Sobre o vôo do pássaro de fogo, Tomás Ferreira

i.

(diagnóstico: a dissecação)

Pássaro, sentes que o teu voo inaugural chama,
queres voar do ninho; podia descrever-te esse ninho, é um ninho próprio de ti;
quiçá sejam os passarinhos que fazem o próprio ninho. O teu é pequeno, circular,
continente que baste para que nele se possa perder pequena cria,
assim côncavo, de bordos íngremes como espaldas de montanha;
mas o teu, passarito, não se contenta com o seu lugar,
não só em te conter o corpo se satisfaz, mas quer-te também a alma circunscrita,
ó pássaro triste, e eu não sei dizer ao certo: é ninho ou gaiola?
Nunca ninguém saberá e se, porventura, alguém julgar saber,
será segredo certo de confessionário.
                     O teu ninho
de tal modo exorbitou a sua função de ser ninho
que agora, ao olhares em volta, te parece uma floresta inteira,
não só galhos dela, mãe e não só filhos…e histórias antigas dizem
que nas florestas velhos eremitas se encontram
e bruxas cruzam o teu caminho para fazer das rosas espinhos.
Os galhos alongam-se, como feitiço de bruxa em conto de fadas,
contorcem-se numa floresta de abrolhos ásperos, alta,
sempre subindo em direcção ao céu que devia ser teu;
para lá deles agitam-se sombras, fantasmas, ecos
aqui deixados para ti pelos teus pais – e por isso mesmo mais temíveis.
Não chegara o ninho que te deram e te rouba o céu,
mais haviam de te deixar em herança o seu passado,
ocupando, rotundo, o lugar reservado ao teu futuro.
                    Cheira a queimado;
parece que a floresta arde e não sabes de que lado vêm as chamas,
ninguém passa para to dizer e tu estremeces, guinchas assustado;
também não passou ninguém que te dissesse que a floresta de espinhos é o mundo inteiro,
quando dentro de ti a trazes errando através dele. Não passa ninguém –
nunca passa ninguém num ninho assim.
                    Olhas para cima,
pensas que tens de voar ou ser engolido pelo abraço dos abrolhos. E há outra coisa.
Sim, não nos podemos esquecer disso
fazendo o diagnóstico da condição das tuas asas.
(eu esqueço que sou somente narrador, não fui treinado como médico, o remédio
não está em mim, mas deixemos passar isso por agora)
É que, além desse ninho que tu tens, com a sua floresta de espinhos,
a sua trupe de fantasmas que é como o fim do mundo
        (que não é em lado nenhum mas parece estar em todo o lado),
do peso da memória feita algema, sim, além disso tudo,
que é tudo relativamente físico, há lá outra coisa:
num pequeno mundo assim tão cheio, olhando de perto vemos que cheio é de vento
                                   somente;
                                   é oco.
Ou, pensando melhor, não é o mundo que é oco, ele está cheio com tudo isto e mais
(e o vento também enche, não o esqueçamos), és tu que tens um vazio, que o sentes
oprimindo-te ainda mais do que os espinhos que te laceram a carne,
do que os fantasmas que te gelam o sangue, te infectam os olhos e te roubam ao céu.
Se juntássemos um grupo de médicos (vamos imaginar) à tua volta e te abrissem,
te dissecassem num bloco operatório, talvez encontrassem,
lá, nas tuas profundezas, o mais (in)visível de todos os tumores
        e não saberiam que nome lhe dar.
Ou então (imaginemos ainda) algum, dentre eles, pudesse sussurrar, muito baixinho,
que talvez o nome da doença fosse este: ‘desamor’.
É um conceito arcano, que lhes é estranho, a estes que são médicos dos que dissecam;
deixa-te dissecar, eles lá hão-de chegar…
                    (escuto-os, discutindo o caso),
dizem que des- é prefixo antitético à coisa que precede,
ergo o teu mal é uma ausência. Ah, vai ficar tudo bem,
de ausências percebem eles, princípio básico da medicina…
mas espera, eles estão confusos…esta ausência não é da medicina deles.
Pois está claro, enfim.
             Estás dissecado no ninho, tremendo;
está frio; está mais frio dentro de ti, não é do sangue que perdeste.
Chove, e as gotas de chuva molham-te, tentam lavar-te. Chove –
e, porque o Céu chora, ninguém nota que tu também choras.

ii.

(o vôo do pássaro de fogo)

[o pássaro de fogo já se deixou queimar. chove ainda sobre as cinzas;
ele emerge lentamente delas, mais trôpego ainda, feio.
                       
Aparecem as asas – ele abre-as e voa.
Mas não são feitas as perguntas: para onde?, para quem?, aterrará?
Ou serão espinhos também, como estes que arderam, a sua cama renascida?]

Tomás Ferreira

 

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