Raio-X. Conheça de que cursos da FLUL fogem mais alunos e quais é que têm menos desemprego

Há cursos que chegam a perder mais de 40% de alunos no primeiro ano de aulas e a taxa de desemprego dos licenciados pela FLUL varia entre 2% e 9%, dependendo do curso.

Texto de Alexandre Braz.

São muitos os alunos que desistem do ensino superior no primeiro ano da licenciatura. O facto é claro e afecta todas as instituições, mas umas mais do que outras. É o caso da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), a tal ponto que nem a falta de cadeiras em algumas salas de aulas preocupará quem foi eleito para zelar pela FLUL. Se no início do semestre há cadeiras a menos, no final do ano sobram cadeiras sem que nenhuma tenha sido acrescentada.

Considerando o que mostram as estatísticas dos anos mais recentes, durante o corrente ano lectivo quase metade dos alunos do primeiro ano de alguns dos cursos oferecidos por esta Faculdade irá perceber, ou irá confirmar, que o seu futuro passa por outro caminho que não aquele em que agora se encontra. Muitos mudarão de Faculdade e mais ainda desistirão de prosseguir estudos superiores.

Esta é a realidade que mostram os dados compilados pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), que, neste indicador, tiveram em conta todos os alunos inscritos no 1.º ano, pela 1.ª vez, em 2014/15 e em 2015/16. Amostra suficiente para se perceber quem mais sofre (ou provoca) a sangria de alunos na FLUL.

Falamos de Arqueologia, Estudos Portugueses e Filosofia, cursos que na FLUL e apenas ao fim de um ano de aulas perderam mais de 40% dos alunos. Arqueologia tem mesmo o pior registo de todos, visto que apenas 54,3% dos alunos permaneceram neste curso ao cabo de um ano de licenciatura. Em Estudos Portugueses foram apenas 55,3% e em Filosofia 58,3%. Como ponto de comparação, note-se que em média e em todo o ensino superior português a “taxa de permanência” de alunos após o primeiro ano situou-se nos 82,1%.

Mas há cursos da FLUL que até superam a média nacional. Vá, são apenas dois. Falamos de Línguas, Literaturas e Cultura (LLC) e de História, onde ao fim de um ano 84,6% e 83,2% dos alunos prosseguiram nos mesmos, respectivamente.

Grafico inscritos

Fonte: Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência; Em % total alunos

Esta (in)capacidade de segurar alunos por parte de alguns cursos da FLUL é apenas uma das conclusões possíveis de retirar dos recentes dados presentes no Portal InfoCursos da DGEEC.

[Ver análise a cada curso da FLUL no final do texto].

Mergulhando nestas estatísticas é possível fazer um raio-x às licenciaturas da Faculdade e perceber que, apesar de partilharem a mesma velha e remendada casa, estas vivem realidades bem diversas. A começar por uma das razões que justificará tanta sangria de alunos em algumas: o número reduzido total de estudantes em primeira opção.

A realidade de todo o ensino superior é que muitos cursos não são vistos como primeira opção (ou segunda) pelos estudantes. No global, apenas 42% dos alunos entra efectivamente naquela que elegeu como primeira opção. Mas apesar da média nacional ser baixa, certo é que seis das quinze licenciaturas da FLUL consideradas pela DGEEC comparam mal com a mesma, sendo que em quatro destas nem um terço dos alunos as apontou como opção principal: Ciências da Linguagem, Estudos Portugueses, Estudos Clássicos e Estudos Comparatistas.

Já entre as nove licenciaturas da FLUL que apresentam percentagens superiores à média de alunos “na primeira opção”, destaque para Tradução, onde 65,9% dos inscritos estava na sua primeira opção, a mais alta entre os cursos da FLUL.

Grafico opcoes

Fonte: Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência; Em % total alunos

Médias e Desemprego por licenciatura

Ainda seguindo os dados da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, e entre as várias análises possíveis aos cursos da FLUL, destacamos o que estas mostram relativamente a médias finais com que os alunos terminam os cursos e à probabilidade de ficarem no desemprego após a licenciatura.

Em termos de médias de final de licenciatura, e no conjunto dos anos publicados pela DGEEC, Estudos Africanos (77%), Estudos Europeus (71%) e Estudos Portugueses (60%) são os que apresentam maior percentagem de alunos que concluem esta fase com uma avaliação média até 13 valores.

