Um artigo sobre Júlio Dinis

Texto de Sebastião Viana.
Imagem: O Grupo do Leão, por Columbano Bordalo Pinheiro.

A Geração de 70, que tanto revolucionou as nossas belas letras no que consta às abordagens feitas a respeito tanto da política como da sociedade, poderá não ter sido assim tão simpática com alguns autores que nos dias de hoje apenas conhecemos como nome de rua. Não fosse António Feliciano de Castilho o principal adversário do cenáculo de Antero e talvez fosse mais um dos que nem saberíamos que foram poetas! Se o amável leitor me permite uma pequena digressão, diga-se, de passagem, que foi um poeta brilhante e que, se outro autor não requeresse neste artigo o meu préstimo, tê-lo-ia apresentado como um Homero de oitocentos, ambos de olhos fechados para a vida, mas de olhos abertos para a Arte.

Neste artigo falaremos de um autor que tal como Castilho também sofreu das asperezas de que a dura Realidade é feita, falaremos pois de Júlio Dinis, pseudónimo do médico Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que por ironias da vida não conseguiu escudar-se da tuberculose, apesar da prestigiosa profissão que exercia. A vileza que Júlio Dinis sofreu refletiu-se num comentário que lhe debitou Eça de Queirós e que, soando como um epitáfio, rastejou da luz da redenção social que são as palavras de Eça e, de boca em boca, veio-se transladando para debaixo do nome que conhecemos como Júlio Dinis; são essas palavras “viveu leve, escreveu leve e morreu leve”. Tais palavras foram empeçonhando a obra dinisiana, dando-lhe uma certa leveza que a vai afastando do cânone literário e que repugna o crítico que procura uma obra que o desafie. Essa “leveza” a que aludia Eça deve ser vista como um produto da convivência pacífica entre uma sensibilidade romântica e uma sensibilidade realista na obra dinisiana. Não concordando que livros de 500 páginas, passíveis de serem utilizados como armas de arremesso, sejam propriamente leves, procurarei aludir a vários pontos de que a crítica já deu conta, à medida que exalto as virtudes de uma obra ‘desconhecidíssima’ nos nossos dias a que o autor chamou A Morgadinha dos Canaviais. A ironia da afirmação advém da minha certeza de que esta obra é inédita para o amável leitor que, por engano, teve o azar de a ver numa estante da sua livraria preferida ao lado de uma obra como Os Lusíadas, e de ter tido vislumbres de um passado traumático em que anos antes, numa escola secundária, tivera de contar as silabas métricas do Consílio dos Deuses para se assegurar de que realmente Camões tinha escrito em decassílabo, malandrices dos professores de português, não os censuremos por isso.

Na Morgadinha dos Canaviais temos um começo in medias res em que se nos apresentam nada mais, nada menos que um lisboeta hipocondríaco, diletante de S. Carlos, cavalgando pelas matas portuguesas, a caminho de uma aldeia sertaneja do Minho. Naturalmente o amável leitor poderá contar com as boas gargalhadas que o pedantismo do bom Henrique de Souselas lhe irá causar. Este lisboeta, embora não seja a parte principal de nenhum dos grandes enredos da narrativa, funciona como um embaixador narrativo que nos vai introduzindo, aos poucos, em todas as grandes questões da aldeia, como se em parte fossemos nós, leitores de Júlio Dinis, o “aventureiro” Lisboeta. As grandes questões são nomeadamente o problema do fanatismo religioso que vai frutificando e inclusive destruindo lares, e as questões da política local que se debatem na taberna entre copos de vinho e discursos de ébrios. A questão da política local resume-se essencialmente ao estranho caso de uma estrada que se faz, ou não se faz, ou se deixa fazer ou não se deixa fazer, sucesso que seria quase estranho se não aparecesse numa obra oitocentista. Mas esta não é uma estrada qualquer, é uma estrada importantíssima para a obra. De facto, se me fosse concedido o privilégio de outorgar um prémio à obra que mais dramatizou a construção de uma estrada, esta obra seria sem dúvida a escolhida: a sua função no enredo é tão importante que removê-la seria, na melhor das hipóteses, destruir a obra.

