Pessoa e Pascoaes: Entrevista a Prof. António M. Feijó

Entrevista feita por Tomás Ferreira, em 2015.

Gostaria de falar um pouco consigo sobre este seu novo livro [António M. Feijó, Uma Admiração Pastoril pelo Diabo (Pessoa e Pascoaes), Lisboa: INCM, 2015]. O Professor abre este volume dizendo que tem como objectivo questionar algumas das acepções correntes do estudo sobre Fernando Pessoa. Uma primeira pergunta, que talvez seja um pouco ingénuo da minha parte fazer, é: há algum tipo de trabalho percursor desta empresa que o Professor se propõe levar a cabo neste texto?

Na crítica pessoana, que é muito vasta, há alguns textos muito importantes. É possível identificar rapidamente uns cinco ou seis livros, para não falar depois de ensaios dispersos. Por exemplo, a biografia de Pessoa de João Gaspar Simões, uma biografia que se baseia num pressuposto débil do ponto de vista argumentativo, um pressuposto freudiano vulgar. Mas, no decurso da biografia, Gaspar Simões, que era um crítico muito arguto, analisa, por exemplo a questão da heteronímia, que para ele era repulsiva – para ele aquilo não fazia qualquer sentido, estava muito mais interessado no chamado Pessoa ortónimo. Mas, apesar disso, há excelentes argumentos que apresenta em relação a isso. Um outro exemplo muito interessante é o de Agostinho da Silva, que escreveu um livro chamado Um Fernando Pessoa, um livro relativamente curto, em que ele…eu dou-lhe um exemplo! Ele tem um capítulo dedicado a cada um dos heterónimos […] e quando chega a Ricardo Reis diz: Ricardo Reis nasceu no Porto, os habitantes do Porto amam a liberdade, porque têm essa tradição, e Reis, portanto, ama a liberdade. Ele literaliza completamente Ricardo Reis, não se lhe põe a questão de saber se aquilo é uma construção, um filamento da imaginação, não, Ricardo Reis tem a actualidade, a robustez que tem uma pessoa. Portanto, descreve Ricardo Reis como se Ricardo Reis fosse da mesma natureza que Fernando Pessoa, nem sequer é apologético em relação a isso, não apresenta argumento nenhum, entra imediatamente na descrição e a descrição pressupõe essa robustez de quem é descrito. Álvaro de Campos nasce em Tavira. Isto tem um lado de condicionante local também, que ele explica ter um traço semita. Mas se alguém dissesse “Atenção, Álvaro de Campos é uma existência artificial, não é uma pessoa”, seria ininteligível para o Agostinho da Silva daquele livro. E isto é muito interessante porque o confronto do intérprete com estas figuras ganha uma proximidade e uma plenitude de encontro que é invulgar na literatura pessoana. Um outro é o grande livro do Eduardo Lourenço, Fernando Pessoa Revisitado, escrito num momento em que a crítica literária era dominada pelo estruturalismo, e Lourenço vivia em França. A crítica estruturalista tentava surpreender em todos os textos, que são, por natureza, singulares e diversos… – os textos dignos de se ler, estamos a falar dos textos maiores – os textos maiores têm uma singularidade que os identifica, mas a crítica estruturalista dissolvia as singularidades porque procurava surpreender – e, pouco surpreendentemente, surpreendia sempre – a mesma estrutura, ou estruturas idênticas, em cada um dos textos singulares que analisava. De facto, a crítica estruturalista nunca era surpreendente porque no fim da análise deste texto particular encontrava-se a estrutura binária que já tinha encontrado em textos anteriores, embora os elementos das categorias binárias fossem outros, mas as categorias binárias replicavam-se. O estruturalismo literário é uma tentativa de ir buscar algumas das posições que o estruturalismo na antropologia tinha tido – em França centralmente pelo Lévi-Strauss – só que o próprio Lévi-Strauss não percebia como é que o estruturalismo podia ser aplicado à literatura, justamente pela natureza singular dos textos literários. E Eduardo Lourenço, que vivia neste mundo, emancipou-se completamente disto e faz uma análise, que é uma tentativa de descrever todo o sistema pessoano – ele considera que há um sistema pessoano, e eu concordo – e descreve-o a partir do interior, com uma finura muito grande. As coisas mais parecidas que se podem pôr ao lado daquele texto do Lourenço, são análises do início do Sartre, quando o Sartre analisou textos literários e autores com uma agudeza extraordinária. Lourenço tem esta característica notável que é emancipar-se do que é a crítica hegemónica, de um modo singular e de uma inteligência profunda, portanto é um grande livro também […]