Do lado oposto, Estudos Clássicos, Filosofia e Estudos Gerais, são as licenciaturas mais generosas (ou que melhor puxam pelos seus licenciados), especialmente a primeira – ainda que a amostra de licenciados nesta seja bastante reduzida (oito). Estes três cursos tiveram 51%, 36% e 31% de alunos a terminar com uma média de 16 valores ou superior, respectivamente. Estudos Artísticos, Artes e Humanidades e História emergem por seu turno como as licenciaturas “do meio”, ou seja, com um maior índice de médias finais de 14 e 15 valores – 56%, 51% e 50% dos licenciados.

Grafico medias

Fonte: DGEEC; Em % total diplomados; Sem dados para Estudos Comparatistas;

Em relação ao desemprego, há uma explicação prévia a ter em conta. Os dados da DGEEC não contabilizam se os empregos são ou não na área de formação, contando apenas se os licenciados da FLUL neste período estavam ou não empregados – seja na Torre do Tombo, seja no McDonald’s.

Assim, e no período em análise, o curso com mais licenciados em situação de desemprego, ou seja registados no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), era o de Artes e Humanidades, com 8,8%, seguindo-se Filosofia (6,9%) e História (5,4%) – isto quando a média do país para o desemprego entre todos os recém-licenciados se fixou em 5,5%.

Do lado oposto, estão os cursos de Estudos Artísticos e Tradução, onde apenas 2% e 2,6% dos licenciados, respectivamente, se encontravam registados em centros de emprego. Já quanto a Estudos Clássicos e Estudos Comparatistas a amostra de diplomados foi demasiado pequena para apurar dados relativos a desemprego, detalha a DGEEC.

Apesar do desemprego associado a algumas licenciaturas da FLUL comparar mal com a média global, o cenário muda de figura caso comparemos apenas entre o desemprego de recém-diplomados na área, onde nenhum dos cursos da Faculdade fica acima da média dos cursos comparáveis. Ou seja, se Filosofia apresenta 6,9% de desemprego, o que pode ser comparado a 5,5% de média global, este valor compara com os 8,1% de desemprego registado entre todos os formados em Filosofia a nível nacional.

Grafico iefp

Fonte: DGEEC; Em % total diplomados; Sem dados para Estudos Clássicos e Estudos Comparatistas;

CURSOS EM DETALHE:

Arqueologia

Ao final de um ano de aulas, 45,7% dos alunos inscritos em Arqueologia na FLUL desistiram do curso. Este era o pior registo entre as licenciaturas da faculdade no período analisado pela DGEEC. Seguramente não por acaso, os alunos que permaneceram no curso ao final do primeiro ano (54,3%) são quase tantos quanto os que optaram por esta via como primeira opção (54,4%).

Esta licenciatura apresenta igualmente uma das mais elevadas quotas de licenciados cuja média não superou os 13 valores (53% do total) mas, ainda assim, a entrada destes no mercado de trabalho é aparentemente mais fácil que a dos restantes licenciados em Arqueologia a nível nacional. À data de apuramento dos dados, 3,2% destes licenciados pela FLUL estavam registados no IEFP, o que compara com 6,4% a nível nacional entre os formados em Arqueologia.

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Artes e Humanidades

Entre os cursos oferecidos pela FLUL, Artes e Humanidades era dos que contava com um maior número de alunos de primeira opção, com 62,7%, pouco atrás do ‘líder’ neste campo, Tradução (65,9%). Talvez por isso perto de 75% dos novos alunos continuam na licenciatura após o primeiro ano de aulas e, entre os que levam a licenciatura até ao fim, mais de 70% conseguiu uma média superior a 14 valores. Mas a vida depois das aulas é mais problemática.

Segundo a DGEEC, a licenciatura de Artes e Humanidades da FLUL apresentava o maior índice de desempregados registados no IEFP entre os cursos da Faculdade. À data de apuramento dos dados, 8,8% dos licenciados deste curso estavam registados no IEFP.

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Ciências da Linguagem

Esta licenciatura era a que apresentava o menor índice de alunos em primeira opção entre todas as da FLUL, já que apenas 27,8% dos inscritos a assinalou como tal. Ainda assim, o curso convenceu: mais de dois terços dos novos alunos decidiram prosseguir o mesmo após o primeiro ano de aulas. O registo não é famoso – é o sexto mais baixo na FLUL -, mas fica acima de todos os outros cursos com tão reduzido total de alunos em primeira opção.

Tal como ocorreu com Arqueologia, pouco mais de metade dos licenciados não passou de uma média final acima dos 13 valores, mas, à data de apuramento dos dados, apenas 3,5% destes estavam registados no IEFP, contra os 6,6% de registados a nível nacional entre formados em Ciências da Linguagem.

