“[…] entre nós e as palavras, o nosso dever falar”

Texto de Youri Paiva.

Foi logo ali, quando ainda não sabíamos, mas já sabíamos, que a Terra girava em torno de si própria, numa rotação de vinte e quatro horas, que Galileu terá dito, mas talvez nunca tenha dito, “E pur si muove!”. A frase pode ter sido dita, ou não, durante o julgamento de Galileu, ou à saída do julgamento, a caminho de casa, ou, antes, numa acesa discussão com alguém, ou ainda num ameno debate. Pode ser que nunca tenha sido dita por Galileu, mas talvez a tenha dito, ou pensado.

Em 1974, gritou-se liberdade nas ruas de Lisboa. “Daqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas”, ouvia-se no Rádio Clube Português. Antes, à meia noite e vinte, a Rádio Renascença pôs “Grândola, Vila Morena” a tocar – a música do Zeca Afonso, aquela que nos diz que em cada esquina há um amigo e em cada rosto vemos igualdade, era a segunda senha para o 25 de Abril. No Rádio Clube Português, o “Daqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas” pedia à população para se manter em casa. A população, as pessoas, muita gente saiu de casa, tomou as ruas, que isto aqui não é só para militares, que isto aqui é para nós, que nós ansiámos muito por este dia. Liberdade, era o que se esperava. O fim do fascismo, o fim daquela maneira obscura de viver.

Liberdades há muitas. Sérgio Godinho, no seu disco À queima-roupa, canta assim: “A paz, o pão, habitação, saúde, educação / […] / Só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar de decidir / Só há liberdade quando pertencer ao povo o que o povo produzir”. Esta canção tem o nome de “Liberdade”. Eis o assunto que está a ser tratado aqui.

Vozes que não se calam, ecoam

No Chile, em 1973, estávamos no dia onze de Setembro quando foi deposto o presidente Salvador Allende. Na rádio, Allende diz que “La historia es nuestra y la hacen los pueblos” e, de seguida, dispara um tiro na própria cabeça. Instala-se uma junta militar e o general Augusto Pinochet torna-se presidente. Nos dias seguintes ao golpe, centenas de pessoas foram assassinadas no Estádio Nacional Julio Martínez Prádanos, em Santiago. Durante a ditadura, mais de três mil pessoas foram mortas e cerca de um milhar desapareceu. Várias empresas públicas foram privatizadas, a economia foi liberalizada, os salários diminuíram, a pobreza generalizou-se e os ricos ficaram ainda mais ricos. Foi um golpe de Estado organizado pelas altas esferas do exército chileno com o apoio da CIA.

Em 2002, ouvíamos na rádio o discurso de Lula da Silva na sua primeira tomada de posse como Presidente da República do Brasil. Disse algo simples e arrepiante: “se, ao final do meu mandato, todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar, terei cumprido a missão da minha vida”. Afinal, o socialismo é tão simples, pensei eu, com os meus 17 anos. Em 2018, Lula da Silva está preso devido a processo duvidoso e Jair Bolsonaro, ex-militar e político incompetente desde sempre, é eleito Presidente da República do Brasil prometendo matar homossexuais, negros, índios e “vermelhos”.

Marielle Franco, vereadora eleita no Rio de Janeiro pelo Partido Socialismo e Liberdade, foi assassinada por defender o oposto do que defende Jair Bolsonaro. No Twitter, Marielle Franco denunciava: “No Rio, já tivemos várias experiências de intervenções desastrosas, como a do Exército na Maré. Ela durou cerca de um ano, no período de Copa e Olimpíadas. Gastou-se seiscentos milhões, um investimento enorme que poderia ser usado em políticas efetivas”. Após o assassinato, milhões de pessoas manifestaram-se no Brasil e noutros pontos do mundo. Nos cartazes: “Marielle, uma flor que virou semente”. Não é por acaso que as bandeiras que vemos em muitas manifestações são vermelhas, de sangue.

De que lado estás?

Não podemos ficar indiferentes. Não podemos não falar. Não podemos não fazer nada.