Mas, então, em termos de considerar um sistema pessoano, seria sobretudo Eduardo Lourenço, cuja identificação de um sistema pessoano, a existir, teria provavelmente uma forma diferente daquele que o Professor pressupõe aqui. Porque, aliás, o que me aliciou imediatamente aqui foi a extrema clareza dos objectivos, para mim, como leitor, revolucionários, de observar um sistema pessoano dominado pela unidade e pelo domínio de Pessoa de tudo aquilo que escreveu.

O ponto que está a fazer é crucial. Jacinto do Prado Coelho tem um livro chamado Unidade e Diversidade em Fernando Pessoa, e o título explica-se porque, tendo Fernando Pessoa criado os heterónimos, isto parece caracterizá-lo pela diversidade, porque há o Pessoa-Alberto Caeiro, há o Pessoa-Ricardo Reis, há o Pessoa-Álvaro de Campos, há o Pessoa-António Mora, há o Pessoa-Bernardo Soares, etc. Mas ao mesmo tempo, isto levanta depois o problema de saber o que unifica esta dispersão, e o Jacinto do Prado Coelho tentou analisar isto. Eu, na contracapa desse meu livro, aliás por sugestão de um amigo, digo que o livro se podia chamar Unidade e Unidade em Fernando Pessoa, porque a minha ênfase é na unidade. Um autor como Pessoa, mesmo quando, aparentemente está a incorrer num esforço, que pode ser voluntário, ou então num rapto involuntário de si mesmo, de despersonalização, e a assumir uma outra face ou uma outra expressão, é sempre uma personalidade que domina todo o sistema. E isso é interessante verificar até em lugares um pouco inesperados…Eu falei há pouco da biografia que Gaspar Simões escreveu. A biografia descreve o padrasto do Pessoa, que ocupou a posição do pai, como sendo uma espécie de ogre…e isso é historicamente falso, a relação era afectuosa, mas a ele convém-lhe que a figura do padrasto seja “edipianamente” opressiva. Mas Gaspar Simões, entre 1929 e 1935, é o correspondente mais assíduo de Pessoa. Nessa correspondência, a certa altura Pessoa reage a um ensaio em que Gaspar Simões fala de alguns destes aspectos que vai tratar na biografia muitos anos depois, sem que nenhum dos dois pareça suspeitar que isso vá acontecer. E Pessoa responde explicando-lhe que o freudianismo que Simões usa é impertinente de um ponto de vista crítico quando pretende que a categoria central da obra do Pessoa é a saudade da infância e que isso se revela em vários lugares…e Pessoa responde dizendo que nunca teve saudades da infância e – numa carta célebre sobre o poema “Ó Sino da Minha Aldeia” – esse “sino da minha aldeia”, explica ele ao Gaspar Simões, é o de uma igreja no Chiado. Ou seja, é o Pessoa pré-póstumo a impugnar a biografia dele que anos depois Gaspar Simões escreverá. A crítica antecede o objecto. Ainda não há livro, ainda não há biografia, mas o Pessoa faz-lhe a crítica e, se Gaspar Simões tivesse tido atenção à crítica, não teria incorrido no erro, embora também se possa dizer que a biografia tem um lado levemente agressivo contra essa posição que Pessoa tomou nessa carta, dizendo-lhe “olhe que isso é impertinente”; e, obstinadamente, Gaspar Simões insiste. Mas o que é interessante é dizer que a força do Pessoa é tal que ele intui este movimento e imediatamente o desconcerta antes de ele ter existência.

