Entrevista: As crianças devem estar loucas

Conversámos com alguns membros d’As Crianças Loucas, companhia de teatro recém-formada em Lisboa, para tentarmos perceber as suas motivações e preocupações quanto à criação artística. Identidade, memórias e vontades de quem começa a dar os primeiros passos no palco – e não tem medo dos trambolhões. Entrevista de Leonor Buescu.

Entrevista feita por Leonor Buescu.
Imagem: E todas as crianças são loucas. ©António Mendes.

1 ©António Mendes AsCriançasLoucas Bruno Ambrósio, Vicente Wallenstein, Rodrigo Tomás, Fernão Biu, João Sala, Sílvio Vieira e João Cachola

Da esq. para a dir., As Crianças Loucas: Bruno Ambrósio, Vicente Wallenstein, Rodrigo Tomás, Fernão Biu, João Sala, Sílvio Vieira e João Cachola. ©António Mendes

As Crianças Loucas é uma companhia formada há um ano. Quem é que compõe a companhia, qual é a sua organização…?

João Cachola – Na sua fundação original sou eu e o Vicente Wallenstein. Abrimos uma associação sendo que, enquanto companhia, o grupo inicial refere-se essencialmente à equipa do primeiro espectáculo: o Rodrigo Tomás, o Sílvio [Vieira], o [Bruno] Ambrósio, a Madalena… sim, o grupo inicial do espectáculo – o Fernão, o Sala – são as pessoas que formam As Crianças Loucas. A Mariana Magalhães era uma pessoa que já andávamos a cortejar há algum tempo, que já nos estava a ajudar; entretanto estava com trabalho e não podia assumir ainda uma posição mais séria. Mas agora está mesmo connosco. A Madalena já estava connosco – a figurinista – e a Inês juntou-se agora como actriz para fazer este novo espectáculo que vai ser o Lisboawood.

Porque é que sentiram a necessidade de constituir uma companhia num momento em que há grandes constrangimentos burocráticos, logísticos – a ausência de espaços de ensaios… enfim, o que é que pretendem afirmar com o trabalho d’As Crianças Loucas – haverá uma identidade própria, ou isso dependerá dos projectos?

JC – Eu acho que pensámos. Se calhar ainda não sabemos exactamente qual é que é essa identidade porque estamos a tentar construí-la também, e a tentar apalpar terreno. Mas, principalmente, aquilo que nos levou a querer criar As Crianças Loucas foi pensar que estamos num momento em que nos apetece fazer coisas, vermos que o trabalho não é assim tão certo – e que o dinheiro também não é uma coisa que exista assim tanto no nosso ramo do espectáculo… por isso queríamos, acima de tudo, poder pensar sobre temas que nos fazem sentido, questioná-los, construir qualquer coisa sobre isso – construir um espectáculo. E queríamos ter um nome, qualquer coisa associada a isso. A associação surge, principalmente, no sentido de ter uma plataforma que facilitasse pedidos de apoios ou de divulgação do próprio grupo. Para já a nossa linguagem ainda é muito… não é imatura, mas estamos a caminhar no sentido de uma maturidade qualquer. Ainda estamos a tentar perceber exactamente quais são as linhas que queremos trabalhar. Por exemplo, o primeiro espectáculo [E todas as crianças são loucas] ainda foi, de alguma maneira, poético… porque questionava o fim da infância, do momento em que passas de um miúdo, uma miúda – a um adulto. Por isso havia esse romper, uma linguagem mais poética e, ao mesmo tempo, meio rock, e punk, psicadélica… havia algumas pessoas que até brincavam connosco e diziam que parecíamos uma boys band dos anos 60… e nós adorávamos ouvir isso! Achávamos graça. Principalmente porque há uma energia muito jovem – o que é mais assumido ainda no Lisboawood, que é um espectáculo que explora uma onda mais política, poética de uma determinada maneira, porque tem uma forte vertente musical… já é um espectáculo que, apesar de mais silly – não sei se esta é a palavra certa – quero dizer, mais doido, também é um espectáculo bastante mais sério – há essa dicotomia. Também estamos a tentar chegar a pessoas diferentes, a tentar explorar coisas diferentes… a música, se já surgia muito no primeiro espectáculo, neste próximo estará ainda mais assumida.

