Reflexões de um Deus, Sofia Benedito

Certo dia
Num passeio pela praia
Um deus refletia sobre as ondas do mar.
Primeiramente
Parece-lhe absurda a repetição do movimento,
a simplicidade do seu ritmo
E riu-se, na sua altivez
De velho homem que ascendeu à imortalidade

Distraído no seu monólogo de auto-encantamento
Deixou-se tocar pela espuma
E enfureceu-se.
Quem se atrevia a tocá-lo sem a sua permissão
Numa clara invasão
À sua privacidade?

No entanto,
Logo ouviu os gritos das crianças
Que na sua mortalidade
Se deliciavam com a frescura das ondas
E veneravam aquela figura revolta e imensa,
Qual deus que em vez de se isolar no Olimpo
Tinha descido à terra para viver no meio dos homens
E envolvê-los na sua imensidão.
O deus, comovido
Chorou.
Correu ao Olimpo e pediu para ser homem de novo
Somente para ser pequeno
E sentir, como dantes,
A vastidão dos consolos
Da humanidade.

Sofia Benedito

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