O Professsor, se não interpretei mal as suas palavras, no primeiro capítulo trata da impessoalidade, da pretensa impessoalidade da obra do Fernando Pessoa, como sendo um movimento deliberado de Pessoa de um certo encobrimento de si próprio, não como uma tentativa de fragmentação clínica, mas como um projecto artístico…

Isso é um ponto curioso que merece referência a um outro capítulo do meu livro, que diz respeito à relação entre Cesariny e Pessoa. Cesariny escreveu um livro sobre Pessoa, O Virgem Negra, que é, como livro de poesia, um livro notável – Cesariny sendo um dos grandes poetas do século vinte português. Cesariny tentou expor naquele livro a homossexualidade que Pessoa teria ocultado. Cesariny faz versões de poemas de Pessoa, expondo, de modo flagrante, o conteúdo encoberto da homossexualidade. E ele [Cesariny] tem alguns problemas que tem de resolver em relação a isto. Porquê esta exposição pública?  Cesariny está a fazer um outing do Pessoa, mas quando se faz um outing hoje de alguém é porque quem faz o outing assume que a pessoa exposta quer encobrir a sua identidade real. E Cesariny, na exposição que faz de Pessoa, é expõe, com  violência, conteúdos gráficos sexuais na desocultação que faz. Cesariny, por exemplo, transcreve uma quadra de um poema do Reis onde intuiu que haveria qualquer encobrimento dessa natureza. Ricardo Reis estaria a encobrir um conteúdo sexual homoerótico numa sua Ode. É interessante que Cesariny tenha escolhido essa estrofe, porque corrigiu a estrofe, sem se aperceber, transcreveu-a mal. E a estrofe corrigida que Cesariny transcreveu faz gramaticalmente todo o sentido – mas no original há um problema de género gramatical e sexual, que Pessoa intencionou como tal. O que eu explico nesse capítulo é que há um texto do Álvaro de Campos sobre aquela ode do Reis em que Álvaro de Campos assinala o erro de género dessa palavra e diz que Reis estava aí a dirigir-se a um rapaz, dizendo-lhe que não fugisse, e, portanto, Campos identifica a ode de Reis como tendo um conteúdo homoerótico. A exposição que o Campos faz de Reis é muito mais precisa do que a que faz Cesariny. Portanto, Pessoa, através de Campos, já tinha feito o outing do Reis. Ou seja, tal como na relação com Gaspar Simões, Pessoa, em relação à exposição do Cesariny, Pessoa já está à frente do intérprete. Pessoa dispõe um indício no poema de Reis, depois noutro texto de Campos expõe o indício, expõe a verdadeira natureza daquele indício, ou seja, é como se Pessoa estivesse numa dimensão em que faz um cálculo destas coisas, e há deliberação e há controle nisso – e, de novo, o Pessoa precede o crítico, excede o crítico. A minha posição é a mesma em relação à impessoalidade. A impessoalidade é outro modo de dizer que o Pessoa não tem identidade, fragmenta-se nos heterónimos e em si não é nada, é apenas o lugar vazio onde estes heterónimos surgem, estando ele ali como uma espécie de parteira neutra por intermédio de quem aquelas coisas surgem em si. O próprio Pessoa encoraja esta descrição, encoraja várias descrições sobre si mesmo, algumas delas não muito precisas, do que seria a sua natureza fundamentalmente dramática. Mas as descrições da poesia moderna que insistem na impessoalidade do poeta são falsas. O exemplo maior é T.S.Eliot,  que teoriza um modelo de impessoalidade do poeta que foi o mais influente na crítica de expressão inglesa do século XX. Em Eliot, esta descrição da impessoalidade está corroída de evasivas. Contra a impessoalidade, Pessoa é, de facto, soberano em relação a tudo o que escreve, incluindo nos escritos mediúnicos, porque os escritos espíritas, em princípio, não têm controle, ele apenas transcreveria o que lhe ditam. Mas quando os analisamos, vê-se que fazem parte do sistema, são coextensivos aos poemas, aos textos teóricos e críticos do Pessoa. Tudo aquilo é coextensivo entre si, e revela deliberação.

E uma soberania do Pessoa face a tudo aquilo…De certo modo, em que todas estas peças que vão ser manipuladas por ele – e mal interpretadas por outros por serem manipuladas por ele – estão sujeitas à sua manipulação suprema.