Madalena Martins – Ainda no outro dia estávamos a falar sobre isto: como é interessante haver pessoas de várias áreas e tentar incorporar coisas diferentes no mesmo projecto. Isso é importante, porque enriquece.

Diriam então que o primeiro passo para se criarem As Crianças Loucas deu-se no sentido de facilitar a criação.

JC – Nós íamos criar As Crianças Loucas de qualquer das formas. Íamos fazer um espectáculo – isso tinha de acontecer. No fundo era decidir, pensando a longo prazo, como é que podíamos criar qualquer coisa – não uma ideia de empresa, mas de plataforma.

MMar – Sem um nome e sem uma estrutura seria complicado se quiséssemos pedir apoios ou falar com alguém. Não haveria nada oficial, e talvez as pessoas não nos levassem a sério. Ter este nome, esta bandeira, facilita.

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E todas as crianças são loucas. ©Leonor Fonseca

Caracterizaram o E todas as crianças são loucas como uma espécie de ritual de passagem, de emancipação, como o passo em frente para a vida e para o desconhecido. Como foi preparar esse primeiro espectáculo? Como foi arranjar o espaço para apresentação, por exemplo, e lidar com todos os constrangimentos de produção, mas também de criação? Qual seria o balanço passado quase um ano da estreia? Há coisas que mudam, agora que vão apresentar o espectáculo em Janeiro no Teatro Nacional D. Maria II?

JC – Há coisas que mudam! No primeiro espectáculo começámos a reunir-nos porque queríamos dialogar, discutir, partir coisas e tentar, com isso, criar algo. Surge sem quaisquer apoios, a não ser o das nossas carteiras, dos nossos pais que de vez em quando nos dão uns almoços, uns trocos. Surge disso, e foi alimentado disso. E alimentado, acima de tudo, de muito amor e de muito carinho das pessoas que quiseram envolver-se com o projecto. As grandes dificuldades… bom, eu penso que soubemos lidar bem com a falta de dinheiro. Isso não foi nunca algo que nos impossibilitou de fazer nada. Ainda tentámos ter uns “apoiozitos”, ir a um festival onde não ficámos… este espectáculo leva um ano e meio a ser construído. Começámos a trabalhar em Setembro de 2016 e só estreámos em Dezembro de 2017. Uma das grandes dificuldades foi decidir. Primeiro, assumir como queríamos fazer as coisas. Como é que iríamos escrever – quais é que eram realmente os assuntos do espectáculo: neste caso, a ideia da emancipação da infância, o fechar da porta de casa dos pais e sair à procura de tudo… usou-se a metáfora do rio como o caminho que é a vida. O espectáculo ia acontecer, desse por onde desse – e nós íamos arranjar forma. Acabámos por fazer nós os investimentos, tanto na procura de materiais que pudéssemos usar para a construção do texto, como para a construção do espectáculo. Fomos reunindo, a falar entre o grupo, a Madalena vem para fazer figurinos – porque se há a ideia de fazermos um texto original, então também vamos querer fazer uns figurinos originais. Na cenografia junta-se a Madalena Castro Wallenstein que faz a nossa estrutura de barco assim, louca. Acabou tudo por ser investimentos próprios, e tivemos a sorte em encontrar um espaço: na altura, o Rodrigo Tomás estava a fazer um espectáculo na Escola de Mulheres; eu e o Vicente [Wallenstein] vamos ver e, no final, a Fernanda Lapa, que já tinha ouvido falar que estávamos a preparar qualquer coisa, ficou interessada e disse para enviarmos o projecto, que ia ver no que podia dar. E por acaso deu. Em termos de apoio, este foi sem dúvida o maior apoio que tivemos, e foi muito mais humanitário do que monetário. Claro que foi monetário porque eles estavam a pagar contas de luz e água; e cederam-nos o espaço durante um mês antes da estreia – o que é uma coisa raríssima, não é muito normal em Lisboa. E isso deu-nos um à-vontade para podermos fazer aquilo que queríamos e bem entendíamos – fazíamos os nossos horários, as nossas montagens, tínhamos a chave… acho que o grande apoio para este espectáculo foi, principalmente —

