Porque escrevemos atrás das portas das casas de banho?, Ana Allen

«Se se usa um quadro como ilustração do pensamento – como aqueles que estão em todas as salas de aulas – também é possível usá-lo para expressar sentimentos, colocar questões íntimas ou partilhar ideias – e é mesmo disto que o ser humano é feito.»
Texto de Ana Allen

Fotografia original por Miguel Dias.
Crónica por Ana Allen.

Desde que comecei a trabalhar na minha dissertação de mestrado na biblioteca da nossa faculdade, as minhas pausas nunca mais foram as mesmas. Entrar na casa de banho feminina da biblioteca era o mesmo que ter um bilhete para o mundo íntimo de (outras) jovens adultas. Atrás das cinco portas, mensagens anónimas sobre os mais variados temas – desde debates sobre propinas ou sobre o verdadeiro conceito do feminismo até questões do foro sexual – pululavam livremente, sem pudor. As incautas não escondiam a admiração quando descobriam.

Escrevo esta descrição com o pretérito imperfeito porque, à data da redação desta crónica, todas as mensagens foram apagadas. Neste momento, a casa de banho é composta por um ambiente estéril e frio, como se de uma casa de banho de hospital se tratasse. Com exceção de uma inconformada que, ironicamente, escreveu vários «apaga-me» e «limpa-me» a lápis na primeira casa de banho do lado direito. Mas, afinal de contas, porque escrevemos atrás das portas das casas de banho?

Há uns meses, li um artigo que comentava os resultados das eleições brasileiras. Ainda que o tema seja completamente diferente do desta crónica, o autor usou uma citação que me parece aqui igualmente pertinente. A citação, da autoria do prestigiado neurocientista português António Damásio[1], dá conta, de modo claro e sucinto, da verdadeira natureza do ser humano: «Nós não somos máquinas de pensar que sentem, somos máquinas de sentir que pensam.»[2] De facto, são mesmo esses sentimentos e emoções, ideias e opiniões – pequenas frações daquilo que as autoras tinham de mais íntimo e pessoal – que se encontravam escritas atrás das portas.

De qualquer das formas, também faz parte do ser humano um certo cuidado pela sua imagem pública. Afinal de contas, ninguém precisa de saber a identidade da pessoa que pediu conselhos para deixar de fumar ou que ainda é virgem. Por isso, é preciso ter sempre em consideração os contextos, como já dizia uma pessoa minha conhecida.

Na sua essência, uma casa de banho pública é um local que, por alguns momentos, se torna um espaço só nosso – um espaço íntimo e pessoal. Sabendo de antemão que este será usado posteriormente por outras jovens universitárias, esse espaço oferece um certo à vontade para a partilha. Afinal, estamos a falar de um grupo restrito de possíveis leitoras de uma faixa etária que, na sua esmagadora maioria, é igual ou muito aproximada à da escritora. O anonimato da mensagem simplifica a decisão de escrever.

Além dos momentos prazenteiros de leitura e da entreajuda digna de elogios, há também outros benefícios para a valorização de escrever atrás das portas das casas de banho: dar espaço à liberdade de expressão dos estudantes. Quem sabe que resultados traria o debate que existia na primeira porta em frente das escadas sobre as consequências da entrada de migrantes na cultura de um país (o tema do primeiro rascunho desta crónica). Ficaria confinado àquela casa de banho ou ganharia força para um debate aberto na nossa faculdade? Sendo este o caso de uma faculdade de humanidades, a relevância dos temas é ainda maior.

Fica então aqui uma sugestão: colocar simbolicamente um quadro branco ou de ardósia atrás das portas das casas de banho estudantis da nossa faculdade de modo a facilitar o ritual. Se se usa um quadro como ilustração do pensamento – como aqueles que estão em todas as salas de aulas – também é possível usá-lo para expressar sentimentos, colocar questões íntimas ou partilhar ideias – e é mesmo disto que o ser humano é feito.

Eu ainda não escrevi atrás das portas da casa de banho da biblioteca. Talvez seja altura de começar.

[1] Para quem quiser conhecer as obras deste autor, há livros disponíveis para requisição na biblioteca da nossa faculdade.

[2] Apud Rui Tavares Guedes, «É a raiva, estúpido», Visão n.º 1336 (11/10 a 17/10/2018): 8.

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