“A grande estátua equestre do imperador Domiciano” – Poema I,1 das Silvas de Estácio

Tradução do latim de Ana Margarida Silva.

Tradução de Ana Margarida Silva.
Revisão de Marcos Helena
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Que construção, duplicada pelo colosso sobreposto,

Se ergue abraçando o Foro Latino? Porventura a obra já pronta

Desceu do céu? Ou a estátua, modelada nas forjas sicilianas,

Deixou cansados Estéropes e Brontes [1]?

Ou as mãos de Palas [2] te reproduziram para nós,

Germânico [3], tal qual ainda agora o Reno e a inacessível morada do

Aterrorizado Daco te viram segurando as rédeas [4]?

Agora vamos, que a fama antiga admire o renome do

Cavalo Dardânio [5], conhecido por séculos, para quem decresceu

O cimo sagrado do Díndimo e o Ida [6] com as frondes cortadas.

Este cavalo nem Pérgamo teria contido nos seus muros derrubados,

Nem os rapazes e as raparigas solteiras em bando misturado,

Nem o próprio Eneias ou o grande Heitor o teriam conduzido.

Além disso, aquele foi funesto e envolveu os cruéis Aqueus;

Um gentil cavaleiro recomenda este [7]: é agradável contemplar o rosto

Marcado com os sinais da guerra e levando a cabo a plácida paz.

E não se considere isto exagerado face à realidade: igual é a beleza e graça,

Igual é a honra. Terminadas as guerras, não mais ilustre o cavalo

Bistónio [8] transporta Marte e se enche de orgulho por tão

Enorme carga e, lançando-se com rápida corrida perto dos rios,

Expira e com a forte respiração faz recuar o Estrímon [9].

O lugar é conveniente à obra. Daqui abre o limiar acessível

Aquele [10] que, cansado pelas guerras, primeiro mostrou

O caminho para o céu aos nossos deuses, com o presente do filho adotivo.

Do teu rosto ele aprende o quanto tu és mais brando nas armas,

Que nem contra as loucuras estrangeiras te enraiveces facilmente,

Não defraudas os Catos e Dacos [11]: carregando tu as insígnias,

O genro menor e Catão ter-se-iam submetido às leis de César [12].

Mas, de um lado, a extensão dos flancos protege os telhados Júlios,

Do outro, a sublime basílica de Paulo guerreiro,

O pai e a Concórdia veem-te as costas com o rosto brando [13].

Ora, tu próprio, cercada a tua cabeça suprema de ar puro,

Brilhas acima dos templos e pareces estar a ver se

Novos palácios [14] vão erguer-se mais belamente, desprezadas

As chamas [15], ou se o fogo Troiano está vigilante com a

Silenciosa tocha e já Vesta louva as sacerdotisas aprovadas [16].

A tua mão direita impede os combates; a virgem Tritónia [17]

Não pesa sobre a mão esquerda e estende o pescoço da Medusa degolada,

Como se incitasse com ardor o cavalo; e, em parte alguma,

O lugar escolhido para a deusa seria mais doce, nem mesmo se tu, Pai [18], a segurasses.

O teu peito é tal que seria capaz de tirar as inquietações do mundo

E por isso Témese [19] esgotou-se, deu todos os metais.

A clâmide está pendurada nas tuas costas. O flanco está seguro

Com a espada em repouso, tão grande quanto a lâmina com que

O grande Oríon ameaça nas noites de inverno e aterroriza as estrelas [20].

Mas o cavalo, imitando o aspeto e o espírito do dono,

Levanta mais orgulhosamente a cabeça e ameaça a corrida.

O pescoço ergue-se com as crinas hirtas, um ímpeto cheio de vida passa

Pelos ombros e os flancos amplamente expostos aguentam

Tamanhas esporas. Em vez de um torrão de terra desocupada,

O casco de bronze pisa os cabelos do cativo Reno [21].

Aríon de Adrasto [22] ter-se-ia apavorado com esta visão

E, olhando do templo próximo, Cílaro [23] de Leda tem medo.

Este cavalo nunca mudará as rédeas do seu senhor,

Será constante ao seu freio e obedecerá a uma só estrela [24].

O solo dificilmente aguenta e, por baixo, a terra

Está ofegante, ocupada por tão grande peso. Não é bronze nem ferro,

É o génio que a sobrecarrega, embora o suporte um pedestal eterno

Que aguentaria sobre si os cumes de uma montanha

E teria resistido esmagado pelo joelho de Atlas que sustenta o céu.

