Santo Agostinho, Sobre a adivinhação dos demónios, 3, 7

Tradução do latim de Marcos Helena.

Imagem: As tentações de Santo Antão (Detalhe), Hieronymus Bosch, MNAA.

A natureza dos demónios é tal, que facilmente ultrapassam os sentidos dos corpos terrenos com os sentidos do seu corpo aéreo e vencem sem comparação não só a velocidade de quaisquer homens ou animais, mas também o voo das aves – por causa desta mobilidade superior do mesmo corpo aéreo. Possuidores destas duas qualidades no que diz respeito ao seu corpo aéreo – a saber: a acuidade dos sentidos e a celeridade do movimento –, os demónios pressagiam e anunciam muitas coisas antes de serem conhecidas, com o que os homens se espantam devido à indolência própria dos seus sentidos terrenos. Acontece também que os demónios adquirem de longe um maior conhecimento do mundo durante o muito tempo em que a sua vida se estende, do que os homens por causa da brevidade da sua vida. Com estas capacidades com que a natureza do corpo aéreo foi dotada, os demónios não só profetizam muitas coisas do futuro, mas também fazem muitas coisas admiráveis. Uma vez que os homens não podem nem dizê-las nem fazê-las, alguns pensam que os demónios são dignos de ser servidos e de receber honras de deuses – sobretudo por causa do vício da curiosidade, do amor da falsa felicidade e da excelência meramente terrena e temporal. Aqueles homens, porém, que se limpam destas concupiscências e não permitem nem ser enganados nem ludibriados, mas investigam e amam aquilo que é sempre do mesmo modo, por cuja participação se tornam bem-aventurados; esses homens, primeiro, consideram que não devem preferir os demónios a si próprios, apenas porque estes os ultrapassam em sentidos corporais mais afinados (porque são aéreos, i.e. de um elemento mais subtil). De facto, também não consideram que devem preferir os animais (com corpos terrenos) a si próprios, quando aqueles também pressentem muitas coisas mais afinadamente. Por exemplo: o cão sagaz, que encontra a presa escondida com o seu olfacto apuradíssimo; ou o abutre, que apanha em voo precipitado um cadáver desde uma altura extraordinária; ou a águia, que (diz-se) entrevê a longa distância um peixe a nadar entre as ondas e o apanha com destreza com as patas e as garras afiadas, planando sobre a água; oh e tantas outras espécies de animais, que não comem as ervas que lhes prejudicam a saúde, nem tocam em qualquer coisa que as lese. Ao invés, o homem só dificilmente e à força de muita experiência aprenderia a ter esses cuidados, a ponto de ter medo de insignificâncias, só porque as não conhece. É, portanto,  fácil conjecturar a partir destes exemplos quanto nos corpos aéreos possam os sentidos ser mais afinados. No entanto, nenhum homem de bom senso preferiria os demónios, por mais bem dotados que sejam, aos homens bons. E direi ainda isto a propósito da velocidade dos corpos: os homens são superados em rapidez não só pelas aves, mas também por muitos quadrúpedes, a ponto de parecermos chumbo comparados com eles. Porém, não passa pela cabeça de ninguém considerar estas espécies animais superiores aos homens. Pelo contrário, os homens dominam-nas não pela força do corpo, mas pela razão, capturando-as, domesticando-as e dobrando-as à sua vontade e proveito.

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