Relembrar outras frentes de combate em 1914-1918: as madrinhas de guerra

Assinala-se hoje, a 9 de Abril de 2019, o 101º aniversário da Batalha de La Lys, na qual as tropas portuguesas enfrentaram a força alemã. Veja o que a nossa colaboradora Leonor Buescu tem a dizer sobre uma realidade histórica que permanece muito ausente da memória colectiva portuguesa: o papel das madrinhas de guerra.

Fotografia das madrinhas de guerra, figurando no n.º 590 da revista Ilustração Portuguesa de 11 de Junho de 1917.
Artigo por Leonor Buescu.

“[…] As madrinhas de guerra serão pela vida fóra, de nós todos que fomos à guerra, a nossa mais doce recordação. Por muito dedicados que lhe sejamos, jamais conseguiremos pagar dívida tão grande que contraímos. […]”
Afonso do Paço, Cartas às Madrinhas de guerra (1929)

Apesar dos cerca de oito mil soldados mortos e trinta mil feridos, capturados ou desaparecidos na Grande Guerra, que totalizam um número elevado de vítimas (sobretudo se tivermos em conta a pequena dimensão do país), Portugal surge muitas vezes como um dos beligerantes esquecidos pela história e pelos historiadores. Mesmo em Portugal, a ideia do que foi esta guerra parece permanecer nebulosa, largamente desconhecida e ausente da memória colectiva nacional. O indício mais sintomático desta realidade será, talvez, a inexistência em Portugal da comemoração do Dia do Armistício, a 11 de Novembro, ainda hoje assinalado noutros países beligerantes como o Reino Unido, a Bélgica ou a França.

Para explicar esta ausência no imaginário memorial português, concorrem vários factores possíveis, em particular a fragilidade da jovem república em responder prontamente ao trauma da participação na guerra, que se exprimiu, por exemplo, na dificuldade de recepção e de reintegração social dos combatentes regressados ao país. Isto não quer dizer, no entanto, que não tenha havido tentativas de construção do mito da guerra, expressas, nomeadamente, através da criação de cemitérios militares portugueses em França e na Flandres – trabalho de homenagem patriótica levado a cabo pela Comissão Portuguesa das Sepulturas de Guerra ainda no rescaldo do conflito; ou do edificar (tardio) de monumentos públicos um pouco por todo o país, erigidos sobretudo na década de 30 e 40 do século XX, mas geralmente associados a um forte teor ideológico e com objectivos propagandísticos já do regime fascista de Salazar.

Embora não seja intuito deste texto discorrer sobre a questão memorial da guerra de 1914-18, esta não deixa de ser o seu mote: no dia de hoje, há 101 anos, o Corpo Expedicionário Português (CEP) sofria uma das mais dramáticas derrotas da sua participação no conflito mundial na chamada Batalha de La Lys. Na realidade, esta batalha prolongou-se de 7 a 29 de Abril, embora a historiografia portuguesa tenha dado particular enfoque ao dia 9, dia do trágico embate para o qual concorrera a incapacidade defensiva do CEP perante a ofensiva alemã: desastre que parece ser, de resto, representativo da impreparação generalizada das tropas portuguesas enviadas para a frente ocidental. O estudo da participação de Portugal na guerra tem pendido, de um modo geral, para questões políticas, económicas e sociais, fazendo convergir as diversas causas e consequências de um momento conturbado que caracterizou a então jovem república portuguesa. Com isto, não pretendo afirmar que o ambiente de instabilidade política não seja, de facto, contexto maior – legítimo e necessário – à problematização e compreensão da entrada de Portugal na guerra. Chamaram-lhe guerra total porque se caracterizou como um conflito maior do que todos os anteriores – de facto, totalizante. Este conceito tenta caracterizar o esforço de guerra segundo as suas múltiplas vertentes: quer a nível externo – ou seja, no que respeita à participação efectiva no conflito mundial propriamente dito; quer a nível interno – onde se opera a acção da sociedade civil em território longe da frente de combate. É, portanto, sobre este ponto – o da participação da sociedade portuguesa na retaguarda – que este texto pretende debruçar-se. Em particular, sobre um aspecto ainda pouco estudado: a acção das madrinhas de guerra.

Quando se percebe, um pouco por toda a Europa, que a guerra não iria ser de curta duração, e que os soldados, contrariando as projecções iniciais mais optimistas, não estariam de regresso a suas casas pelo Natal, estabelecem-se linhas de acção externas e de apoio à frente de combate. As madrinhas de guerra são uma invenção criada pela necessidade de se manter o moral dos combatentes, de modo a evitar insubmissões e deserções entre os contingentes militares. À semelhança do que acontecia nos outros países beligerantes, como em França ou no Reino Unido, também em Portugal se procurou criar uma rede de apoio aos soldados portugueses.

