A sombra de todas as coisas, Maria Duran Marques

«Se pelo menos alguém calasse o Sol! / Por um dia apenas, uma manhã, / Um meio-dia em surdina.»

Se pelo menos alguém calasse o Sol!
Por um dia apenas, uma manhã,
Um meio-dia em surdina.
E assim esborratasse as arestas do mundo
Derrubasse as paredes, soltasse as grades que prendem
A sombra de todas as coisas, e lhes oferecesse a liberdade.

Um dia
Livre e louco, um não-dia, um pós-dia
De total ausência de luz, de paragem do tempo no espaço.
As sombras invadiriam os campos, conquistariam as cidades:
sentadas em bancos de jardim,
segurando senhas nas filas do banco,
comprando paracetamol e feijão enlatado nas caixas do supermercado.
Sombras feitas só de sombra, sombras sem caras, sombras sem vozes,
sem lutos, sem frio.
Sem medo, sem compreender a existência do medo.

E nisto o mundo seria tomado por uma escuridão suave,
Dividida em pequenas parcelas para nós,
Só nós os dois.
Os Dois, todas as almas emparelhadas
com o seu crepúsculo natural
– pois toda a aurora tem uma sombra, e todos os nomes
o seu sentido oposto – toda a Humanidade deitada na cama,
enrolada no bom silêncio.

A respirar o mesmo ar que a escuridão, a mesma
estranha ternura.
Por um dia apenas, uma hora
Uma meia-noite!
Se alguém apenas calasse
aquele triste cantar da Lua.

Maria Duran Marques

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