Mariana Magalhães – O tempo para poder estar a criar…

JC – Sim, tivemos muito tempo para decidir como fazer as coisas. Portanto tivemos calma também… estivemos absorvidos naquilo durante um ano e meio: estávamos sempre juntos, sempre a discutir – e a discutir tudo, a discutir tanto temas do espectáculo, como o que ia acontecendo à nossa volta. Por isso é que depois também vão surgindo ideias para outros espectáculos. Mas aquilo que principalmente fez este espectáculo surgir foi o apoio humano: teres vontade de fazer as coisas, teres um grupo a dizer “ok, não há dinheiro; eu tenho este trabalho, só saio a esta hora…”, tudo a tentar fazer pontes para se conseguir encontrar à hora do ensaio com o texto sabido, com as marcações pensadas, ou mais um tema para discutir… ou então só sem paciência para ensaiar e ficarmos todos sentados a fumar cigarros e a beber coca-cola e imperiais e a comer chinês… coisas deste género. Muda muito a partir do momento em que vais para uma estrutura que te compra o espectáculo. Indo para o Teatro Nacional há coisas que têm de mudar: primeiro, não estamos apenas dependentes de nós, como temos estado até agora. Somos apoiados e acolhidos por um sítio. Agora temos uma equipa que pode estar preocupada em fazer coisas com que nós não temos de estar a lidar – com que sempre lidámos antes, quando estávamos todos na montagem ou nas luzes. De repente podemos ter alguém que só está preocupado em organizar a montagem, enquanto podemos estar preocupados em ter mais tempo de ensaio para apurar outras coisas. Temos dinheiro – o espectáculo é comprado e isso dá-nos também um à-vontade muito diferente. Até agora estivemos a trabalhar sem recebermos grande coisa… não havia dinheiro. Temos estado a trabalhar por valores simbólicos – e não é isso que nos impede de fazer nada, não somos mais infelizes por causa disso. Mas porque, lá está, fazemos outras coisas que nos permitem depois chegarmos aí e estarmos a receber uns trocos.

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E todas as crianças são loucas. ©Leonor Fonseca

Ainda sobre a questão do Teatro Nacional, diriam que esse convite é uma validação do vosso trabalho?

JC – Claro que é. A partir do momento em que existe um Ciclo Recém-Nascidos que, no fundo, serve para divulgar o que de novo está a acontecer no panorama teatral e do qual nós fazemos parte – é uma validação. Isso é claro.

Apresentaram um excerto do vosso próximo espectáculo, Lisboawood, no Festival Exquisito, em Telheiras, em Setembro passado. Como é que está a ser este novo processo? Haverá semelhanças quanto ao que foi a preparação do E todas as crianças são loucas – de métodos de trabalho, de preocupações?

MMag – Não estive tão envolvida no primeiro projecto, como o João já disse. Só consegui depois estar mais presente na reposição do CAL [Centro de Artes de Lisboa]. Mas são projectos completamente diferentes. No Lisboawood temos vinte e três pessoas – dezassete actores e seis músicos em palco. Logo isso são preocupações para conseguirmos que toda a gente esteja em palco com espaço, por exemplo. Termos um palco. Enfim, organizar um espectáculo com uma envergadura completamente diferente – porque também é um musical, uma opereta. O outro tinha componentes musicais, este foca-se muito na música; o outro abordava o crescimento, o sair de casa; e este fala sobre as batalhas que são travadas na cidade —

JC – Sobre manter a casa, encontrar a casa…

MMag –Sim, o passo a seguir; isto agora é como se fosse uma espécie de ciclo. Continuamos na dúvida.

JC – É engraçado. Nós estávamos a comentar isso há dias. O primeiro espectáculo, no fundo, representa a cidade monstruosa, e nós estamos no rio. Mas neste próximo espectáculo somos nós a cidade monstruosa, os habitantes dessa cidade. Por isso é que é um espectáculo muito mais político. Embora o lado poético também esteja todo lá.

Inês Realista – Mas é mais directo.

MMag – Sim, como uma chapada na cara.

