Águas Paradas, Tomás Ferreira

Quão longamente se pode navegar
nas estáticas águas da solidão
sem nos penedos rochosos naufragar,
perdido o sonho, a esperança, a razão?
Quão longamente no deserto
da vida em vão vaguear,
bebendo apenas de ilusão, ensandecida bebedeira
de um dia que não chega, que perto
se deseja, urgente, longe só se lobrigando?

Quanta tristeza e desapontamento,
quanto desgosto e sonho maldito
pode conter a minha mirrada estatura?
Quão longamente o isolamento,
na minha condição de proscrito,
cinzelar as formas desta lúgubre figura,
sem que de terminal esquecimento
morra a anima, doente sem tratamento?
Não vi, em narcisística contemplação perdido
de um futuro comum – maravilhamento! -,
que a vida é somente um espelho partido.

Engula-me o mar negro, tóxico, ominoso,
leve-me para os oceânicos abismos;
fracture-se o solo, verde, vivo, mimoso,
sob meus pés abra-se a terra em tremendos sismos!
Sufoque-me o ar inalado com doces odores, dolorosas
Fragrâncias; atice-se um fogo furioso
das cinzas de felicidades mentirosas.

Leve-me a Morte deste parco, rotundo,
cíclico, triste, nevoento, sinuoso mundo
onde já não tenho esperança de viver,
já, tão-só, de estar e de ser, talvez;
já, somente, de existir.

 

Tomás Vicente

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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