Crer num Deus desejado. Maurice Blondel, 70 anos depois da sua morte, Andreas Gonçalves Lind, sj

«O mundo contingente e finito, a ordem natural, portanto, não basta para realizar a vontade que habita misteriosamente o ser humano. A religião cristã, na sua doutrina e na sua práxis, surge como a possibilidade de conduzir o desejo imanente à sua total consumação. Assim, a fé cristã nutre a esperança nessa consumação como sentido da vida.»
Texto por Andreas Gonçalves Lind, sj

Fotografia in Carl Havelange, Maurice Blondel : Une énigme photographique, dir. Musée de la Photographie de Charleroi, Editions Ereme, Paris 2005, p. 127.
Texto por Andreas Gonçalves Lind, sj.

Precisamente há 70 anos, o mundo viu Maurice Blondel (1861-1949) partir desta vida. À época, o século XX aproximava-se da metade da sua existência. O mundo preparava-se para ser palco de acontecimentos marcantes, tais como a guerra fria ou o Concílio Vaticano II. Tendo falecido em 1949, Blondel não pôde assistir à nova ordem mundial que se estabeleceu após o armistício de 1945, nem à Igreja que o Concílio Vaticano II (1962-1965) fez germinar. Mas creio que o seu legado ainda é hoje importante, sobretudo se tivermos em conta as sociedades hodiernas cada vez mais multi-religiosas e multi-étnicas.

Quem quiser aventurar-se a avaliar o seu legado, pode deparar-se com dois paradoxos fundamentais. Em primeiro lugar, apesar do seu objetivo passar por abrir a filosofia do seu tempo à integração da fé cristã, a sua influência exerceu-se sobretudo no âmbito estritamente teológico (isto é, fez-se sentir sobretudo no seio de autores explicitamente cristãos). Em segundo lugar, se é verdade que ele combateu a secularização que separa radicalmente a esfera da natureza do âmbito da graça, a sua filosofia da ação acabou por contribuir decisivamente na abertura da teologia ao mundo moderno.

Começando pelo primeiro paradoxo, se assim o podermos designar, vemos como Blondel procurou defender uma tese radical, uma tese que talvez pareça ser hoje absurda ou insustentável: trata-se da ideia segundo a qual a filosofia seria intrinsecamente aberta ao cristianismo e que se completaria necessariamente com a abertura à revelação cristã. Debatendo a questão da possibilidade ou legitimidade de uma filosofia cristã, Maurice Blondel opôs-se, assim, não apenas ao ateu Émile Brehier, mas também a autores cristãos do seu tempo, tais como Étienne Gilson. Enquanto o sintagma “filosofia cristã” constituía, para Brehier, um círculo quadrado, Gilson considerava que o cristianismo alimentou a reflexão filosófica durante a Idade Média. Em suma, se o primeiro considerava que uma filosofia autêntica teria de se separar absolutamente da esfera da religião, o segundo situava a possibilidade da filosofia cristã no horizonte de um evento histórico, já passado.

Blondel, pelo contrário, procurava mostrar que a indagação filosófica seria sempre incompleta, inacabada, sem a abertura a uma revelação tal como a cristã. Com o objetivo de fundamentar a sua tese, o filósofo de Aix-en-Provence procurou mostrar, poderíamos dizer fenomenologicamente, a inadequação entre o desejo imanente ao homem e a sua realização na contingência do mundo finito. Blondel adopta o termo ação a fim de designar o dinamismo da vida humana em todas as suas manifestações. Seguindo, pois, o dinamismo da ação, ele repara que o desejo persiste sempre, mesmo após as ações que se realizam com o intuito de o satisfazer. O mundo contingente e finito, a ordem natural, portanto, não basta para realizar a vontade que habita misteriosamente o ser humano. A religião cristã, na sua doutrina e na sua práxis, surge como a possibilidade de conduzir o desejo imanente à sua total consumação. Assim, a fé cristã nutre a esperança nessa consumação como sentido da vida. É por isso que se garante integralmente a autonomia da esfera filosófica e é por isso que Jean-Luc Marion considera a ciência da ação uma resposta a Nietzsche[1]: porque a doutrina e a prática cristãs não são impostas de fora, mas como algo que completa a aspiração mais profunda do ser humano. O Deus que Blondel afirma é um Deus desejado pelo homem; um Deus que não se opõe ao homem, mas que satisfaz o desejo de infinito que o ser humano não pode realizar nem a partir da possessão de objetos finitos, nem a partir das relações situadas num mundo contingente.

Tal é a tese que Blondel defende na Sorbonne, sob o título L’action : essai d’une critique de la vie et d’une science de la pratique; publicada em 1893. A filosofia da ação aí exposta acabou por ser veemente criticada tanto por autores católicos como por filósofos ateus. Basicamente, enquanto os segundos não aceitaram uma abertura ao cristianismo que para eles não era necessária, mas apenas artificial e forçada, os primeiros temeram pela redução de Deus a uma exigência meramente natural ou imanente.

Em resposta às críticas, Blondel redige a sua primeira trilogia que consiste na sucessão de três obras: La pensée (1934), L’être et les êtres (1935) e L’action (1936-1937). Intitulada La philosophie et l’esprit chrétien, a segunda trilogia procura desenvolver a integração dos dados da Revelação cristã numa filosofia. Desta segunda trilogia apenas foram publicados dois volumes, em 1944 e em 1946 respetivamente.