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Estudos Africanos

Foi o curso com maior índice de licenciados que não obteve uma média final superior a 13 valores, com apenas 25% a fechar o curso com uma média superior. Apesar da reduzida percentagem de alunos em primeira opção (38%), a grande maioria decidiu prosseguir os estudos após o primeiro ano de aulas (77%).

Esta licenciatura é ainda aquela que apresentava uma maior percentagem de alunos entre os 21-24 anos, com 40% do total, e contava com 3,6% de licenciados registados no IEFP à data da compilação de dados pela DGEEC. A nível nacional, e entre os diplomados em cursos comparáveis, o desemprego era de 7%.

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Estudos Artísticos

Com apenas 2% de licenciados registados no IEFP, contra os 3,2% de média nacional, Estudos Artísticos – variante de Artes do Espectáculo, surge como a licenciatura da FLUL com melhor registo neste indicador. Com perto de 63% de alunos em primeira opção, Estudos Artísticos perde pouco menos de 30% dos novos inscritos ao fim do primeiro ano de aulas.

Em termos de médias finais de licenciatura, este foi o curso com maior percentagem de licenciados com médias finais de 14 ou 15 valores, com 56% do total, destacando-se também por ser o segundo curso com maior percentagem de alunos entre os 18-20 anos, com 62% do total – ‘perde’ apenas para Estudos Comparatistas, onde são 69% do total.

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Estudos Clássicos

À imagem de Estudos Comparatistas, a amostra de alunos em Estudos Clássicos no período analisado não foi suficiente para a DGEEC apurar dados para todos os indicadores que aplicou às demais licenciaturas, razão pela qual não surge qualquer referência ao total de diplomados neste curso inscritos no IEFP. Contudo, e apesar da amostra reduzida, esta é suficiente para a DGEEC identificar que apenas 30,8% dos alunos em Estudos Clássicos optou por este caminho como primeira opção, sendo assim uma das quatro da FLUL que nem atinge um terço neste campo. Em termos de médias, e apesar da percentagem mostrar que 38% terminou o curso com 17 ou mais valores, convém sublinhar que este peso diz apenas respeito a três licenciados – no período em análise apenas oito alunos terminaram este curso.

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Estudos Comparatistas

Com uma amostra tão reduzida quanto a existente para Estudos Clássicos, a DGEEC salienta que a inexistência de diplomados em 2015/2016 impede de avançar com a distribuição de licenciados por médias finais. Também por esta razão, o peso do desemprego entre os diplomados neste curso aparece como 0%. Contudo, e apesar da amostra reduzida, o curso merece três destaques: Estudos Comparatistas contava apenas com 27,9% de alunos em primeira opção, o valor mais baixo de toda a FLUL, e entre todos os inscritos, apenas 10% eram do sexo masculino, igualmente o mais baixo da FLUL. Além disso, este era o curso com maior peso de alunos entre os 18-20 anos, com 69% do total.

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Estudos Europeus

Este curso destacou-se como o segundo com o maior número de alunos a terminar com uma média final até 13 valores (71%), valor apenas superado por Estudos Africanos. Nos dois cursos não há registo de qualquer licenciado com uma média final de 17 valores ou superior nos anos contabilizados pela DGEEC, sendo estas as únicas licenciaturas da FLUL em que tal acontece.

Com 34,9% de alunos que encaram este curso como primeira opção, Estudos Europeus consegue ser a quinta licenciatura da FLUL com um maior índice de permanência ao final do primeiro ano de aulas, já que 79% dos novos alunos decidem prosseguir no mesmo para o segundo ano. Estavam ainda contabilizados 5,9% de diplomados como desempregados, valor que compara com 7% da média nacional para o mesmo curso.

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Estudos Gerais

A licenciatura onde se pode estudar “Astronomia e Astrofísica” ao mesmo tempo que “Cultura Clássica” e “Língua e Cultura Búlgaras” foi dos que mais atraiu alunos de primeira opção, com 62,4% do total de inscritos, o que se poderá justificar tanto pela flexibilidade do curso como pelo baixo índice de diplomados com médias até 13 valores (apenas 26% do total). Estudos Gerais apresentou mesmo uma das mais altas percentagens de licenciados com médias finais de 17 ou mais valores (19%).

À data do apuramento dos dados, 3,9% dos licenciados em Estudos Gerais estava no desemprego, não existindo dados de outras licenciaturas a nível nacional comparáveis.