É, exactamente. Isto é, há uma espécie de meta-nível em que Pessoa delibera tudo o que faz. Evidentemente pode dizer-se que há impulsos, e aqui onde esses impulsos parecem menos controlados é no caso de Álvaro de Campos, porque é difícil defender que a histeria está a ser exposta sob controle, mas isso não é impossível. No caso do Pessoa, mesmo quando se permite perder o controle, as perdas de controle são uma forma de controle naquele momento. Desse ponto de vista, a impessoalidade do Pessoa parece-me, criticamente, uma construção errada.

E um daqueles, como dizer, “amores” da crítica que se revelam falsos, amores que são quase projectados no vazio.

É, exacto. Claro, aliás porque hoje, como nas últimas décadas, e até mais do que nas últimas décadas, há uma literatura sobre a destruição do sujeito, o elogio do desastre, que tem apelo para muita gente, se encontrarmos um autor desta magnitude que parece encorajar algum destes movimentos, o intérprete sente-se em casa e acha que é mais uma elaboração desse ponto prévio que já conhecia.

E torna-se um crítico-artista de um autor sobre o qual o crítico não pode ser artista porque o autor está além da arte desse crítico.

Sim. Um autor desta magnitude está sempre à frente do intérprete. Por exemplo, a minha posição é a de uma tentativa de descrição do que me parece ser o seu sistema. Evidentemente, isto tem uma série de pressupostos: em primeiro lugar, que há um sistema; em segundo lugar que esse sistema resulta de deliberação; por fim, ver se a análise suporta isto.

Em relação a este ponto preciso, gostava de lhe fazer uma pergunta em relação modo como liga Teixeira de Pascoaes ao sistema de Pessoa, à prova da unidade do Pessoa. Pascoaes, na descrição, na análise que o Professor faz dele, parece uma figura que quase excede Pessoa em interesse.

Pessoa sempre reconheceu Pascoaes como o seu contemporâneo maior e há uma fase…aliás, eu nesse capítulo tenho duas notas de rodapé sobre a descrição que Agustina Bessa-Luís faz de Pascoaes. Agustina Bessa-Luís escreveu um livro em 1958, que é um roman à clef sobre o Pascoaes, O Susto. O Susto é sobre Pascoaes – aliás, logo depois houve uma polémica com o irmão mais novo do Pascoaes, que achou que aquilo era um retrato inaceitável da família, e teve uma polémica com a Agustina Bessa-Luís no Jornal de Notícias em 59 – mas o romance de Agustina não é só sobre Pascoaes. A personagem central é Pascoaes, sob a forma de um Tolstoi envelhecido, no fim da vida, mas ela põe também em cena Pessoa. E tem uma intuição profunda da relação entre ambos, porque, não dispondo de tudo aquilo de que nós dispomos hoje; dispunha do Pessoa publicado pela Ática…já com o ortónimo e os heterónimos, tudo o que é central, mas depois apareceram muitos inéditos…dispunha da biografia do Gaspar Simões, e ela descreve a relação entre Pessoa e Pascoaes dizendo que é a relação central de ambos. Pascoaes, no entanto, é um escritor de acesso difícil por duas razões centrais. Tem uma carreira muito longa e tem uma fase inicial que é essencialmente poética no sentido de escrever verso, e uma segunda fase em que escreve essencialmente prosa, e em que os lugares maiores são as cinco biografias de que eu falo, mas há alguns outros textos que têm a mesma força e a mesma dimensão delas. As dificuldades de acesso ao Pascoes vêm de a poesia dele ser pré-modernista no idioma, e apesar de muito precisa, o leitor de hoje vê aquilo como um lirismo chilro, transparente demais. Mas aquilo corresponde a um sistema, esse sim ainda mais preciso do que o de Pessoa. No entanto, esse sistema não é imediatamente visível e só se torna perceptível nas cinco biografias, que são o melhor modo de entrar no Pascoaes. Nas biografias, há um sistema gnóstico, maniqueu, que eu descrevo, de uma audácia especulativa única em Portugal, não há nada sequer remotamente parecido. Através disso, é possível começar a perceber todo o universo. A segunda razão é porque Pascoaes foi apropriado pela chamada Filosofia Portuguesa, que o viu como teórico do saudosismo e representante de uma série de coisas muito queridas à Filosofia Portuguesa e em relação às quais ele tem, de facto, textos em que defende pontos dela. Mas em Pascoaes isso deve ser visto como aspecto de uma coisa muito mais ampla e, normalmente, aquilo é que é o retido.