Não se arrastaram longas demoras. A própria figura presente

Do deus [25] auxilia os trabalhos e a juventude dedicada à obra surpreende-se

Ao perceber que as suas mãos têm mais poder. A elevada maquinaria

Ressoa com a agitação; o contínuo ruído espalha-se pelas sete

Colinas de Marte e vence os errantes murmúrios da grande Roma.

O próprio guardião do lugar [26], cujo abismo sagrado e

O famoso lago preservam o memorável nome,

Assim que ouve os inúmeros ruídos do bronze e o Foro repercutir

Com os golpes violentos, ergue o áspero rosto

Em posição sagrada e a cabeça venerável com a merecida coroa de carvalho [27].

Primeiro, assustou-se com o aspeto colossal e com a luz vibrante

Do mais ilustre cavalo e, receando, três vezes mergulhou

O elevado pescoço no lago. Depois, feliz com a visão do governante, disse:

 “Salve, descendente e pai de grandes deuses [28],

Poder divino conhecido por mim há muito tempo. Agora feliz,

Agora venerável é o meu pântano, quando me foi concedido

Conhecer-te de perto e contemplar o teu brilho imortal num lugar próximo.

Uma só vez eu fui o autor e promotor da salvação do povo de Rómulo:

Mas tu vences as guerras de Júpiter [29], as batalhas do Reno [30],

A impiedosa guerra civil [31], tu, com longa guerra, submetes

A lenta montanha aos tratados [32]. Se os nossos tempos te tivessem

Gerado, terias tentado lançar-te no profundo lago, caso eu hesitasse,

Mas Roma teria segurado as tuas rédeas.”

Ceda o cavalo [33] que, em frente ao templo de Dione Latina,

Se ergue na sede do Foro de César – o qual, diz-se, que tu,

Lisipo, ousadamente fizeste para o chefe de Péla e, pouco tempo depois,

Surpreendeu-se ao trazer no pescoço o rosto de César. Dificilmente observarias,

Com olhos cansados, o tão extenso panorama que vai daquele cavalo até este.

Quem seria de tal forma ignorante que, tendo visto ambos,

Não diria que diferem tanto os cavalos quanto os seus líderes?

Esta obra não teme os invernos chuvosos nem o triplo raio

De Júpiter, nem as hostes do cárcere de Éolo [34] ou a lenta

Passagem dos anos: permanecerá enquanto durarem a terra e o céu,

Enquanto durarem os dias de Roma. Aqui e sob o silêncio da noite,

Quando os mortais agradam aos celestes, a tua turba [35]

Deslizará do abandonado céu e misturará beijos por perto.

Filho e irmão, pai e irmã virão para os teus braços;

Só o teu pescoço dará um lugar a todas as estrelas [36].

Aproveita para sempre o presente do povo e do grande

Senado. As ceras de Apeles [37] teriam desejado reproduzir-te,

O velho ateniense [38] teria querido colocar a tua imagem num novo

Templo de Júpiter de Eleia, a doce Tarento teria preferido

O teu rosto [39] e a áspera Rodes, desprezando Febo [40], antes quereria

Os teus olhos que reproduzem as chamas das estrelas.

Que, determinado, ames as terras e tu próprio habites os templos

Que a ti dedicamos e não te agrade o palácio do céu. Que, feliz,

Vejas os teus descendentes a oferecer incenso a este presente.

Notas:

[1] São dois dos Ciclopes que, juntamente com Vulcano, forjaram o escudo de Eneias (Aeneid 8.424-425).

[2] Deusa Atena (na cultura grega) ou Minerva (na cultura romana), de quem Domiciano se considerava descendente.

[3] Apelido adotado por Domiciano, no final de 83, no seguimento do triunfo sobre os Dacos e o povo germânico dos Catos.

[4] Referência às vitórias de Domiciano sobre os Catos (83 d.C.) e Dacos (89 d.C.).

[5] Cavalo de Troia (Aeneid 2.232-240).

[6] São dois montes da Frígia: Díndimo é o monte sagrado a Cíbele e Ida é o monte do qual Epeu retirou madeira para construir o cavalo de Troia (Apollod. Epit. 5.14).

[7] Domiciano.

[8] Da Trácia, povo conhecido pela sua belicosidade.

[9] Rio que banha a Trácia.

[10] Refere-se ao templo que, em 27 a.C., Augusto dedicou ao seu pai adotivo, Júlio César, e que estaria em frente à estátua de Domiciano. Júlio César foi o primeiro a ser divinizado e a sua apoteose precedeu as dos imperadores.

[11] Cf. nota 3.

[12] Pompeio e Catão de Útica, oponentes de Júlio César.

[13] A estátua é ladeada, à direita, pela Basílica Júlia e, à esquerda, pela Basílica Emília restaurada por Lúcio Emílio Paulo em 55 a.C. Atrás da estátua estão o templo de Vespasiano (pai de Domiciano) e o templo da Concórdia.

