As presenças de José Régio

«”Falar de José Régio é falar de Presença”: eis um dos muitos lugares-comuns aplicados à literatura portuguesa, criticados justamente por generalizarem e simplificarem demasiado a obra dos autores em questão. Contudo, neste caso específico o truísmo pode tornar-se interessante, se considerarmos as várias dimensões que o conceito de presença abrange na literatura regiana.»
Texto de António M. Pereira.

As presenças de José Régio

Texto de António M. Pereira.

“Falar de José Régio é falar de Presença”: eis um dos muitos lugares-comuns aplicados à literatura portuguesa, criticados justamente por generalizarem e simplificarem demasiado a obra dos autores em questão. Contudo, neste caso específico o truísmo pode tornar-se interessante, se considerarmos as várias dimensões que o conceito de presença abrange na literatura regiana. Este texto procura apontar para algumas dessas outras dimensões e mostrar a forma como se relacionam, deixando assim entrever uma teoria da obra regiana na qual, sob o signo de presença, o Régio-teórico literário e o Régio-homem religioso surjam como um só.

Comecemos por revisitar o conceito na acepção mais comum, associada ao movimento literário popularizado pela revista homónima que Régio co-fundou, baptizou, e na qual desempenhou um papel central enquanto responsável maior pela fixação da doutrina estética pela qual ela haveria de se orientar. Em contribuições como Literatura Viva, o célebre manifesto de abertura da primeira edição, e Literatura Livresca e Literatura Viva, o ensaio que preencheu o nono número da revista, José Régio cristalizou a teoria segundo a qual uma obra literária superior é aquela que não procura servir propositadamente quaisquer propósitos particulares (políticos ou ideológicos, morais ou estéticos), mas, acima de tudo, dar uma expressão tão completa quanto possível do que a “personalidade” do autor (descrita como um conjunto de características tais como a sensibilidade, a inteligência, a imaginação, etc.) tem de mais íntimo e humanoi.e. aquilo que, sendo espremido a partir de experiências particulares da existência individual do artista, não seja exclusivamente determinado por elas, mas possa ser reconhecido por outrem como um traço de humanidade em comum (nas próprias palavras de Régio, uma obra de génio é «um documento humano, superiormente pessoal ao ponto de ser colectivo»[i]). Embandeirada na revista coimbrã em artigos sucessivos, não demorou muito até que esta doutrina regiana passasse a ser conhecida como “presencismo” e que se começasse a falar de uma escola ou de um movimento presencista. Neste contexto, podemos falar de obras de arte “presentes”, empregando o adjetivo “presente” como um sinónimo de clássico, intemporal, vivo etc.

Esta tese possui alguns aspetos singulares que importa sublinhar. Em primeiro lugar, tal como Eduardo Lourenço refere no infame (mas no fundo justificado) “Presença” ou a Contra-Revolução do Modernismo Português, a teoria postula uma personalidade nuclear imanente em cada indivíduo (poeta ou não) – um conjunto de traços psicológicos, intuições, sentimentos, que são atualizados na existência adventícia mas não são totalmente determinados por ela, e que o poeta, para usar a expressão de Mário de Sá-Carneiro, deve “escavar” e trazer para a superfície. «A primeira condição de uma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe»[ii], afirma Régio em Literatura Viva. A ideia é reminiscente da noção proustiana do “livro interior” essencial, cuja tradução o autor francês, em Le Temps Retrouvé, considera ser a única tarefa do escritor. Por outro lado, a teoria pressupõe que as várias personalidades individuais possuem pontos de ligação – aquilo a que se chamará um “fundo comum de humanidade”, a “condição humana” etc. Em suma, o artista sucede enquanto artista quando é capaz de ir além da expressão de características contingentes ou temas limitados no tempo e no espaço – tudo o que individua os homens enquanto seres distintos – e, penetrando nessa personalidade virgem e velada inerente a si, revela as propriedades essenciais comuns a todos.