E esquece-se toda aquela grandeza teológica desconstrutiva que é absolutamente deslumbrante.

E herética, de um ponto de vista normativo religioso. Pascoaes foi decisivo para Pessoa. Num dos aspectos – e este aspecto eu não sou o primeiro a sublinhá-lo – há, por exemplo um poema do Alberto Caeiro em que o Pascoaes é o nome visado– e com grande violência – e esse poema é decisivo porque nós percebemos, tal como o próprio Pessoa o disse, que Caeiro é Pascoaes virado do avesso. E isto deve ser tomado literalmente, Pessoa está a identificar a origem de Caeiro. A sequência do meu livro trata de outros aspectos que têm a ver com estas questões de modos mais incidentais, porque o que eu analiso a seguir é a questão, de que falámos já, da sexualidade na ode do Reis e, a partir da ode do Reis, a relação com Cesariny. E depois a análise de Mensagem, que também costuma ser vista como uma espécie de épica nacionalista, em que explico que há ali uma tensão contrária a isso; e, finalmente, uma análise d’ O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, de que exponho, ou proponho, um modo de ler e tento explicar porque é esse o bom modo.

De novo, uma das razões pelas quais não resisti a trazer este livro para a mesa hoje foi porque vi os conteúdos e precisamente porque me parece que, no ensino da Literatura Portuguesa, quer a um nível académico e em determinados sectores, quer a um nível de ensino básico e secundário, há uma tentativa muito politizada de apropriação das obras naquela lógica do amor projectado sobre coisas que não têm fundamento, como acontece com Camões e como o Professor defende que acontece com Mensagem. Por um lado, o que é que o Professor pensa desta aparentemente irresistível tentativa de um sistema educacional de interpretar mal, deliberadamente, os seus autores centrais para servir, presumivelmente, ideais centrais a uma educação e, ao mesmo tempo, quão prejudicial pode ser essa má apropriação para os próprios autores e obras estudados.

Isso é, realmente, uma questão central em Portugal hoje porque, se nós olharmos para a história da democracia portuguesa desde 1974, que é uma história notável […], se nós olharmos para essa história e olharmos para os actores políticos dessa história, da direita à esquerda, há sempre um momento em que estas pessoas vão exaltar a língua portuguesa, a história de Portugal, os Descobrimentos.

E que é algo que unifica a direita e a esquerda…

É transversal a todo o espectro político, toda a gente se reconhece nisto. Depois há alguns aspectos da história portuguesa que são referidos mas sistematicamente elididos…aliás, até, se são evocados, as pessoas imediatamente recorrem à contextualização para explicar que isso não tinha nada de anómalo na época e que têm a ver com…

Excepto no caso dos Descobrimentos, que são violentamente retirados do contexto e apregoados como espectaculares, o que de facto não corresponde à verdade, como o próprio Camões dá a entender n’ Os Lusíadas

Exactamente! Mas essa leitura de Camões é minoritária, a leitura maioritária é uma leitura de exaltação, transversal. Só que essa exaltação tem alguns problemas. Em primeiro lugar, obscurece uma história menos ilustre, ou seja, se tem aspectos ilustres, no sentido em que há um lado de audácia, de cálculo, etc., extraordinários mas associados a alguns outros aspectos, como o de que Portugal foi o actor maior no tráfico de escravos durante séculos, questão que poucos referem; ou o de termos tido a mais longa Inquisição, entre 1537 e 1821, quando foi finalmente ilegalizada, mesmo se dormente nos anos finais. E todos estes aspectos são elididos. O sistema de ensino é o lugar em que se veicula toda aquela exaltação nacional, faltando referir uma terceira, que é a exaltação da língua portuguesa.

Sim, o português como a quinta língua mais falada e todos estes esforços um pouco obscenos para a unificar, com a ideia de que continuará a ser, por isso, a quinta língua mais falada.