[14] Provável referência à Domus Flavia.

[15] Alusão ao incêndio do ano 80 d.C. que durou três dias.

[16] As Vestais mantinham aceso o fogo sagrado que tinha sido trazido de Troia. No seguimento das reformas morais que caracterizaram a época de Domiciano, algumas virgens Vestais, incluindo Cornélia – a virgo Vestalis maxima (suprema Vestal), foram acusadas de falta de castidade e condenadas a serem enterradas vivas.

[17] Refere-se à estatueta da deusa Minerva que Domiciano tinha sobre a mão esquerda.

[18] Júpiter, pai dos deuses, mas especialmente desta deusa que nasceu da sua cabeça.

[19] Cidade da Magna Grécia conhecida pelas suas valiosas minas de cobre.

[20] Alusão à constelação de Oríon, visível especialmente nas noites de inverno. Na mitologia, Oríon era um caçador que se apaixonou por Diana e acabou metamorfoseado em constelação, onde estava representado segurando a sua espada.

[21] O rio Reno ficava junto dos territórios ocupados por Domiciano na sequência das campanhas da Germânia. Neste sentido, funciona como personificação da Germânia conquistada.

[22] Aríon era o cavalo filho de Neptuno e Ceres que teve vários donos, um deles foi Adrasto, rei de Argos.

[23] Cílaro era o cavalo atribuído a Castor por alguns autores e, por outros, a Pólux. Estácio associa-o a Leda, mãe de ambos, assumindo que o cavalo pertenceria aos dois. Perto da estátua de Domiciano erguia-se o Templo dos Dioscuros, dedicado aos dois irmãos.

[24] Ao contrário de Aríon e Cílaro que tiveram vários donos, o cavalo de Domiciano obedecerá apenas a ele, que tal como Castor e Pólux era uma estrela.

[25] A própria estátua de Domiciano.

[26] Marco Cúrcio que, segundo narra Tito Lívio, em 362 a.C., na sequência de um tremor de terra que provocou um fosso no chão da cidade, se lançou a cavalo e ornado com todas as suas condecorações militares para dentro do abismo. Segundo os oráculos, os deuses só ficariam satisfeitos quando fosse lançada no fosso a principal força do povo romano, que Marco Cúrcio interpretou como sendo a coragem e as armas dos seus exércitos. Depois, o fosso encheu-se de água e o lugar ficou conhecido como Lacus Curtius que se situava perto do local onde se erigiu a estátua de Domiciano.

[27] Coroa cívica concedida a quem salvasse a vida de um cidadão romano.

[28] Domiciano é filho de deuses enquanto filho do divus Vespasianus e da diva Domitilla e pai de deuses uma vez que foi pai de um divus Caesar que morreu precocemente.

[29] Alusão à bellum Vitellianum de 69 d.C., uma luta que opôs os apoiantes de Vitélio aos de Vespasiano no Capitólio e em que o Templo de Júpiter acabou por arder.

[30] Campanha contra os Catos, povo germânico.

[31] Revolta de António Saturnino, governador da Germânia Superior, em 89 d.C.

[32] Refere-se à campanha contra dos Dacos que habitavam numa região montanhosa. A guerra terminou com um tratado de paz acordado entre Domiciano e o rei Decébalo, líder dos Dacos.

[33] Bucéfalo, o cavalo de Alexandre, o Grande que Lisipo esculpiu numa estátua equestre do rei macedónico. A cabeça de Alexandre tinha sido, entretanto, substituída pela de Júlio César e a estátua encontrava-se no Forum Iulium em frente ao templo de Vénus Genetrix, chamada Latina enquanto mãe de Eneias e da gens Iulia da qual fazia parte Júlio César.

[34] Éolo aprisionava os ventos numa caverna.

[35] Os membros da família imperial deificados.

[36] Cf. nota 35.

[37] Famoso pintor grego do séc. IV a.C.

[38] Fídias, célebre escultor ateniense do séc. V a.C.

[39] Na cidade de Tarento erguia-se uma estátua colossal de Zeus concebida pelo escultor Lisipo.

[40] Referência ao Colosso de Rodes que representava o deus Sol.

Edições e comentários

Bailey, D. R. S. (ed. & trad.), Statius. Silvae. Cambridge: Harvard University Press, 2015.

Izaac, H. J. (trad.), Stace. Silves (tome I). Paris: Société d’édition «Les Belles Lettres», 1961.

Geyssen, J. W., Imperial Panegyric in Statius: a literary commentary on Silvae 1.1. New York: Peter Lang, 1996.

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