Há que referir ainda um outro aspecto desta teoria digno de nota, que é o seu cunho evangélico vincado: a “literatura viva” é intemporal, universal, absoluta… por outras palavras, espiritual. Em Literatura Livresca e Literatura Viva, ao criticar alguns escritores que, a certo ponto das suas carreiras, começaram a repetir-se, Régio declara: «repetir-se indica estreiteza de personalidade; comodismo; cansaço; ou velhice precoce que tenta esconder-se, continuando a usar a letra do que já não vive como espírito»[iii]. Aqui importa não tanto indagar acerca da legitimidade da crítica realizada (crítica esta que, a bem ver,  poderia virar-se contra o próprio autor), mas atentar no uso da terminologia cristológica no contexto da caracterização da personalidade artística subjacente à produção da obra de arte. O que podemos retirar deste excerto é que o ideal da doutrina presencista é comparado ao “espírito”, e que, sem ele, o artista produz apenas “letra morta” – literatura perecível, apelativa apenas a um grupo limitado de pessoas conforme a época, o lugar e o estilo vigente.

Antes, contudo, de começarmos a falar de artistas dotados de graça divina e de artistas farisaicos que fazem o culto da letra morta, será útil, para elucidar melhor este ponto, dizer algumas palavras acerca da perspectiva religiosa de Régio – as suas “tendências místicas” – e do modo como o poeta interpreta, em função dela, os conceitos evangélicos acima referidos. Para o autor d’As Encruzilhadas de Deus, o humano é um ser que contém em si um lado terreno e um lado espiritual. O lado terreno, englobando todos os aspetos da vida secular individual, refere-se sobretudo às preocupações mundanas relativas a cada homem – aquilo a que Régio frequentemente se refere como o caso de cada um –, sendo tipicamente associado às noções de egoísmo, orgulho e vaidade. O lado espiritual representa o impulso no sentido contrário, sendo representado como a intuição de uma união essencial para lá dessas diferenças particulares, que se manifesta nos momentos apogéticos da vida de cada pessoa. Trata-se, no fundo, de uma divisão entre, por um lado, um pólo que exerce força no sentido da separação e individuação, e, por outro, um pólo que exerce força no sentido de uma unidade absoluta (parte substancial da produção literária de José Régio vai desenrolar-se a partir da tematização do choque entre estas duas forças opostas). Em Jacob e o Anjo, a personagem do Anjo-bobo resume perfeitamente esta dualidade quando, dirigindo-se à Rainha, diz: «A vida de cada um é um deserto inatingível aos outros desertos. O Espírito é que a todos acompanha. Não é o mesmo céu que paira sobre todos os desertos?»[iv]

Ora, este Absoluto, este «céu que paira sobre todos os desertos» – ou o sentimento que no sujeito permite entrevê-lo –, é justamente o que, na obra de Régio, surge por vezes designado pelo termo presença. A título de exemplo, tome-se um artigo de 1950 intitulado simplesmente Poesia. Neste texto, Régio faz uma exposição breve de um modelo ontológico da evolução do mundo, muito reminescente do modelo trinitário da tradição de Sampaio Bruno – (1)união primordial, (2)separação e consciencialização, (3)reunificação –, caracterizando a figura do Poeta no contexto desse quadro:

(…) o mundo era só um todo: indivisível, uno, integral. Não se sabe que omnipresente Vontade, ou terrível Acaso, desfez essa perfeita unidade. Mas então apareceram as coisas distintas umas das outras; os seres separados uns dos outros (…). Só então, propriamente, nasceu a vida, o espaço, o tempo… e a irremediável dor mãe de todas: a dor da Unidade esmigalhada; da Realidade fragmentada em inúmeras pequeninas realidades parcelares.[v]

Através das coisas distintas, dos seres incompletos, dos fragmentos dispersos, – tacteando, cega, no vácuo por ser humana, mas obedecendo, iluminada, a um instinto superior por ser divina – ei-la vai a Poesia através dos escombros em demanda da Unidade original.[vi]