Há aqui algumas coisas que são curiosas. Porque é que alguém há-de dizer que ama a língua portuguesa? Em Portugal, todas as semanas há alguém a dizer que ama a língua portuguesa. Faria sentido um português dizer “Eu amo a língua francesa”, porque, não sendo sua, é natural que alguém ame algo que não é seu e que, não sendo seu, gostaria de fazer seu. É mais bizarro um francês dizer que ama a língua francesa ou espanhol dizer que ama a língua espanhola; quer dizer, é possível, mas que seja uma espécie de afirmação colectiva é estranho.

É um pressuposto, para fazer uma comparação um bocadinho rude, é como amar a família, logo não andar a dizer a toda a gente “Eu amo a minha família”.

Claro. Aliás, seria a mesma coisa que alguém andar a reclamar que é honesto. Seria bizarro, só o dirá em circunstâncias muito particulares…

E suspeitas…

[risos] Sim…Mas portanto, há aqui um problema. Estive há tempos num painel sobre “O que pode uma língua?” e, evidentemente, as pessoas normalmente têm uma ideia exaltada sobre isto. E eu disse que “não pode nada”, uma língua não pode nada: alguém pode fazer coisas com uma língua, mas a língua em si é uma abstracção, e uma abstracção por si não pode nada. Houve um escritor cabo-verdiano que, contra isto, disse que, pelo contrário, uma língua pode tudo. E realmente ele tem razão, embora os dois enunciados sejam idênticos. Uma língua não pode nada e pode tudo. De que é que depende? Da língua? Não, a língua é uma abstracção, não existe enquanto entidade tangível. Há pessoas que falam uma coisa que se convencionou chamar o português. Uma língua vale o que os falantes fizerem dela. A responsabilidade está nas pessoas que falam o português de fazerem algo interessante com a língua que falam. E o que é fazer algo interessante? Por exemplo, em literatura, seria fazer um enunciado memorável. Em certos contextos é diferente, por exemplo, se alguém estiver a fazer um manual de instruções para uma máquina, é ser muito preciso nas instruções. Mas isso é o que alguém fizer com ela. Ou estarmos a entrar em abstracções no domínio ideológico-político de legitimação de si mesmo. Só se fala tanto disso num país quando é necessária uma espécie de compensação da pequenez.

A propósito disso relembro uma afirmação de Eduardo Lourenço, que se referia à excessiva obsessão de Portugal e dos portugueses com a grandeza, em recuperar no presente uma grandeza passada, presentificada nas coisas que ainda tem, que ainda lhe restam, neste caso, a língua e a literatura.

Se alguém está interessado nesse tipo de relação, há duas possibilidades. Ou fala sobre a relação e acha que falar sobre a relação é um modo de ser grande – é como se alguém falasse sobre a magreza e ficasse magro. Falar sobre a grandeza julgando que isso o torna grande é igualmente absurdo, se alguém quer ser grande deverá fazer alguma coisa que o torne grande. O desafio está em que vive, hoje. Mas não pode julgar que pelo facto de eu me lembrar de Diogo Cão, da existência de Diogo Cão vou ser como Diogo Cão. É um bocado absurdo. No entanto, há pessoas, hoje, em Portugal, que fazem e criam objectos que são das formas mais altas das suas práticas. Eu dou-lhe dois exemplos, apenas: o cineasta português, Pedro Costa, que faz algum do melhor cinema que é feito contemporaneamente; Álvaro Siza Vieira, que é decerto um dos nomes maiores da arquitectura hoje. Agora, vamos tomar essas duas pessoas como exemplo. Eles podem dizer que adoram a arquitectura ou que adoram o Murnau, para citar um cineasta que o Pedro Costa poderia admirar, mas isso são frases. Mas depois, ao lado das frases, você pode ter práticas, que podem consistir em frases, mas que de algum modo, quem olhar para essas frases ou para essas práticas poderá dizer que isso integra uma tradição do que de mais alto nessa prática foi feito até hoje. E em relação a isto, só de muito poucos é que nós podemos dizer isso. Depois há a conversa sobre a grandeza e há especialistas de conversa sobre a grandeza – mas conversa sobre a grandeza não é grandeza, como conversa sobre a beleza não transforma quem fala em belo.

Tomando estas suas palavras e voltando um pouco atrás, o que é que esta apropriação ideológica dos textos faz aos próprios textos de que se apropria? De que modo é que esta apropriação ideológica de uma obra pode arruinar a obra de que se apropria?