JC – Como às vezes tem um tom tão divertido –

MMag – Meio naïf, às vezes…

IR – É o brincar com as coisas sérias…

JC – Exactamente.

MMag – A preocupação que nós temos neste momento é conseguir arranjar os patrocínios, os apoios, o mecenato – estamos a batalhar por isso. E, também muito importante, é termos um espaço de ensaio onde possamos estar à vontade mais uma vez – porque eles tiveram essa sorte de estar lá um mês, um luxo, de estar na Escola de Mulheres. Mas acho que precisamos de mais tempo desta vez porque são muitas pessoas, o João [Cachola] precisa de trabalhar com núcleos de actores, com os músicos – por isso é preciso haver um espaço de criação e um espaço de apresentação que também nos permita estar algum tempo em cena. Para nós seria importante, interessante. São os grandes objectivos neste momento.

JC – Lá está, Lisboawood fala muito sobre a casa, a cidade: como é que conseguimos assentar, criar…

MMag – Nós próprios estamos nisso também, com estas batalhas em encontrar o local de apresentação…

JC – Uma das palavras que eu tinha mais em mente quando comecei a escrever o texto era a palavra ‘manter’. Como é que consegues ‘manter’? Sinto que pesava imenso comigo. Realmente o espectáculo está sempre a falar sobre isso. No caso da Patroa Realista, ela está a tentar manter um negócio familiar no centro histórico da cidade; no caso da filha e do barbeiro, querem manter a relação, criar uma casa; tens um astronauta que quer manter-se em terra, não quer voltar para o espaço porque encontrou alguém e a maneira que arranjou de se manter foi comprar um apartamento no edifício mais alto da cidade… o espectáculo está sempre em torno disso – e connosco é isso mesmo, o momento pelo qual estamos a passar, não só como cidadãos, mas como colegas, como amigos. Estamos a perceber como é que conseguimos ‘manter’ As Crianças Loucas, como é que conseguimos manter uma estrutura sem estarmos dependentes de ter trinta e um trabalhos para poder chegar àquela hora e fazer aquilo de que realmente gostamos.

MMag – É o viver ou o sobreviver, às vezes.

O pagar para trabalhar.

MMag – Pagar para trabalhar.

No fundo, isso é transversal a muitas estruturas do género que não encontram estabilidade profissional.

MMag – Sim, e isso não acontece só neste campo das artes performativas, da cultura – é transversal.

JC – É natural, sem querer acabamos por nos focar muito no lado da cultura.

MMar – Sim, mas penso que é transversal a muitas áreas.

JC – Temos amigos de outras áreas que estão com imensas dificuldades em conseguir trabalho. Estamos a falar de áreas como economia, ciências… as que são tidas como “áreas certas.” Fazes um percurso “certo”, terminas a licenciatura, fazes um mestrado, terminas o mestrado, tens um trabalho, recebes X durante dez anos, nos outros dez recebes mais, dali a trinta talvez sejas CEO de uma grande empresa, e depois embora para a reforma.

MMar – Acho que neste momento já nada é certo.

JC – Também neste momento tens cada vez mais pessoas preparadas para fazer coisas.

MMar – Proactivas.

MMag – É daí que nasce a vontade. Como não consegues, tens de ser tu a arranjar maneira.

JC – Há não muitos anos, a maior parte das pessoas era analfabeta. Neste momento, da nossa idade, uma grande parte em Portugal talvez tenha uma licenciatura. De repente há muito mais gente com mais conhecimento para fazer, para criar oportunidades de trabalho. Então para lá das áreas culturais ainda é mais complicado… acho que é errado dizermos que não há pessoas interessadas em ver, porque isso é mentira. Tu vês o Teatro Nacional no Entrada Livre e está a abarrotar, o MAAT [Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia] celebrou o segundo aniversário na semana passada e estava a abarrotar… as pessoas estão mortas por consumir cultura.

MMar – Estão mais atentas.

JC – A questão é que os acessos não são os melhores…

MMag – Mas estamos a falar de exemplos particulares – o MAAT e o D. Maria… bastante mediatizados.