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Grafico idades

Fonte: Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência; Em % total alunos

Estudos Portugueses

Poucos alunos em primeira opção (28,9%), mas o curso com maior número de inscritos de segunda opção (30,3%) entre os da FLUL, Estudos Portugueses destacou-se igualmente por ter um nível muito elevado de desistências ao final do primeiro ano, ‘sobrevivendo’ apenas 55,3% dos alunos, um registo que só Arqueologia conseguiu pior. Mas, ao contrário desta última, os ‘desistentes’ de Estudos Portugueses acabam por ser dos que mais privilegiam mudanças internas, já que 18,4% dos inscritos em primeiro ano deste curso mudaram para outra licenciatura da FLUL – segundo registo mais elevado, depois de Estudos Clássicos.

À data de apuramento dos dados 4,4% dos licenciados da FLUL neste curso estavam registados no IEFP contra os 6,6% de registados a nível nacional entre formados em Estudos Portugueses.

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Filosofia

Com o segundo registo mais elevado de alunos do sexo masculino (58%) e o mesmo no que toca a inscritos com mais de 30 anos (17%), a licenciatura em Filosofia da FLUL também se destacou por ser a terceira com mais desistências durante o primeiro ano de aulas no período analisado pela DGEEC, já que apenas 58,3% dos alunos permaneceram. Destaque também para o facto de 20% dos inscritos neste curso ter desistido do Ensino Superior ao fim de um ano, marca só superada por Arqueologia, com 22,9%.

Filosofia é também a licenciatura da FLUL com o segundo pior registo em termos de desempregados registados no IEFP (6,9%), ainda que fique aquém da média nacional para diplomados em Filosofia (8,1%).

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História

Entre os inscritos em História, 83,2% decidiu prosseguir na licenciatura após o primeiro ano de aulas, a segunda taxa mais elevada entre os cursos da FLUL, suficiente para ser um dos dois cursos da faculdade acima da média nacional neste campo (82,1%). No caso de História este dado é especialmente relevante se tivermos em conta que apenas 52,6% de alunos a encararam como primeira opção. No período analisado pela DGEEC, o sexo masculino respondia por 65% dos inscritos em História na FLUL e 18% dos alunos contava com mais de 30 anos, ambos os valores mais altos entre toda a Faculdade.

História apresentava igualmente um dos registos mais baixos de diplomados com médias até 13 valores (27%) e um dos mais altos no que toca a licenciados com médias de 14 ou 15 valores (50%). Em termos de desemprego, os 5,4% de diplomados em História pela FLUL comparavam com os 6,4% de média nacional entre todos os recém-licenciados em História.

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História da Arte

Com pouco mais de 40% de alunos em primeira opção, mas quase 30% em segunda opção, a licenciatura em História da Arte encontrava-se também entre as que mais convenceu os alunos, já que 81,6% dos inscritos permaneceram na mesma depois do primeiro ano de aulas. Entre a oferta lectiva da FLUL, este curso foi o segundo mais procurado pelo sexo feminino, com 75% do total de inscritos.

Tal como acontece na grande maioria das licenciaturas da FLUL, também o total de diplomados em História da Arte que se encontravam registados como desempregados está abaixo da média nacional entre os diplomados da área, com 5,2% e 6,7% respectivamente.

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Línguas, Literaturas e Culturas

A licenciatura de Línguas, Literaturas e Culturas (LLC) foi aquela onde mais alunos decidiram permanecer após o primeiro ano de aulas, segundo os dados da DGEEC. Do total de inscritos no ano inicial do curso, 84,6% decidiu permanecer, valor acima dos 82,1% de média para todo o Ensino Superior. Quanto a alunos em primeira opção, eram 61% em LLC.

À data de apuramento dos dados, 4,2% dos licenciados da FLUL neste curso estavam registados no IEFP contra os 5% a nível nacional entre formados em cursos comparáveis. Segundo a DGEEC, LLC contava com apenas 27% de inscritos do sexo masculino, o terceiro registo mais baixo entre os cursos da FLUL.

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Tradução

O curso de Tradução foi, entre toda a oferta da FLUL, aquele que contou com mais inscritos em primeira opção (65,9%), apresentando uma das mais elevadas taxas de permanência de alunos após o primeiro ano de aulas (81,6%). Esta licenciatura destacou-se também por ser a segunda da FLUL com menos diplomados registados no IEFP (2,6%) e por ter a terceira mais baixa percentagem de alunos entre os 18-20 anos de idade, com 44%, atrás de Filosofia e História.

No período analisado pela DGEEC, 40% dos diplomados em Tradução concluíram o percurso com uma média de até 13 valores, 33% com 14 valores e 16% com 16 ou mais valores de média global.

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Estudos Asiáticos e Estudos de Cultura e Comunicação

Estes cursos não surgem com dados apurados nos quadros estatísticos da DGEEC.

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