuscrito que, entrou na biblioteca da abadia de Marmoutier (Alsácia), em 1560. Daqui, em 1795, transitará para Biblioteca Municipal de Estrasburgo, onde foi destruído, em 24 de Agosto de 1870, num violento incêndio durante a guerra franco-prussiana. Felizmente, já se tinham feito numerosas cópias deste precioso códice que nos deu a conhecer uma das pérolas da literatura paleocristã.

Assim chegou até nós o texto anónimo conhecido por Carta a Diogneto. Mais do que uma carta é um discurso apologético composto provavelmente em Alexandria, no final do século II, uma verdadeira “joia da literatura” cristã que inspirou alguns dos mais importantes documentos do Concílio Vaticano II (cf. Dei Verbum, 4, Ad Gentes 15, Lumen Gentium 15 e 38, Sacrosanctum ConciliumGaudium et Spes, 40).

O afamado texto começa assim: «Vejo, excelente Diogneto, o zelo que te move a instruir-te sobre a religião dos cristãos». Por onde ficamos logo a saber que é um cristão anónimo que se dispõe a responder a uma série de perguntas relevantes colocadas pelo seu amigo pagão, chamado Diogneto (significa gerado por Zeus).

Que perguntas são essas? As que muitos não cristãos de então faziam e, de certo modo, continuam à espera de resposta: Qual o Deus dos cristãos? Que tipo de culto lhe prestam? Qual a sua posição e atitude perante o mundo? Porque não temem a morte? Porque razão rejeitam os outros deuses? Que amor é esse de que falam e nutrem uns pelos outros? e, finalmente, porque motivo os cristãos e o seu modo de vida apareceu só agora ou tão tarde?  

Respondendo honestamente a tais perguntas o anónimo cristão oferece-nos o perfil identitário dos cristãos que, continuando a ser uma minoria perante as culturas fortes já consolidadas (greco-romana, judaica), estão num processo de definição e afirmação da identidade própria. Limitamo-nos a ler um dos seus capítulos mais citados:

“Os cristãos não se distinguem dos demais homens nem pela pátria, nem pela língua que falam, nem pelo modo de vestir.
Não moram em cidades que lhes sejam próprias, nem usam uma linguagem particular, nem levam um género de vida especial.
Sua doutrina não é conquista do génio irrequieto de homens curiosos, nem professam, como fazem alguns, uma doutrina humana.
Moram em cidades gregas ou bárbaras, conforme coube em sorte a cada um, adaptando-se aos costumes locais quanto às roupas, à alimentação e a tudo o mais da vida, manifestam um estilo próprio de vida [πολιτείας] admirável e verdadeiramente paradoxal [παράδοξον].
Moram em sua pátria, mas como estrangeiros residentes [πάροικοι].
Participam de todos os deveres, como cidadãos [πολϊται],
e tudo suportam como estrangeiros [ξένοι].
Toda a terra é para eles uma pátria e toda a pátria é terra estrangeira;
Casam-se como toda a gente e geram filhos, mas não os abandonam.
Põem em comum a mesa, mas não o leito;
Estão na carne, mas não vivem segundo a carne.
Moram na terra e são cidadãos do céu;
Obedecem às leis estabelecidas, e superam as leis com o seu modo de vida.
Amam todos e por todos são perseguidos.
São condenados porque desconhecidos; condenados à morte e ganham a vida.
Sendo pobres, enriquecem muitos; carecem de tudo, mas em tudo abundam.
São desprezados e neste desprezo encontram glória; caluniados, são justificados.
Quando insultados, abençoam; quando ultrajados são respeitosos.
Fazendo o bem, são castigados como malfeitores; punidos alegram-se como se recebessem a vida…
Numa palavra: os cristãos são a alma do mundo” (A Diogneto 5-6).

Cidadãos de uma nova pátria ou cidade (a nossa cidadania está nos Céus, ensinara S. Paulo  (Fil 3,20)), os cristãos vivem neste mundo uma cidadania paradoxal: em total compromisso com os seus semelhantes, não se distinguem pela cultura, costumes, modo de habitar; não se apartam nem formam guetos; não são uma escola filosófica ideológica nem “mais uma religião”. São, sim, uma humanidade “nova”, dita e anunciada num novo Lógos, que, sem negar o “homem velho” nem o lógos antigo, se distinguem pelo seu modo de vida paradoxal (parádoxon politéias), que supera todas as leis da pátria terrena. O mundo ganhou, com Cristo e seus seguidores uma nova alma.

Um século antes de Cristo, Cícero escrevia assim no De legibus:

«Eu tenho duas pátrias, uma de nascimento (Arpino) e outra por cidadania (Roma)… mas é necessário que esta última prevaleça nos nossos compromissos, razão pela qual o nome de república constitui o bem comum de toda a cidade. Por ela devemos morrer; a ela devemos dedicar-nos totalmente, nela devemos depor e de algum modo oferecer tudo o que nos pertence» (II,5).

Dois textos, dois conceitos de cidadania que, só aparentemente coincidem. Para o cidadão romano a sua verdadeira pátria é Roma e vive em função da respublica. Isto é, o indivíduo está em total segundo plano perante a prioridade dos seus compromissos de cidadão. Para o “cidadão do Céu”, a pessoa e coerência espiritual e ética com a Lei da cidade de Deus.   É isto que ajuda a compreender a razão pela qual o encontro entre o paganismo e o cristianismo assumiu, nos primeiros séculos, contornos tão dramáticos: «o drama da passagem do “homem cívico” ao “homem interior”» (P. Veyne, na Introdução à monumental História da vida privada, I, Porto 1989, 12).

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