Talvez porque o público tem uma ideia falaciosa de garantia de que aquilo que vai ver ao Teatro Nacional tem qualidade inerente, só porque é apresentada no seio de uma instituição com alguma influência.

JC – Sim, parece que ires ao Teatro Nacional significa que vais ver o que de melhor está a acontecer no teatro em Portugal.

5©leonorfonseca_1fotografia ensaio Lisboawood Raquel Oliveira, Soraia Tavares e Inês Realista

Ensaio Lisboawood. Da esq. para a dir.: Raquel Oliveira, Soraia Tavares e Inês Realista. ©Leonor Fonseca

Voltando à música: no primeiro espectáculo já estava muito presente, mas há pouco disseste que no Lisboawood ainda vai ser uma coisa mais óbvia. Os ZARCO que tocam convosco fazem parte da estrutura d’As Crianças Loucas, ou a sua participação dependerá dos projectos?

JC – Nós queremos focar-nos em música. Primeiro, porque adoramos música.

MMag – Dá outro ímpeto. Estás a interligar artes…

JC – E nós gostamos mesmo de música. Interessa-nos mesmo também trabalhar música. E depois porque estivemos o tempo todo do primeiro espectáculo com o João Sala e o [Fernão] Biu… bem, que fazem parte d’As Crianças Loucas. Enfim, voltamos à história do dinheiro… nós não temos dinheiro, mas isso não nos impede de trabalhar outras vertentes. No caso da música – se é um trabalho de música que está a ser feito – é um trabalho que merece ficar gravado. Porque é diferente do teatro; no teatro podes recordar através do programa, através da leitura do texto, das fotografias… mas o vídeo toda a gente diz que é anti-teatro. Nós temos uma pessoa, que é o António Mendes, a trabalhar connosco a componente vídeo. Faz os nossos registos, acompanha-nos, faz os videoclips e os teasers. E queremos manter esse trabalho – interessa-nos trabalhar a vertente da imagem em movimento. Interessa-nos muito explorar música, e o primeiro espectáculo tinha esse apontamento mais de orquestração instrumental e de ambiência; este segundo espectáculo é muito forte em termos musicais. O [João] Sala faz parte dos Ganso e dos ZARCO, o Fernão [Biu] faz parte dos ZARCO, toca em várias bandas, entre as quais os Ganso, os Reis da República… quando começámos a discutir o Lisboawood ficaram doidos e disseram que fazia sentido formar uma banda mesmo: “vamos chamar os ZARCO” – que são um grupo de cinco doidos da cabeça que estão a trabalhar uma espécie de rock progressivo, às vezes com uma onda jazz, blues, às vezes meio espacial ou galáctico… doido. E fazia todo o sentido reunirmo-nos com eles e trabalharmos com eles neste projecto. O [João] Sala e o Fernão [Biu] são duas pessoas que continuarão a colaborar connosco, não só como músicos, mas também como intérpretes – no primeiro espectáculo estiveram mais como músicos, neste segundo os músicos têm uma vertente de interpretação mais presente, com momentos em que não são músicos, são actores. É uma coisa que tencionamos continuar a explorar. Há até um outro projecto que o [João] Sala já está a escrever… interessa-nos mesmo construir As Crianças Loucas enquanto espectáculo, enquanto música, enquanto banda, no fundo.

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Ensaio Lisboawood. ©Leonor Fonseca

Vocês fazem um trabalho de comunicação interessante, com ampla divulgação, muito ancorada em suporte vídeo e nas redes sociais. Que constrangimentos encontraram, ou não, na divulgação do vosso trabalho junto do público neste primeiro ano?

JC – Impactante acho que foi. Desde o início, quando começámos a falar de como é que iríamos funcionar em termos de divulgação, fez-nos muito sentido ter vídeo. E que fosse até uma coisa desligada do espectáculo. Quando digo desligado quero dizer de uma forma em que não se veja o espectáculo no vídeo, mas sim um pouco da música e das caras. Eu já conhecia o António [Mendes] há algum tempo de um outro projecto; na altura falámos com ele, que quis logo juntar-se a nós e perceber quais as dinâmicas mais adequadas para o projecto. Também apostámos um bocado em fotografia, e percebemos que neste momento o que está a resultar melhor em termos de promoção e de divulgação serão talvez as redes sociais. E mesmo assim tenho algumas questões porque não sei até que ponto têm impacto e quanto é que revertem realmente em público.

