Casa, corpo e cadeia – umas notas sobre o assunto, Fábio Duarte

Imagem: Tício (1632), de Jusepe de Ribera (1591-1652), da colecção do Museo del Prado. Fonte: Wikimedia Commons

Texto de Fábio Duarte

1. Dado o estado impreciso em que roda o mundo, ou a gente que nele se esconde, as conversas ao telefone e as notícias vêm todas desaguar na mesma poça. E a doença, tão habitualmente relegada, com o seu léxico, para os lugares onde se abrem e fecham os corpos, hospitais e cemitérios, cabeceiras de moribundos e camas de gente que calhou ficar no quarto desses tais moribundos, casas de velhos, atlas anatómicos e mesa de jantar dos médicos, invadiu o quotidiano com a sua numerologia e, agora, não há quem a tire de lá tão cedo. Poderia argumentar-se, para destruir já esta cantilena da mudança, que a doença sempre andou no paladar dos vizinhos do vai-se andando. Certo. Contudo, a melodia do achaque é um passo ainda distante, o quanto baste, da morte. É um anúncio, mas igualmente um aviso de que se está vivo, e estando-se vivo tem de se lidar com os revezes dessa vontade. Se de vontade se trata e não, apenas, de preguiça e sonambulismo.

Pois, talvez este seja um tempo novo. Alegrai-vos, ó irmãos, que isto pode ser um furo no tecido da história! Ou só uma passageira turbulência, não há quem nos garanta. Ninguém mandou, ainda, um batedor ver se a espécie se saiu bem, no futuro. Ainda assim, neste intervalo, entre o desespero e o tédio dos dias comuns, entre as valas comuns que se cavam e os queixumes dos aborrecidos, talvez possamos trocar umas ideias sobre estas palavras e suas novas matizes. Trago a vossas casas o tríptico Casa, Corpo e Cadeia. Alguém mais esclarecido poderia trazer outros nomes, eu transportei-os por inclinação poética, gosto dos jogos de som que podem traçar-se só de trautear estas palavras juntas. Igualmente, vejo que todas elas revelam uma plasticidade que aumenta o apetite de quem se presta a usá-las e abusá-las nos discursos públicos que se têm feito, ao longo destes meses[1].

Discursos estes que sabemos estarem cheios de imagens bélicas e de um gosto por evocar os mitos da identidade nacional. Se parte da retórica política inglesa acorre ao «espírito do Blitz», alguns discursos portugueses andam, e aqui usamos as palavras proferidas pelo Presidente da República, aquando da declaração do Estado de Emergência, pelo elogio das características de um povo «com a experiência de quem já viveu tudo, numa história de quase nove séculos»; ou pela repreensão dos que desprezam a quarentena, pondo em risco a «comunidade». Não falando da interminável litania dos acordes de fado, de imagens de praias e monumentos, de mensagens sobre a excepcionalidade da nação e seus nativos, e de canções que prometem que o final vai ser feliz.  Há quem veja o que passamos, ainda, como um dos muitos estertores da Terra, sacudindo, com sucesso, uma parcela dos seus parasitas. As comparações com a 2.ª Guerra Mundial têm-se multiplicado e, como em qualquer relato de guerra, o foco tem-se dividido entre a gesta dos heróis, a crónica da perfídia do vilão e a contagem dos mortos. Vilão que não tem sede de conquistas, nem plano, nem exigências, nem idiossincrasia. A não ser multiplicar-se, obrigação da funesta natureza, mostrando as crueldades inerentes ao milagre da multiplicação, se adoptado por um corpúsculo danado.

2. No poema «The Flood», Charles Tomlinson faz o itinerário de um dilúvio em confronto com a casa. O seu habitante, multiplicando-se em cuidados para a salvar da cheia, cava trincheiras, sela portas, põe os livros a salvo. Até que a casa cede e a água entra por todas as frinchas da parede. «That night diminished my trust in stone -/ As porous as a sponge. where once I’d seen/ The image of a constancy, a ground for the play/ And fluency of light.”[2], diz-nos o poema.

