O escritor de hoje… tem de ter jeito para o negócio

Crítica de Cristiano Jesus à conversa literária realizada no âmbito das Jornadas Culturais da AEFLUL.

Crítica por Cristiano Jesus.

Num local de passagem improvisado como pequeno auditório, junto à antiga livraria, uma conversa informal sobre o que é ser escritor actualmente dá início entre os passos dos universitários que se movimentam pelo corredor e o tumulto vindo do bar, que em alguns momentos se sobreporá às vozes dos convidados. Uma plateia com cerca de vinte pessoas veio para ouvir o que os escritores João Tordo, Maria Antónia Oliveira, Mário de Carvalho e o doutorando em Teoria Literária Tiago Clariano têm a dizer. A meio do debate, Ana Honrado, moderadora da conversa, lamenta o facto de haver tão pouca gente interessada em literatura, e que isso pode ser confirmado pelo número tão baixo de assistência a este debate numa Faculdade de Letras. Será que há pouca gente interessada na literatura, ou, afinal, os convidados é que não apelavam a ninguém, sabendo os possíveis espectadores à partida o quão iriam ficar defraudados se fossem assistir? Infelizmente, a segunda opção revelar-se-á verdadeira. No final do debate, restavam pouco mais de dez espectadores.

O tema O que é ser escritor nos dias hoje? tinha como objectivo debater a marginalização das vozes e do próprio escritor na sociedade actual (pode-se debater o que é estar à margem quando os convidados são «escritores de sucesso», cujos currículos estão preenchidos com prémios PEN e Saramago e menções de que foram finalistas de outros mais prémios, além de pertencerem ao Plano Nacional de Leitura?), e como é ser escritor na era do Facebook e outras redes sociais: este tópico será pouco abordado, minando em grande parte o pensamento sobre uma das questões centrais do modo de acção do escritor actual, que é através delas que partilha a sua opinião sobre o mundo, influencia quem o segue, partilha os eventos onde estará presente, etc. Para João Tordo, o Facebook não é mais que uma ferramenta de trabalho. Apenas Mário de Carvalho comentará que esta rede social propicia a um outro tipo de texto mais espontâneo, como o apontamento e o comentário. A temática visa, de igual modo, procurar justificação para o que motiva a Direcção Geral de Educação a incluir pouca poesia nos programas, e qual a importância do escritor quando menos de 1% do Orçamento de Estado é dirigido para a cultura.

Quando chamados a falar sobre o tema, Maria Oliveira e João Tordo mostram-se reticentes em começar a dizer algo e, no debate inteiro, serão os que menos falarão. Isto não deixa de ser estranho. Foram convidados para uma conversa informal, mas depois não querem falar, e, quando falam, pouco têm a dizer. O maior tempo de intervenção de Maria Oliveira, que tem desenvolvido o tema da memória, concentrou-se no início da conversa ao falar da sua visão do escritor: «ser escritor está ligado a escrever biografia». O seu mais recente trabalho publicado (2007) é uma biografia literária sobre Alexandre O’Neill que demorou cinco anos a ser concretizada, confessando ter sido um processo complicado. Após ter ganho o prémio de ensaio sobre O’Neill com o ensaio «A tristeza contentinha de Alexandre O’Neill», surgiu-lhe a proposta para escrever uma biografia sobre o escritor surrealista. Anuncia-nos que, agora, se encontra a escrever uma biografia sobre Cesário Verde. Para Oliveira, o trabalho do biógrafo é difícil porque tem de «entrar na cabeça do outro e tentar percebê-lo». Isto constitui uma evasão «que não é uma criação, porque está ligada com uma verdade». Este processo de «sair de mim» é humanista, pois quando regressa a si [Maria Oliveira], encontra-se mais rica do quando partiu devido a ter experienciado certos eventos na visão do biografado.

No entanto, durante quase toda a conversa, os escritores preferem falar de si. Contam historietas das suas vidas pessoais que não acrescentam nada ao tema. Por exemplo, Maria Oliveira expõe como a experiência de ser escritor profissional é difícil na repartição das Finanças, visto que, quando foi registar uns textos que escreveu, a empregada afirmou que, como não era um livro, não era considerado Literatura; por isso, não pertencia à categoria B13. Um outro exemplo é o «primeiro fracasso literário» de João Tordo, que, nos seus doze, treze anos, ao estar apaixonado por uma rapariga, lhe escreveu um poema que ela lerá às suas amigas em voz alta para gozar com ele. Isto fê-lo nunca mais querer escrever poesia e publicar. Outras vezes, estas histórias têm como objectivo apresentar o último livro que lançaram: Mário de Carvalho, que neste dia [6 de Abril] acabava de dar à estampa o livro de crónicas O que eu ouvi na barrica de maçãs (título, como nos explicou, baseado num episódio da Ilha do Tesouro, cujo protagonista se escondeu dentro de uma barrica de maçãs quando uns piratas chegaram à praia onde este se encontrava, ouvindo assim, por acaso, o lugar no qual o tesouro estava enterrado; episódio esse que significa estar com o ouvido atento ao que nos rodeia, recordação que lhe ficou para sempre) aproveita a sessão para nos pôr a par desse lançamento e erguer o livro de capa amarelo que tirou da sua mala, “novo em folha”, para que o víssemos. Tordo fala-nos de como a utilização do Tinder, que só lhe mostrava mulheres disponíveis com 60 anos, deu origem ao livro O Paraíso Segundo Lars D, que tem como protagonista um escritor sexagenário que lida com o erotismo numa idade avançada. É de notar que, atrás do lugar onde decorria a conversa, estava exclusivamente montada uma banca para vender todos os livros de João Tordo disponíveis no mercado, com serviço de multibanco, mencionada pelo próprio autor enquanto contava outra história mais pessoal que haveria de levar até ao seu mais recente romance publicado, A mulher que correu atrás do vento.