É, no entanto, notável que todas as descrições quer dos espaços, quer das personagens tenham uma simbologia inerente. Por exemplo: quando refletimos acerca do “Mosteiro”, casa onde habitam a Morgadinha e a família, e comparamos a bem aventurança da família do Mosteiro aos ensinamentos aterrorizantes dos missionários, poderemos notar que colocar a família principal a viver num mosteiro não terá, de certo, sido uma criação totalmente despropositada. O caso da Família também não deverá passar completamente despercebido: a Família mostra-se como um valor moral de extrema importância na obra dinisiana, começando pela deserotização da figura feminina. A mulher na obra dinisiana não conquista amor pela sedução, mas antes pela capacidade que tem em cumprir a função social de ser uma boa mãe. Em contrapartida, o homem tende também para as atitudes paternais à medida que vai atingindo a idade adulta. O leitor fará bem em reparar nas personagens de Ângelo e Cristininha que só são vistas como homem e mulher quando caminham para o cumprimento da função social que a natureza lhes parece prometer.

Por outro lado, os conflitos que se geram entre as gerações mais velhas e as mais jovens – quer pela inexperiência dos jovens, quer por sinal de mudança dos tempos –também são dignos de menção. O velho ervanário que, nesta obra, vê perder o seu lar e as memórias de infância, figuradas nas companheiras do reino vegetal que com tanto amor cuidou desde o tempo de meninice, representa um tempo longínquo a que já não é possível regressar, assim como uma sabedoria antiga que já não se faz respeitar pelos desejos civilizacionais dos tempos. O conselheiro, apesar de ser da mesma época que o ervanário, é um político da civilização que em muitas partes é dado como alguém que esqueceu o seu tempo e as suas origens – até a própria infância: tópico muito caro a Júlio Dinis. A infância nas obras deste autor molda amores, cria inimizadas e explica quase sempre um ponto significativo do conflito. Imaginemos a casa de Alvapenha, que representa a infância despreocupada e feliz que Henrique de Souselas esqueceu, e que reencontrando e relembrando, se vai tornando num dos remédios milagrosos para as “doenças” a que a sua muito sábia tia apelidara de “manias”.

Todos estes pontos que ilustrei com exemplos tirados da Morgadinha dos Canaviais aparecem universalmente representados na obra dinisiana, permitindo em cada contexto específico uma interpretação leve de cariz moralizadora. Esse tipo de leveza acaba por ser essencial para que até as pessoas menos letradas tirem lições e ensinamentos que as façam ser mais bondosas, mesmo que se requeira sacrifício, porque só através do bem acabam por ser recompensadas, como acontece com Augusto, que tudo sacrificou em função do seu amor.

Por fim, o amável leitor deverá saber que a obra dinisiana é construída com muitos ‘apontamentos leves’ em termos descritivos, querendo com isto dizer que a descrição dos eventos e dos espaços, além de jocosa, costuma ser muito completa e pormenorizada, ao ponto que as personagens se tornem quase palpáveis e é aí que a arte dinisiana se torna bela e funcional. Não querendo que o leitor se refreie de ler a dita obra, considero que seja melhor que nos sentemos à sombra de um choupo e apreciemos os maviosos ecos que nos trazem as palavras daqueles nossos antepassados que, dominando a língua, se mantêm até hoje entre nós e que, por respeito à cultura, nunca deveríamos esquecer.

 

 

Bibliografia:

LEPECKI,  Maria, O Romantismo e realismo na obra de Júlio Dinis. Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa, 1979.

LIBERTO, Cruz, Júlio Dinis. Lisboa: Quetzal, 2002.

RIBEIRO, Marina de Almeida, O simbolismo da Casa em Júlio Dinis. Lisboa: Difel, 1990.

SIMÕES, João Gaspar, Júlio Dinis. Lisboa: Arcádia, 1962.

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