Independentemente da ideologia que estivesse por detrás da sua acção, as madrinhas de guerra pretendiam, de um modo geral, estabelecer um contacto regular com os soldados da frente de combate. Através de correspondência, a madrinha procuraria atenuar a solidão e tristeza do afilhado, ao dar notícias do país, enviando-lhe, entre outras coisas, agasalhos, tabaco e jornais. A madrinha teria de visitar o combatente em situações trágicas, nomeadamente quando ferido no hospital, devendo fazer-lhe companhia para levantar o ânimo; mas também deveria prestar auxílio moral e material às famílias dos mobilizados que, na maioria dos casos, não dispunham de grandes meios de subsistência. Numa perspectiva lúdica que envolvesse a sociedade civil no esforço de guerra, as madrinhas promoviam ainda diversos eventos públicos para a angariação de fundos, entre os quais se contavam festas com declamação de poesia, bailes, concertos, espectáculos de teatro ou de animatógrafo, ou ainda, por exemplo, a venda de objectos artesanais em mercadinhos públicos.

Pouco depois de ter partido o primeiro contingente português para França, em Março de 1917, foi constituída uma comissão de senhoras da aristocracia portuguesa, fundada por Sophia de Carvalho Burnay de Mello Breyner, que pretendia dar apoio moral e material ao esforço de guerra. A sua obra esteve próxima da Assistência das Portuguesas às Vítimas de Guerra, organização de pendor monárquico e católico, e “rival” da republicana Cruzada das Mulheres Portuguesas. A sua fundadora sublinhava a urgência em criar-se um grupo como as madrinhas, afirmando, em entrevista ao Século de Abril de 1917, que a inscrição de madrinhas e de afilhados que as procuravam aumentava exponencialmente a cada dia. Apesar do sucesso imediato, estas madrinhas foram também alvo de duras críticas por parte da opinião pública, num país ideologicamente crispado entre republicanos e monárquicos. Aos olhos de muitos, a sua actividade era nefasta, já que o ânimo do combatente, fragilizado, estaria mais permeável à doutrinação religiosa. Outras vozes se levantaram contra esta obra, considerando-a de “pseudo-beneficência”,[1] e acusando assim os seus membros de enviarem rosários, medalhas de santos, e outros “amuletos fanáticos[2] aos soldados em batalha. Como estes, na imprensa deixavam-se alertas ao perigo da catequização das madrinhas católicas – sentimento inteiramente anticlerical bem patente na facção republicana da época.

Paralelamente às madrinhas católicas e monárquicas, outras instituições portuguesas foram inspiradas por esta ideia. O caso mais sintomático terá sido o da Cruzada das Mulheres Portuguesas no qual, pela mão de uma das suas fundadoras, Ana de Castro Osório, foi criado o departamento dos Afilhados de Guerra, ligado à comissão de Assistência aos Soldados. Com amplo apoio do governo republicano – e, por isso, talvez com uma actividade mais mediatizada na imprensa da época – a Cruzada pretendia, assim, mobilizar novos membros através de iniciativas em tudo muito semelhantes à primitiva organização monárquica: também as madrinhas republicanas procuravam estabelecer um elo com os soldados que combatiam longe, e que se expressava pela correspondência epistolar, embora também houvesse espaço para a realização de festas e outras actividades públicas para angariação de fundos. Do mesmo modo, deveria ser cultivada uma relação com as famílias dos mobilizados, no seio da qual a Cruzada recomendava às suas colaboradoras que prestassem esse auxílio patriótico, “[levantando] o espírito das famílias dos soldados, explicando-lhes com clareza todos os factos, destruindo os boatos e mentiras que tanto estão prejudicando o país”[3]. Esta era uma atitude combativa que pretendia desmistificar e, de certo modo, legitimar, lado a lado com o regime republicano, a participação portuguesa na guerra. Em Fevereiro de 1918, a Cruzada das Mulheres Portuguesas dizia contar já com cerca de nove mil soldados inscritos para obtenção de madrinhas – um número assinalável, tendo em conta os escassos meses em que este departamento terá sido constituído.

Fosse monárquica ou republicana, portuguesa ou estrangeira, a madrinha de guerra era, de um modo geral, olhada com alguma desconfiança. A sua figura parecia ser simultaneamente símbolo de garantia e de ameaça da ordem social, acarretando o duplo poder de a sustentar e de a destruir. Se, por um lado, o carácter “maternal” era invocado como fundamental para estabelecer uma relação moralmente aceitável entre soldado e madrinha, este contacto era, ao mesmo tempo, amplamente apelidado por muitos dos seus detractores como promíscuo e reprovador quanto ao carácter “sexual” do flirt epistolar.