O poeta é, primeiramente, aquele que, partindo da condição “caída” de ser fragmentado ou «parcelar», possui a intuição dessa unidade primordial de ordem transcendente, e expressa-a através da obra poética. Caracterizando o modo como ele empreende essa «demanda», Régio continua:

Palavras, – como as palavras se tornam poucas, e pouco, para exprimirem quanto, ao longo da infindável viagem, vai denunciando a inatingível Presença! E então se vale o Poeta de ritmos, de músicas, de jogos, de ressonâncias, na sua tentativa de captação do inefável. [itálico meu][vii]

O termo Presença assume neste texto uma conotação mística explícita, sendo utilizado como co-referente de «inefável», e é considerado uma propriedade essencial da poesia, conferindo-lhe um escopo universal: apenas imbuída dessa Presença divina se pode dizer dela que «o seu tempo próprio é a Eternidade, o seu espaço a Imensidão, o seu fim o Absoluto»[viii] – frase que remata o artigo. Se pelo termo generalizante e maiusculizado «Poesia» entendermos o que para o autor constitui o ideal poético e artístico (a obra de arte “clássica”ou “viva”, isto é, qualitativamente superior), ficamos assim com uma nova perspectiva sobre as ideias expressas nos textos ensaísticos de índole mais académica do autor.[ix]

A convergência da tese metafísica/religiosa com a tese estética é reiterada na Confissão Dum Homem Religioso. No capítulo dedicado à exposição dos «Graus do Eu», Régio defende que a obra de génio comparticipa no Absoluto da mesma forma que o homem o faz; ela torna-se clássica, ou intemporal, se possuir  propriedades extraídas da personalidade imanente do autor – o seu «eu transcendente» ou espiritual (imanente, neste contexto, corresponde a transcendente, pois, como já foi referido, é pela personalidade essencial a priori do indivíduo que ele pode estabelecer contacto com o absoluto).

agora perguntaremos se em toda a verdadeira obra de arte não há uma Objectividade (chamemos-lhe assim) que se diria sobrepairando não só às características epocais ou escolares como às da própria personalidade do homem-artista criador. Por essa Objectividade – por Isso que diríamos uma comparticipação no Absoluto – vive eternamente a obra de arte desde o momento em que foi criada. Isso é o seu elemento verdadeiramente perdurável, – o seu eu transcendente, que não poderia o homem-artista infiltrar nela se nele mesmo não existisse: Intemporal, inespacial, universal.[x]

Para mais, a capacidade que permite ao artista realizar essas obras de qualidade superior é no mesmo passo descrita como um «dom» ou uma «graça»[xi], o que reforça o já mencionado cunho cristológico da teoria.

Toda esta retórica em torno de conceitos como “absoluto”, “inefável”, “transcendente”, “inspiração divina”, “unidade primordial” etc., poderia, no entanto, motivar a objecção de que toda a teoria até agora considerada se reduziria afinal a um mero atavismo romântico, e que o ideal artístico de Régio pouco mais seria do que aquilo a que T. E. Hulme ironicamente chamou spilt religion. Essa objeção teria, a bem ver, o seu lado legítimo. Mas é preciso notar que, apesar do que escreve no final de Poesia, Régio nunca busca o absoluto através da poesia enquanto um fim em si mesmo. Ele nunca confunde o artista com o místico (um capítulo do longo ensaio Em Torno da Expressão Artística é justamente dedicado a explicar as diferenças entre os dois) nem se comporta como Zagoriansky, a personagem de Sá-Carneiro que procurava o poema perfeito que, a ser completado, produziria efeitos de ordem transcendente. O que interessa sobretudo a Régio – a finalidade derradeira, e única, da arte para si – é a comunicação e a compreensão interpessoal; o plano do absoluto espiritual é tomado como uma condição necessária para tornar isso possível. As «imagens dos poetas», declara Régio em Poesia, são «pontes lançadas dos seres para os seres.»[xii] Não se trata, pois, da reunificação do homem com Deus, mas do homem com ele mesmo.