MMar – Havia também a dificuldade de sermos uma companhia nova… as nossas redes sociais tinham sido criadas há muito pouco tempo. Não estavam preparadas para divulgarmos um espectáculo, ou seja, não tinham ainda um público agregado. Por isso havia essa dificuldade de estarmos a congregar público pela primeira vez.

JC – A chamá-lo pela primeira vez para uma coisa nova… não estávamos certos ainda de como iria ser. A grande preocupação depois foi também em termos de design: como é que seria a apresentação do cartaz; qual é que era a imagem d’As Crianças Loucas… e aí junta-se o Francisco Ferreira, que é quem faz todo o design d’As Crianças. E que começou a explorar, a ajudar a criar a nossa linguagem, a explorar uma data de imagens e conceitos. Nós, antes mesmo de começarmos a ensaiar, fomos ao Jardim Zoológico. E na altura tirámos umas fotografias – havia uma de um macaco com a língua de fora a que achámos graça e que acabou por ficar no cartaz. Na altura fez-nos sentido. Apesar de ser bastante diferente, a imagem d’As Crianças Loucas resulta bem por ser muito personalizada desde a fundação. Por exemplo, quando fomos gravar o texto do teaser, decidimos que o monólogo que se diz é aquele de quando estamos a entrar no barco; e no final gravamos a frase a anunciar o espectáculo e a data. E eles, em brincadeira, pediram-me para fazer em voz de criança aquilo que seria a voz institucional. E eu faço uma voz muito aguda, insuportável, mas que eles acharam imensa graça e decidiram manter. É nesse sentido que As Crianças Loucas têm uma vida e uma personalidade própria. Há uma energia que tem de estar sempre presente, seja no espectáculo, seja nas músicas, seja na divulgação. Uma das formas que estamos a pensar fazer para o Lisboawood é o lançamento de singles, uma vez por mês, associado a um videoclip, e que serão independentes do espectáculo porque serão objectos artísticos isolados. Acho que a melhor forma de divulgação neste momento passa não só por teres um plano, mas por que seja o mais variado possível, conseguindo sempre manter uma linha própria.

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Leitura Lisboawood no Festival Exquisito, Telheiras. ©Matilde Cunha

Qual será então o papel de uma nova companhia de teatro? Acham que há coisas que pode alterar na organização do próprio meio artístico português?

JC – Há imensas companhias novas a tentarem criar o seu espaço. Mais do que procurar o espaço, tens de criar o teu espaço. Porque, se o criares, ele vai-se tornando mais forte, mais edificado. Neste momento tens muita gente: Os Possessos, os Auéééu, os Silly Season, o Teatro à Faca, O Outro, o Bestiário, os Pato Bravo… há muita gente da cidade a fazer coisas, a querer criar. Acima de tudo, aquilo que nós podemos fazer para mudar qualquer coisa é sermos nós próprios. Não cedermos quando nos disserem que não; não cedermos quando nos disserem que as coisas funcionam assim e nós acharmos que as coisas podem funcionar de uma outra maneira. E nós, enquanto jovens, enquanto pessoas informadas, o que temos de fazer é estar acima do acontecimento. Nem é acima – é estar à frente. Porque, com a velocidade das coisas hoje em dia, é preciso saber o que estamos a fazer, o que é que estamos a pensar. É preciso podermos contar uns com os outros. Porque sabemos que não há dinheiro, mas se nós não pudermos contar com as pessoas com quem estivemos a estudar, com quem estamos a tentar pensar… o que eu quero dizer é que nós estamos todos a pensar coisas diferentes, mas que acabam por se tocar. As idades são próximas. É interessante ver as personalidades que as companhias têm, quais são as suas características. São todas diferentes. O importante é sabermos o que é que os nossos colegas, os nossos amigos estão a fazer – estar em contacto.

MMar – Acho que é sempre de aplaudir o risco de as pessoas estarem a fazer alguma coisa. Boa ou má, elas estão a trazer um novo input para o sistema.

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