A casa, há muito vista como espaço primordial onde se desenrola a vida e a intimidade dos humanos, tantas vezes baluarte contra a vida social do exterior, revelou-se uma gaiola. Como o feixe das grades não é suficientemente espesso para impedir que se veja o pássaro, nem o espaço entre elas demasiado amplo para que o pássaro fuja, a casa mostrou-se, igualmente, permeável ao medo e ao pânico que lavram nos interiores de outras casas. E em todas elas entraram rituais estranhos: planeamos os dias em que saímos à rua, despimo-nos à porta de casa, com as persianas corridas, esfregamos a pele com sabão como se pressentíssemos um bicho invisível a escalar-nos as unhas.

Casa onde uns encenam a rotina, vestem-se e perfumam-se como se mais um dia de trabalho os esperasse; e onde outros, com os sonos trocados e os corpos desabituados da calmaria, se arrastam entre espaços.

3. O corpo é a casa e o grilhão a que estamos todos condenados. Nisso, não estamos sozinhos. É só passar de relance a vista por essas pobres arcas animais, caracol que acabas num pires de um barrigudo bem servido de cerveja, no Verão, ou tartaruga de jardim zoológico e da arquitectura dos aros dos óculos. Em última análise, não é sentença de todo o ser vivo estar limitado à forma que o azar, para ele, ditou? Por todos foram distribuídos o peso e a carne, não esquecendo o quinhão da morte.

Um corpo que se foi ocultando e domando ao longo dos tempos, cujos prazeres e dores, outrora de importância capital para quem decidia sobre a condenação ou a salvação das almas, se foram privatizando. Dos corpos dos súbditos e fiéis interligados numa ordem corporativa e divina, passou-se a um tempo (ainda hoje em construção) em que o corpo e as suas necessidades são encargo do indivíduo, o núcleo mais íntimo do que podemos apelidar de esfera privada.

Num estado de alerta permanente, em que a doença inunda as palavras e os gestos, os corpos dos cidadãos passam a ser matéria pública. Como se, neste intervalo, o Estado e a Nação voltassem a ser imaginados como um desmedido corpo, cuja saúde depende, exclusivamente, do bem-estar dos corpos dos cidadãos. As medidas de higiene a tomar são divulgadas por todos os meios, o recolhimento é aconselhado, o contacto é limitado. Os corpos que caem doentes são duplamente ocultados, não só por serem a materialização da doença e da morte, mas, igualmente, porque podem ser entendidos como símbolos de uma «derrota» da civilização contra a natureza (cá está a linguagem da guerra, outra vez).

4. Olho o quadro de John Singer Sargent intitulado Gassed, acabado em 1919, um friso grande que o rectângulo digital encolhe. Duas procissões de soldados vendados avançam entre fileiras de corpos caídos, no campo ocre que o sol-poente atravessa. Cada um deles se apoia no ombro do outro, sem saber quem é o seu predecessor e qual o destino que tomam. Há uma certa perversidade neste espectáculo de podermos olhar para onde vai este cortejo de cegos, como quando gente sã se põe a falar da doença e dos que dela sofrem.

E, mesmo assim, ficámos a saber, com a pandemia, que uma linha invisível pode ligar sãos e enfermos no mesmo limbo. Que traços aquáticos tão espontâneos e incontroláveis como os que geram os espirros e a fala podem ser suficientes para estabelecer uma cadeia de transmissão. Expressão nova na praça, esta, mais aguda que as «correntes do amor» de que se queixam sempre os poetas, tão disseminada e contagiosa que passou a integrar o nosso quotidiano falado. Um temor generalizado corre pelos corpos por não saberem se são, ou não, elos da corrente.  A língua e o sentido que damos às coisas mais banais vão sofrendo e denunciando esta trepidação, como procurei aqui mostrar. Ainda que, possivelmente, sem a ciência ou tenacidade necessárias para atacar o tema.


[1] Esta crónica inspira-se no tratamento dado ao assunto em Karen Russel, «How the Coronavirus has infected our vocabulary», The New Yorker (13 de Abril de 2020): https://www.newyorker.com/magazine/2020/04/13/a-temporary-moment-in-time

[2] Charles Tomlinson, Poemas, Selecção, nota introdutória e tradução de Gualter Cunha (Lisboa, Edições Cotovia, 1992), 38.

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