Apesar da visão maniqueísta (maternal vs. sexual) que, desde cedo, minou o papel da madrinha de guerra, não há dúvida de que este fenómeno teve enorme relevância no âmbito da primeira guerra globalizada. Não esteve circunscrito nem no espaço, nem no tempo: foi expressão significativa da crescente rapidez e eficácia dos meios de comunicação do início do século XX. A importância das madrinhas durante a guerra chegou a ser tal que muitos governos europeus alertavam para o perigo de estas mulheres serem espias que utilizavam a correspondência para obter informação comprometedora acerca das estratégias militares; devido ao excesso de fluxo nas redacções, alguns jornais chegavam a ter de recusar a publicação de pedidos de madrinhas pelos soldados, como aconteceu, por exemplo, com o francês Le Figaro. A proliferação da publicação das memórias ou da correspondência quer de combatentes, quer de mulheres, comprova que as madrinhas de guerra tiveram uma presença de relevo em alguns países beligerantes, mostrando-se essenciais para manter o moral das tropas e, numa perspectiva mais ampla, das sociedades civis.

Em Portugal, o nome das madrinhas de guerra aparece geralmente associado ao contexto bem mais recente da Guerra Colonial (1961-1974) – contudo, como procurei demonstrar, houve, de facto, antecedentes desta prática na Grande Guerra. Embora não tenha tido oportunidade de fazer uma análise aprofundada sobre o tema, não quis, no entanto, deixar de assinalar uma das datas mais representativas do desastre militar e humano que foi a presença portuguesa na frente ocidental com uma temática que, ainda que relacionada com a guerra, continua ainda largamente esquecida na nossa memória colectiva.

Numa época em que às mulheres estavam vedadas as oportunidades de participação directa em sociedade, as madrinhas de guerra parecem ter servido como justificação para que muitas das suas colaboradoras prestassem um serviço activo na retaguarda; a criação dos vários grupos de madrinhas parece ter sido, ao mesmo tempo, sintomática da progressivamente maior presença e visibilidade da mulher nas sociedades ocidentais. No caso da sociedade portuguesa, a implementação das madrinhas de guerra foi representativa do fervilhar ideológico de duas das organizações femininas mais significativas da época: a Assistência das Mulheres Portuguesas às Vítimas da Guerra e a Cruzada das Mulheres Portuguesas – que, de resto, tiveram origem aquando da entrada de Portugal na Grande Guerra, em 1916. Apesar das diferenças políticas e divergências que caracterizaram pudessem retratar as madrinhas portuguesas ligadas a estas organizações monárquicas e republicanas, a actividade de ambas era, afinal, em tudo similar: a promoção das diversas iniciativas, entre as quais a correspondência ou as festas beneficentes, revestia-se essencialmente de um apregoado “valor patriótico” que se pretendia maior do que qualquer ideologia, e forma de valente luta, paralela à do soldado na frente de combate. No entanto, esse patriotismo de que se dizia revestir a actividade das madrinhas poderá ser considerado, afinal, uma base de legitimação da própria participação portuguesa na guerra: pois não seria esse apoio moral, sentimental e material prestado por estas mulheres também ele uma ferramenta de motivação ao recrutamento militar e suporte de um hipotético orgulho bélico? Esta pergunta escapa agora ao teor deste texto; fica aqui, no entanto, a deixa para um possível debate futuro.

No epílogo ao livro Cartas às Madrinhas de Guerra, publicado em 1929, o tenente Afonso do Paço, combatente na Grande Guerra, escreve um texto emotivo de agradecimento às madrinhas e à força das suas cartas. Daqui transcrevo abaixo um excerto, terminando este artigo com esta exaltada e reveladora homenagem:

“[…]  Foram as mulheres de Portugal o maior auxiliar do bom nome do nosso exército. E porque não havia de ser assim se as nossas fardas vistosas não são para outrem que para os seus olhos? Enquanto abandonados dos dirigentes da nação morríamos de fogo e doença na trincheira, as suas cartas benditas eram o nosso único lenitivo para tamanha dôr. Enquanto padecíamos na Alemanha de fome horrorosa, esquecidos dos governantes da nossa pátria, as suas cartas carinhosas insuflaram vida a uma vida que se extinguia e definhava, conseguindo trazer-nos ao torrão natal. As madrinhas de guerra serão pela vida fóra, de nós todos que fomos à guerra, a nossa mais doce recordação. Por muito dedicados que lhe sejamos, jamais conseguiremos pagar dívida tão grande que contraímos. […]” 
Afonso do Paço, Cartas às Madrinhas de guerra (1929)

[1] Jornal O Dia, 15/05/1917.
[2] MOURA, Maria Lúcia de Brito, “Madrinhas de guerra”, in CASTRO, Zília Osório de, ESTEVES, João [dir.], Feminae. Dicionário Contemporâneo, Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, Lisboa, 2013, p. 479.
[3] Ana de Castro Osório apud MOURA, op. cit., p. 480.

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