O músico Pete Seeger fez uma grande recolha de canções populares norte-americanas, daquela música escondida, que não passava nas rádios e que contava a vida difícil das pessoas. Pete Seeger pegou nesse cancioneiro e escolheu, compôs e escreveu novas e velhas canções. Tomou posições, solidarizou-se com os republicanos da Guerra Civil de Espanha e com os soviéticos que combatiam na Segunda Guerra Mundial, com o movimento dos direitos cívicos, com sindicatos e trabalhadores. Formou os Almanac Singers, um grupo que tocava militantemente onde fosse preciso e que devido à quantidade de músicos que compunham a banda podia tocar em dois locais diferentes ao mesmo tempo. Em 1941, dez anos depois da Harlan County War, que opôs a polícia corrupta, a mando dos patrões, contra os mineiros e os seus sindicatos, os Almanac Singers perguntavam “Which side are you on, boy?”. De que lado estás? Do lado da polícia ou do lado dos mineiros?

Nos anos 80, o músico britânico Billy Bragg voltaria a fazer a mesma pergunta: “Which side are you on, boy?”. A ‘dama de ferro’ Margaret Thatcher tinha chamado aos mineiros “inimigos internos” e, enquanto destruía o Welfare State, decidiu fechar as minas e mandar milhares de mineiros para o desemprego. Os sindicatos convocaram greves gigantes, mas a repressão do Estado – que tinha feito uma lei anti-sindical à medida –, da polícia – que carregava sobre os manifestantes – e a desinformação por parte da comunicação social foram implacáveis. Billy Bragg perguntava-lhes, aos políticos, à polícia e aos jornalistas, de que lado estavam. E cantava: “But it’ll take much more than the union law to knock the fight out of a working man”.

Liberdade para mudar e decidir

Liberdade para mudar e decidir; mas as coisas também mudam sem sermos nós a decidir. Há mudanças que podem acontecer à nossa revelia, é verdade, sem nos baterem à porta e sem darmos por isso. Vai sendo decidida, lá nos gabinetes inacessíveis, por doutores que há muito tempo aprenderam a obedecer, a mandar de acordo com o seu posto na hierarquia e consoante as suas necessidades. Vestidos de preto, vão decidindo o que se pode e o que não se pode fazer, o que dá jeito acontecer ou deixar de acontecer.

Em 1955, num autocarro que fazia a sua rota pelas ruas de Montgomery, Alabama, nos Estados Unidos da América, uma mulher negra recusou levantar-se do lugar destinado a brancos para se sentar no lugar destinado a negros. Rosa Parks queria sentar-se onde ela decidisse, queria ter a liberdade de se sentar onde quisesse. Queria ter a liberdade de mudar e decidir a sua vida e, em conjunto com outras pessoas, o mundo. E foi assim que muitas pessoas se juntaram a ela e boicotaram os autocarros em Montgomery durante um ano.

Liberdade para mudar e decidir. Parece coisa pequena, tão fácil. Parece até que é possível, que é hoje mais possível do que foi ontem e, no entanto, esbarramos nas fronteiras, no trabalho, nos muros e nas paredes da escola, nos salários que não nos chegam e nas casas que não habitamos. Esbarramos no Mar Mediterrâneo, nas vedações, nas milícias, nos militares e nas polícias que vigiam linhas de passagem. Esbarramos porque nos pedem documentos, nos serviços académicos, nos aeroportos, nas esquadras e nas fronteiras. Esbarramos porque já não sabemos bem o que procurar e o que querer. Vamos arrastando. Mudar e decidir fica para amanhã, hoje quero descansar.

Liberdade para mudar e decidir só se faz fazendo e falando. “Entre nós e as palavras, os emparedados / e entre nós e as palavras, o nosso dever falar”, escrevia Mário Cesariny, no ano de 1957. Comecemos, então, essa conversa aqui, neste jornal, nos corredores desta faculdade, nos relvados e nos cafés, nas ruas da cidade e nas carruagens do metro. Sem mandar nem obedecer, mas derrubando os muros que nos separam.

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