Como podemos retirar destes episódios, parece que os convidados se esqueceram que isto não era um debate sobre si, mas sim em torno da figura do escritor. Resta apenas Tiago Clariano para pôr alguma ordem na conversa e obrigar os outros a reflectir sobre algo que de facto importe; mas, ao lançar alguns tópicos para a conversa, como o papel do cânone e o seu perigo de uniformização na «história da leitura pessoal», a definição da escrita como elegância e grau de risco, as características da literatura («irónica e humilde, para ela não há não-assuntos, sabe o que criticar no momento certo») e, em último lugar, se existe um carácter utilitário na literatura, estes parecem deslocados e descontextualizados devido ao rumo que a conversa tomara anteriormente com as incursões pessoais de cada convidado, que em pouco serão tidas em conta. O debate nunca terá fluidez: perguntamo-nos até se estão a ser debatidas as questões apresentadas no início.

Clariano e Carvalho são os que mais dialogarão. Sobre o cânone, Mário de Carvalho diz que deve haver um e se deve conhecê-lo, porque não se está sozinho a escrever. De seguida, evoca uma imagem interessante: «Um homem que caminha pela biblioteca e ouve entre as estantes um sussurrar vindo dos livros. Isto é a tradição. As vozes dos poetas nunca deixam de estar presentes». Quanto ao valor utilitário da literatura, Tiago Clariano, sem nunca se comprometer verdadeiramente com as coisas que diz por causa do seu carácter problemático, defende que a literatura serve para renovar o interesse de algo e salientar um pormenor invisível para os outros, não tendo ela um valor utilitário, de ajudar nos problemas diários. Embora Mário de Carvalho concorde com este ponto, também pensa que a literatura existe como forma de aprendizagem: refere como os sermões do Padre António Vieira serviam para ensinar, mover e cativar as multidões, mas esse aspecto parece hoje esquecido, visto que, quando se olha para os sermões, já só se vê o seu valor literário, isto é, a qualidade da prosa.

A moderadora convida alguém do público a participar. Pergunta-se qual é o caminho que a literatura vai tomar com o surgimento de plataformas como a Netflix e a ameaça constante do cinema. Maria Oliveira acha que tudo se manterá igual, porque as desculpas que ouve hoje, como não ter tempo para ler e os livros serem caros, já as escuta desde os anos 90.  João Tordo, com um ar alheado, ora mexendo no telemóvel, ora agitando uma capa com folhas, lá se vai esquecendo das perguntas proferidas (sim, sempre que era chamado a intervir, afirmava ter-se esquecido do que foi dito). No entanto, comenta como os jovens não estão interessados em Literatura. Sempre que vai a festivais ou sessões literárias, só encontra «pessoas velhas». E isto deve-se ao facto de ser mais fácil ligar a televisão e ver um filme ou ver um Sporting-Benfica do que ler um livro: «Quando leio, estou a desenvolver a faculdade de imaginação. Já quando vejo filmes desligo a imaginação, porque o filme não convida a participar». Isto leva-nos a perguntar que filmes João Tordo vê. Confessa, depois, que é muito mais fácil encontrar alguém a falar sobre o que aconteceu no episódio anterior de uma série do que um livro, afirmando que «a experiência literária não é partilhável». Mário de Carvalho comenta, seguindo esta linha de raciocínio, que hoje se verifica um grande défice de atenção.

Esta conversa informal, que pretendia traçar um retrato do escritor actual, que vai proliferando pela internet, seja partilhando textos, alheios a qualquer crítica, no Facebook, que hoje é um lugar privilegiado na partilha de poemas e rampa de lançamento para futuras publicações, seja no Instagram, que consagrou um novo tipo de poetas, os instapoets, dando uma nova vida às palavras que pareciam não ter lugar no mundo das imagens, ficou aquém daquilo a que se propunha. Ficámos a perceber por aquilo que foi dito que o escritor deve ser um agente e, sempre que possível, tentar vender o seu livro, expor a sua vida e falar muito pouco sobre literatura.

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