Começar pelo fim, João Freitas Mendes

Imagem: Composição VIII, óleo sobre tela (1923), de Wassily Kandinsky (1866-1944)

Texto de João Freitas Mendes

Certo sábio disse-me um dia que as relações conceptuais entre a regra e a excepção não são lineares: uma regra pode ser excepcionada uma vez, pensava eu; ele disse-me que podem existir excepções de excepções.

O estado de normalidade tornou-se anormal, ultimamente. Do ponto de vista do sábio, a presente crise se trata de uma excepção; do meu ponto de vista linear, a excepção tomou o lugar da norma. Então a excepção é a nova normalidade. Precisamente porque o âmbito mais restritivo – no tempo, no espaço, nos sujeitos – que distingue a excepção apagou-se. A excepção tornou-se normal visto que a excepção se tornou banal, frequente, geral.

Avanço para uma tese marcadamente excepcional, notória em crises, efemérides, catástrofes, guerras, produzindo ou caracterizando estados emocionais de euforia ou depressão: “São precisos homens excepcionais para tempos excepcionais”.

Convivem, em torno do mito, duas espécies de fenómenos: a primeira, que os homens tomados publicamente como excepcionais são normalmente informados por um princípio de normalidade – condutas repetidas nas suas acções habituais; a segunda, que os imitadores ou falsificadores de excepções parecem idealizar essa excepcionalidade aparente.

A paridade circunstancial do bom e do mau: a excepção é um discurso sobre a norma, como tal, não se trata de ser excepcional em período de excepção, mas de ser normal em tempo de excepção. O ser no dever, o ser em dever.

A ética da excepção tem em si a sua solução clássica: cumprida a excepção, cumpre-se a norma. Isto é uma reflexão filosófica e poética. “Nunca foi tão depressa noite neste bairro/ nenhum outro porém senhor administrador goza de tão eficiente serviço de sol” escreveu Ruy Belo. No bairro onde há noite escura de repente, há também uma possibilidade enorme de sol. A utilidade da excepção para a norma: ao mesmo tempo que constitui a sua interrupção, ao mesmo tempo constitui o seu resgate. Isto é, a excepção salva a norma.

A poética da excepção tem um sentido urgente: salvar. A coragem da permanência é um exercício de abertura ao outro e, antes disso, de mobilização dos sentidos para a atenção do próprio. Proteger a humanidade debaixo do temporal é estimular a humanidade debaixo do temporal. A necessidade de uma filosofia perene, de uma teoria ética, de uma poética justa, não é um pedido urgente de tempos excepcionais. É uma necessidade normal da vida, que aprendendo-se seria tão natural como a tempestade.

O homem cria tempestades, o homem destrói tempestades, o homem habita no interior e no exterior do temporal. Que a natureza espelhe, de forma cáustica, a condição humana, não é um acaso poético nem um castigo divino, senão que é a ética da vida em esplendor terrível e magnífico.

II. O problema está em que a ética da excepção dentro da excepção não tem um sentido.  

A necessidade de respostas fáceis, breves e imediatas, vulgo pensos rápidos, não é um verso específico mas parece uma forma de actuar perante o sofrimento nas sociedades contemporâneas. O discurso bélico é um paradoxo: combate-se a dor criando outra dor, outra dor no outro, criando novas dores, novas dormências, novas linhas de fogo. Os loucos anos 20 foram da fuga e terão por isso originado pesadelos dos anos 30. Outros muros se alevantam hoje.

O fim e o início são expressões de sentido do caminho[1]. Começar pelo fim é assustador e tremendo; já do fim ao início é um passo seguro. É curioso que fins e princípios estejam todavia muito presentes na linguagem comum, mesmo se lhes não é dado o sentido de continuidade, de contiguidade que reclamam necessariamente.

A travessia é geralmente associada à viagem de barco. Talvez haja razões fortes para que a literatura se tenha ocupado da poética da viagem por mar: um barco é sustentado pela força de vários que remam, coordenadamente, para o mesmo lado. A pluralidade de forças assegura a unidade de destino.

O conhecimento da embarcação, o reconhecimento das margens, dos rios, dos oceanos, dos portos de abrigo, dos faróis, das estrelas e do céu, do medo esse Adamastor, das marés, dos perigos da noite e das alucinações do dia, é uma imagem sobre o real que reabilita o ideal. É uma poética intuitiva e justa, pelo que me apercebi ao longo do semestre, porque estivemos todos no mesmo barco. Agora, é da excepcionalidade para a normalidade. A repetição em períodos sucessivos de tempo de uma prática excepcional leva ao aperfeiçoamento dos instrumentos de navegação, mais do que isso permite que um achamento passe a descobrimento, dignifica a prática e enobrece-a.

O elogio da normalidade passa também por ali. Pelo investimento continuado de esforço no empreendimento, numa aprendizagem contínua – já que as primeiras remadas são as mais custosas – e pela repetição-crítica-alteração dos procedimentos. A descoberta da metodologia é uma experiência do método no domínio da prática: pela revisitação dos textos; pelo conhecimento teórico aplicado; pelo argumento analisado[2].

A viagem pelo mar é longa e as excepcionalidades do dia e da noite cosem-se na síntese da análise. Se a condição humana de excepção é frequente e incansável, torna-se normal nesse sujeito. Se o objecto é excepção muitas vezes aludida, torna-se o objecto normal. A crise é um objecto, é um sujeito, é um argumento: o mito e as suas circunferências desenham entornos à razão. Por pessoas maiores, a emoção é a libertação expressiva da razão teórica.

Da ilha a que se acedeu por barco chega uma lição: os heróis são os que estão presentes nas adversidades. Podem ser feios, brutos e maus, como Heitor, podem ter qualquer aparência ou procedência, desde que pratiquem actos justos. O objecto dos heróis será estar pela virtude.[3]

Ah, a realidade e os conceitos! Mais depressa se mudam uns que a outra. Ah, a existência e a estética! Ah, a poética e a ética! Se esta normalidade não convém, invente-se outra. Soluções fáceis ou soluções difíceis? Devagar, para ontem.


[1] “Fluxo e refluxo: se o homem só observasse uma vez o fenómeno destes dois movimentos, experimentaria dois receios: o medo de se afogar e o medo de morrer de sede. (1ªaula de Kandinsky na Bauhaus, 17 de Junho de 1925.)” W. Kandinsky, Curso da Bauhaus, p. 28-29, Edições 70, 1975.

[2] “A base de todo o ensino é a organização. A análise dos fenómenos complexos para descobrir os elementos originais. O objectivo do ensino – para além da transmissão de conhecimentos precisos – é o desenvolvimento da capacidade que o estudante possui de ordenar, e a análise e a síntese.” (resumo do programa de ensino, 27 de Setembro de 1926). Id., ib.

[3] “O texto, que em 1898, é publicado no jornal L’Aurore por Zola é o grande exemplo da intervenção intelectual. Clemenceau, responsável pelo jornal, vai qualificar este texto como manifesto dos intelectuais. Que define desde o princípio um intelectual? A coragem de dizer não.” (Eduardo Prado Coelho, O fio da modernidade, 2004, p. 32.)

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