Marginalizado pela generalidade dos filósofos, Blondel foi sobretudo estudado pelos teólogos católicos do século transato, nomeadamente os protagonistas da “nova teologia” e do Concílio Vaticano II. Podemos destacar, neste contexto, Henri de Lubac, com a célebre expressão, tão blondeliana, do “desejo natural do sobrenatural”[2] e a cristologia transcendental de Karl Rahner, que parte da situação do homem concreto que se reconhece como um alguém aberto ao Mistério.[3] Ao procurar libertar-se de um certo tomismo que vigorava no seio das instituições académicas católicas de então, tais teólogos encontraram na filosofia de Blondel a possibilidade de comunicar os conteúdos da fé ao mundo moderno. No que diz respeito à missão evangelizadora da Igreja, creio que esse projeto é atual ainda hoje, como sempre o será.

O mesmo se poderia dizer em relação ao empenho social que Blondel revelou ao criticar o integrismo católico da sua época.[4] A defesa do então chamado “catolicismo social” contra os ataques vindos de certas correntes cristãs ligadas à L’action française de Charles Maurras pode ajudar-nos, hoje, tanto na cura dos fundamentalismos religiosos como na aprendizagem de um cristianismo que se realiza para além da cristandade. Por outras palavras, se o cristianismo está intrinsecamente ligado a uma filosofia autónoma, que procura encontrar e realizar o sentido da vida humana, então a doutrina e a prática cristãs não podem ser impostas desde fora, como uma mera estrutura social à qual os cidadãos seriam de certa forma forçados a aderir. E se, por um lado, o cristianismo brota de dentro do homem autêntico, a profissão do credo cristão deve incarnar-se no empenho social do cristão pela justiça.

Chegamos, assim, ao segundo paradoxo, tal como o nomeámos no início desta breve dissertação. Ao combater a separação, isto é, a secularização radical de uma filosofia completamente separada da esfera religiosa, Blondel acabou por aceitar a autonomia da filosofia, adaptando-se, dessa forma, ao mundo moderno dito secular. De facto, o pressuposto do filósofo da ação consiste na renúncia daquilo que ele designa por “extrinsecismo”. O neologismo blondeliano surge para denotar as abordagens que separam excessivamente a natureza da graça, sendo esta acrescentada à primeira desde fora, como um mero acrescento suplementar. Ora, na medida em que o homem deseja algo que não se reduz à esfera meramente natural, estabelece-se, então, uma continuidade entre natureza e graça. Esta filosofia que não separa as ordens natural e sobrenatural influenciou Henri de Lubac na sua crítica da noção de “natureza pura”. A natureza, além de ser também o resultado da graça divina, aspira a fins que estão para além da mera esfera natural.

Por um lado, esta conceção de uma natureza habitada pela graça acaba por legitimar a confiança no mundo, mesmo nos mundos não explicitamente cristãos. É fácil perceber, nesse contexto, como tal conceção estimula o cristão a fomentar o diálogo com todas as esferas humanas e sociais. Não é, aliás, por acaso que se tem ligado o pontificado de Francisco à filosofia de Blondel.[5] Por outro lado, ao conceber um homem que aspira a algo que o mundo inteiro não contém, a religião surge como uma dimensão positiva do ser humano. Creio que estes dois aspectos constituem o fundamental do legado blondeliano para nós, cidadãos do século XXI.

Profundamente crente no Deus bíblico, Blondel foi alguém que se deixou apaixonar pelo mundo, pelos homens, pelas ciências, pelo progresso do seu tempo… Parece-me importante e saudável viver uma fé que suscite em nós o amor pelo mundo concreto onde nos situamos. Prova desse amor pelo mundo é o seu enorme interesse pela fotografia, uma arte nova à época. Foram recentemente expostas uma serie de fotografias de Blondel no museu da fotografia de Charleroi.[6] Através dessas fotografias, podemos perceber o fascínio que o filósofo da ação nutria em relação às pessoas simples da sua época, às paisagens naturais, aos eventos sociais…

O seu derradeiro paradoxo em vida consistiu provavelmente na cegueira que marcou o final da sua vida: para quem gostava tanto de ver e de escrever, ser vítima de uma cegueira progressiva foi certamente o carregar de uma enorme cruz. Mas, em vez de morrer revoltado, deixou-se acolher pelo amor da sua mulher e dos filhos, junto dos quais morreu a 4 de junho de 1949. Creio que, apesar do sofrimento, Blondel ter-se-á sentido próximo do Deus que sempre procurou afirmar através da sua filosofia.

[1] Cf. Jean-Luc Marion, « La conversion de la volonté selon L’Action », in Revue Philosophique de la France et de l’Étranger, T. 177, No. 1, Janvier-Mars (1987), pp. 33-46.

[2] Cf. Henri de Lubac, Surnaturel : études historiques, France/ Lonrai, Desclée de Brouwer 1991, p. 431.

[3] Cf. Karl Rahner, Grundkurs des Glaubens, Herder, Freiburg [1976] 2008.

[4] Cf. Maurice Blondel, Une alliance contre nature : catholicisme et intégrisme. La Semaine sociale de Bordeaux 1910, Éditions Lessius, Bruxelles 2000.

[5] Cf. Emmanuel Falque e Laure Solignac (dir.), François philosophe, Salvator, Paris 2017.

[6] Cf. Carl Havelange, Maurice Blondel : Une énigme photographique, dir. Musée de la Photographie de Charleroi, Editions Ereme, Paris 2005. Para aprofundar a filosofia da ação de Maurice Blondel ver: Oliva Blanchette, Maurice Blondel. A Philosophical life, USA/ Michingan, Eerdmans Publishing 2010.

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