Ainda neste ponto, eis aquilo em que consiste, para Régio, a «emoção estética», o único efeito que o artista deve procurar produzir: «(…) quando o Artista consegue despertar o nosso próprio instinto de recriação do mundo, encaminhando-o no sentido do seu. Só então admiramos, amamos e compreendemos um artista: porque ele nos compreendeu, e ensinou a compreendê-lo».[xiii] Aqui se revela a importância da noção de compreensão, ou sintonia humana, à luz da qual poderemos entender de modo menos esotérico a ideia exposta em Poesia: a partir do mesmo ponto de partida (o absoluto, ou a realidade objectiva, ou o fundo comum de humanidade imanente em todos os homens), a existência contingente de cada indivíduo projecta-o num direcção própria, exclusiva a cada um, distanciando-o dos demais devido ao egoísmo perpectivista que é sua característica intrínseca. A arte, tendo por finalidade o fomento da compreensão, é a tentativa de estreitar a distância entre essas várias linhas divergentes, com o objectivo utópico de uma intersecção ou cruzamento[xiv]. À imagem do espírito cristão tal como Régio o interpreta, ela é, a final de contas, um estímulo da solidariedade, do amor fraterno; um esforço correctivo do lado terreno do homem – aquilo que o autor do Jogo da Cabra Cega descreve como a «nossa impossibilidade duma sinceridade completa e duma tolerância íntima (…) que em qualquer espécie de relações nos torna impenetráveis, limitados, incompletos, adversários…, adversários como se qualquer um (e na realidade assim é) não pudesse viver senão à custa da derrota de outrem».[xv]

Tudo o que foi exposto procurou apontar para a coerência entre o Régio-teórico literário e o Régio poeta e homem religioso, tendo por denominador comum a noção de presença. Podemos portanto falar com propriedade de “presencismo”, ou de “arte presente”, enquanto característica essencial de José Régio e do seu ideal artístico, mas neste sentido mais amplo e completo. Toda a doutrina estética regiana, todos os meandros da dicotomia entre literatura viva e literatura morta, podem afinal resumir-se nos versos de Paulo:

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver amor, sou como um bronze que soa
ou um címbalo que retine.
[1Cor 13:1]

Tal poderá causar perplexidade, tratando-se de um autor tradicionalmente rotulado pela crítica de individualista e narcisista. Mas somente a quem não desconfiar dos labirintos tortuosos da consciência nos quais todo o homem em busca da verdadeira disposição amorosa tem, forçosamente, de se enredar e debater.


[i]    Régio, José, Crítica e Ensaio, vol.1. [s.l.], Círculo de Leitores, 1994, p. 10.

[ii]   Ibid., p. 9.

[iii]  Ibid., p. 42.

[iv]  Régio, José, Teatro, vol.1. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005, p. 148.

[v]    Régio, José, Poesia, vol.2. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001, p. 320.

[vi]  Ibid.,

[vii] Ibid.

[viii] Ibid., p. 321.

[ix]  Para outras instância de uma utilização semelhante do termo, ver, por exemplo, em Jogo da Cabra Cega, p. 93 (Lisboa, Imprensa Naciona-Casa da Moeda, 2006): «todo ele me envolvia; e eu sentia qualquer coisa de semelhante àquela sensação de pavor, de curiosidade, de inquietação, de presença, que tenho nos momentos sobrenaturais em que os espíritos me rodeiam.» Ver também Confissão dum Homem Religioso, p. 222 (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001).

[x]    Régio, José, Confissão dum Homem Religioso, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001, p. 212.

[xi]  Ibid.

[xii] Régio, 2001a, p. 320.

[xiii] Régio, 1994, p. 30.

[xiv] Na óptica de Régio, isto não vai contra a ideia da “arte pela arte”. Na entrada do diário datada de 8 de setembro de 1924, escreve o jovem poeta: «Para mim, a palavra Arte já inclui as de Piedade e Simpatia.» (Régio, José, Páginas do Diário Íntimo, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000, p. 31)

[xv]  Régio, José, Jogo da Cabra Cega. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2006, p. 271.

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