A Bíblia permite todo o tipo de apropriações – a Bíblia ou outro texto sagrado qualquer. A mera existência de igrejas ou cismas, ou seitas, ou teólogos, é função de não parecer haver a possibilidade de interpretar de um modo que totalize a interpretação. Um texto dessa densidade não é esgotável. É a mera força do objecto que o torna necessariamente polémico, porque nunca haverá leituras que o normativizem. A única coisa que há a reconhecer é que, se há mais uma vez uma pessoa que faz um discurso político no 10 de Junho sobre o facto de que demos novos mundos ao mundo, uma pessoa pode, pura e simplesmente mudar de canal.

Mas no sentido em que, por exemplo, as leituras feitas – e isto digo-o no contexto da experiência que tenho tido com alunos dos ensinos básico e secundário, ao dar explicações – estas leituras um pouco aberrantes de textos como Os Lusíadas e os sonetos de Camões, por exemplo, tendem a afastar o leitor do texto, porque o texto é reduzido a um chavão.

Durante o Estado Novo, a análise de muitos destes textos era saturada ideologicamente. Por exemplo, no caso de Camões, a saturação ideológica atravessava tudo, porque o poema de Camões era oferecido como breviário ideológico do regime, que se reclamava da grandeza presumida no texto e que, portanto, era sua, continuava em si. Isto tem alguns problemas, muita gente da minha geração achava aquilo levemente repelente, era um lugar tão saturado ideologicamente que era inabitável. Quando andava no liceu, apesar de ter Português e Literatura Portuguesa, lia o Sartre, lia coisas à margem daquilo, e no exame final do liceu, tinha que recorrer a alguns truques para poder responder a perguntas sobre uma série de textos que eu desconhecia, porque aquilo era um lugar a que eu não queria pertencer. Mas o grande problema é que a apropriação pelo regime, ou a mera apropriação por um aparato ideológico, ou didáctico-ideológico, é o facto de ao fazerem isso, sonegarem a literatura a quem, noutras circunstâncias, a poderia encontrar. E, portanto, pessoas da minha geração encontraram a literatura portuguesa mais tarde, descobriram que vários daqueles textos eram extraordinários e tinham-lhes sido sonegados porque os tinham recoberto daquele véu ideológico que os tornava repelentes.

No meu caso, tenho um problema muito grande, quando dou explicações, porque os alunos do 10º ano, por exemplo, não percebem sequer porque é que estão a ter que ler um soneto de Camões. Por um lado, porque lhes é dito que têm que o ler e estudar para passar num exame, sob pena de serem castigados – pelos maus resultados no exame -, por outro lado porque não vêem sentido nenhum lá, porque a única coisa que lhes é dada do sentido daquele poema é uma colecção de chavões, de fórmulas e características que têm de decorar e depois, matematicamente, despejar num exame, que é cada vez mais matemático.

Eu não vou falar do presente porque desconheço como é a realidade no ensino secundário – mas suponha que um professor do ensino secundário no tempo do salazarismo tinha que ensinar Camões. Uma hipótese, é ensinar os alunos a escandir sintacticamente o verso, que é uma coisa que eu acho que deve ser feita. As pessoas dizem “ah, não, dividir orações, aquilo matou-me o gosto pelos Lusíadas”, mas isto é duvidoso. Em primeiro lugar porque dá a entender que, se não tivessem tido que dividir orações, continuariam a ler Os Lusíadas; a segunda é que, se eu não perceber qual é a estrutura deste longo parágrafo gramatical que cavalga mais de cinco versos, sou incapaz de perceber o que lá está. Uma coisa a fazer é mostrar como, a este nível, escandir é virtuoso e interessante – e descontar a ideologia e dizer “bem, depois ponham-lhe a patine de ideologia”. Mas se estamos a querer ser práticos no interior de uma aberração, então dizemos “olhe, ponha-lhe a patine ideológica toda, isso você já sabe qual é, demos novos mundos ao mundo, etc. – e agora vou-lhe ensinar a ler”, porque ensinar a ler é o essencial e o aluno torna-se um leitor melhor de tudo o que lê.

Professor, muito obrigado pela entrevista, muito gosto. E espero que se repita, porque é sempre fantástico ouvi-lo.

Muito obrigado!

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